Instituto Alana lança publicação sobre comunicação acessível

Segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 45 milhões de brasileiros contam com algum tipo de deficiência, o que equivale a cerca de 24% da população brasileira. Desde 2013, e com mais ênfase a partir de 2016, o Instituto Alana trabalha o conceito de deficiência e inclusão. Como forma de divulgar seus conhecimentos e aprendizados sobre o tema, acaba de lançar a publicação Um caminho para a comunicação acessível. 

O conteúdo pretende ser um espaço de discussão e apresentação de caminhos seguidos pela organização para alcançar práticas mais inclusivas quando o assunto é falar com o público. Laura Leal, coordenadora de comunicação do Instituto Alana, explica que a inclusão passou a ser tratada de forma transversal dentro da organização e que, portanto, a comunicação é um dos eixos onde o tema deve ser discutido. 

“O Alana é uma organização que se preocupa muito com a comunicação. Estamos sempre olhando para as nossas estratégias e processos. Com todo mundo imbuído desse espírito da inclusão, buscamos entender como podemos fazer uma comunicação mais acessível e, nesse âmbito, estamos falando de inclusão e acessibilidade não só em sites, por exemplo, mas também em eventos.” 

Dessa forma, Laura enfatiza que a publicação foi uma forma que o Instituto encontrou para sistematizar aprendizados, dividir desafios e aprender sobre o que outras organizações estão fazendo. “Nós encaramos esse conteúdo como uma primeira versão de um trabalho coletivo, feito a muitas mãos, pois é algo em construção constante. Queremos compartilhar, principalmente, com o terceiro setor e comunicadores, mas posteriormente podemos pensar em outra versão com novas descobertas e arranjos.” 

O que é deficiência? 

Além de apresentar a linguagem como elemento que pode reforçar ou quebrar estereótipos, gerar ou eliminar barreiras, excluir ou incluir, o estudo aponta que a percepção sobre o poder da comunicação no âmbito da garantia de direitos e inclusão de pessoas com deficiência começa pela própria definição de pessoas com deficiência. Apesar de ser um conceito em constante mudança, deficiência pode ser definida, atualmente, “não como um limite individual que determina a situação de deficiência da pessoa, mas, sim, as barreiras existentes nos espaços, no meio físico, no transporte, na informação, nos serviços, nas relações interpessoais”.

“Uma pessoa da nossa equipe foi visitar um museu no Rio de Janeiro para locação para um evento. Ela perguntou sobre o elevador do local, que estava quebrado. O funcionário respondeu que, como ninguém com cadeira de rodas ia lá, não foi consertado. Então é essa perspectiva que devemos ter: o problema não é uma pessoa usar cadeira de rodas. Devemos pensar em como estamos organizando a cidade e as instituições públicas e privadas para que pessoas com e sem deficiência sintam-se acolhidas”, exemplifica Laura. 

A coordenadora  menciona ainda estudo realizado pelo Instituto Alana, em parceria com a ABT Associates, sobre os benefícios da educação inclusiva. “A pesquisa mostrou que os benefícios estendem-se a alunos com e sem deficiência. E é muito importante quando falamos de participação social. Precisamos entender que em ambientes mais diversos, as pessoas são mais criativas, mais empáticas e têm outra relação com o mundo, diferente de ambientes mais homogêneos.”

Eixos 

Os conhecimentos e aprendizados adquiridos ao longo dos anos pelo Alana foram sistematizados em seis capítulos: redes sociais, site, publicação digital, descrição de imagem, evento e vídeo, além de um relato do GT de Inclusão.  

Cada um comenta a trajetória que o Instituto percorreu para chegar no ponto de hoje que, segundo Laura, ainda é de aprendizado. Quando o assunto é rede social, são apresentadas as hashtags #PraCegoVer e #PraTodosVerem, que passaram a ser utilizadas como complemento a imagens, vídeos e GIFs nas redes do Alana. Laura relata que o Alana recebeu diversos relatos positivos de pessoas que, com a tecnologia de leitura de tela, passaram a “enxergar as imagens”. 

Já no capítulo dois, a publicação apresenta a reestruturação pela qual passaram alguns sites da organização para que seu potencial de acessibilidade fosse melhor explorado. O guia traz dicas sobre como escrever sobre pessoas com deficiência e aponta a necessidade de mudanças para atender a critérios de acessibilidade, como possíveis alterações em logotipos e cores das páginas. “Existem muitos validadores digitais para checar se algo é realmente acessível. Um dos aprendizados que tivemos é que precisamos de um validador humano, uma pessoa que use o site para dizer se está funcionando ou não”, explica Laura. 

Em publicação digital, são elencadas algumas preocupações que devem ser consideradas na redação e publicação de arquivos na internet, como a sinalização de títulos e subtítulos para que pessoas com deficiência visual possam entender a hierarquia do conteúdo. A disponibilidade de versões simplificadas de uma determinada publicação também é recomendada, considerando casos de dislexia, deficiência intelectual, entre outros. “Um desafio que encontramos no âmbito da publicação digital é que você pode transformar um conteúdo em ePUB, que é uma publicação mais acessível, mas isso não significa que a publicação tornou-se acessível, pois esse formato não permite descrição de imagem, não tem preocupação com leitor de tela, entre outros fatores.”

Histórico 

O Alana começou a se aproximar do tema quando, em 2013, iniciou o projeto Outro Olhar, que tinha como objetivo divulgar singularidades e competências de pessoas com Síndrome de Down. Diversas ações fizeram parte do leque da iniciativa e o desenvolvimento das práticas contribuiu para aumentar o desejo da organização de comunicar o valor que há na diversidade. 

Criado em 2016, o Grupo de Trabalho de Inclusão reúne-se quinzenalmente com o objetivo de, a partir de um espaço de troca, discussão e articulação, promover a inclusão e diversidade como valores institucionais expressos nos programas e ações do Alana. 

Em pouco mais de três anos de GT, os debates encontraram eco em diversas frentes da organização, como no programa Prioridade Absoluta, que criou um eixo de ação para a garantia da matrícula de crianças com deficiência na escola regular. 

“A partir do momento que começamos a ver que era necessário transversalizar o tema da inclusão, criou-se o GT com pessoas especialistas no tema e também representantes de diversos programas e áreas do Alana. O grupo sensibiliza, traz pautas e realiza reuniões para se aprofundar em algum tema ou ouvir pessoas com deficiência. A vantagem de ter essa diversidade de representantes no GT é que, além de trazer um olhar diverso para o tema, as pessoas podem sair desse lugar de encontro, voltar para seus programas e equipes e levar essa discussão”, afirma Laura. 

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