Institutos e fundações promovem mudanças em suas iniciativas para atender à realidade da juventude brasileira

O contexto atual não só do país, mas de todo o mundo, tem exigido das organizações reflexões, realinhamento de ações e novas propostas para trazer respostas aos desafios colocados. Para aquelas que atuam diretamente com a juventude, a busca por novos direcionamentos e iniciativas parece ser ainda mais relevante diante de um cenário marcado pelo desemprego juvenil e uma grande evasão escolar no Ensino Médio.

Assim, institutos e fundações, que há anos investem em programas voltados para educação e mundo do trabalho para jovens, têm trilhado outros caminhos e incorporando novas perspectivas para lidar com a realidade do jovem. Até mesmo iniciativas que atuam alinhadas à Lei da Aprendizagem, há 16 anos em vigor no país, têm sido reavaliadas.

A Fundação Roberto Marinho, que desenvolve há dez anos o Programa Aprendiz Legal, em parceria com o CIEE e a Gerar, por exemplo, fez uma atualização na proposta de formação de educação profissional entendendo que uma educação para o trabalho tem que levar também os desafios e as aprendizagens da prática para o encontro de formação – hoje, os 90 mil aprendizes ficam quatro dias por semana atuando nas empresas e um dia em capacitação teórica nas organizações formadoras.

Na avaliação de Aparecida Lacerda, gerente geral Educação Profissional da Fundação Roberto Marinho, a Lei de Aprendizagem é uma excelente oportunidade para contribuir para o aumento da escolaridade da juventude no Brasil e para acesso ao primeiro emprego. Isso porque a legislação estabelece que o jovem de 14 a 24 anos, se não tiver completado a Educação Básica, só pode ser contratado como aprendiz na empresa se estiver na escola.

“A evasão no Ensino Médio acontecesse porque esse jovem tem a necessidade de trabalhar e não porque ele simplesmente quer. A Lei da Aprendizagem tem, portanto, duas forças muito importantes: aumentar a escolaridade da juventude e combater o trabalho infantil e escravo, pois trata-se de uma formação profissional qualificada”, comenta Aparecida, enfatizando, porém, que a lei ainda não é implementada como deveria.

Hoje o Ministério do Trabalho estima que, se todas as empresas cumprissem o que determina a Lei nº 10.097/2000 – que estabelece que todas as empresas de médio e grande porte são obrigadas a contratar, na condição de aprendizes, adolescentes e jovens de 14 a 24 anos – haveria 1 milhão de vagas disponíveis. Porém, menos de 400 mil aprendizes estão trabalhando no Brasil. Para tentar mudar esse quadro, inclusive, diversas organizações associadas ao GIFE e participantes da Rede Temática de Garantia de Direitos têm se unido a fim de ampliar a discussão e reforçar a importância do cumprimento da lei.

A RT irá investir, por exemplo, na formação dos Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), órgãos importantes para implementar a lei, já que são eles que aprovam os cursos e as instituições que atuam nas formações.

“Existe um grande vínculo dessa lei com o direito. E o programa de aprendizagem deve ser encarado dessa forma e não como um privilégio para a juventude. Vemos o quanto essa experiência da aprendizagem é impactante para os jovens, pois abre um universo de possibilidades”, ressalta Aparecida.

Alinhar seus programas de formação profissional à Lei de Aprendizagem, inclusive, tem garantido que muitas iniciativas consigam se manter, mesmo em momentos de crises, com muitos cortes nos quadros de funcionários. Isso é o que tem observado o Programa Formare, desenvolvido há quase 30 anos pela Fundação Iochpe e que, atualmente, conta com 20% das empresas parceiras neste modelo de formação alinhada à aprendizagem.

“Os gestores conseguem, assim, manter o programa que mobiliza seus funcionários, que são os voluntários responsáveis pela formação destes jovens, garantindo um ambiente favorável na empresa, e justificam também os recursos no orçamento, além de cumprir a lei, claro”, comenta Beth Callia, coordenadora geral do Formare.

Segundo Beth, o Formare também tem se reinventado e realizou uma grande mudança na sua proposta pedagógica bucanndo atender às demandas do mundo do trabalho. Todo o material pedagógico agora está baseado no desenvolvimento de competências. No programa, durante um ano, a turma de jovens permanece diariamente nas empresas e, além da parte prática, participam de formações com os funcionários voluntários, que seguem uma série de materiais elaborados pelo Formare. Há a base comum de disciplinas, que discutem sobre competências para a vida e o mundo do trabalho e, uma base tecnológica, que é feita em acordo com cada negócio, além da base integradora, com projetos e atividades gerais.

O programa conta com um índice de 80% de inserção profissional. “Hoje, percebemos por parte dos empresários um interesse cada vez maior de contratar esses jovens que ajudaram a formar. O Formare tem sido mais visto como aliado na formação de jovens e contribuído nesse processo de recrutamento e seleção”, ressalta a coordenadora do programa. Neste ano, 1340 jovens participam do Formare, em 53 municípios de 11 estados.

 

Ensino Médio e mundo do trabalho

A aproximação entre educação e trabalho parece nunca ter estado tão em evidência no dia a dia da juventude brasileira. Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), divulgados no dia 19 de abril, mostram que o Brasil é um dos seis países com maior taxa de jovens estudantes entre 15 e 16 anos no mercado de trabalho.

Segundo o levantamento da OCDE (Organização para Cooperação de Desenvolvimento Econômico), 43,7% dos jovens brasileiros nessa faixa etária declararam exercer algum tipo de trabalho remunerado em suas rotinas, antes ou depois de irem à escola. Com esse número, o Brasil fica atrás apenas da Tunísia (47,2%), da Costa Rica (45,3%), da Romênia (45,3%), da Tailândia (43,9%) e do Peru (43,8%).

Os dados enfatizam que estamos diante de um estudante trabalhador e que, portanto, precisa ser olhado com atenção. Questionamentos como “de que forma esse jovem está se inserindo no mundo do trabalho? Que escolhas estão sendo feitas? Que qualidade têm estas oportunidades profissionais?” são fundamentais.

“Hoje, esse jovem do Ensino Médio tem pouca margem para escolhas e poucas chances de pensar sobre a sua trajetória. O que ele conhece sobre as profissões, por exemplo, normalmente é restrito. E essa escolha também é um direito da juventude. Só que ele precisa ter acesso a essa informação, sobre a realidade do país que ele vai enfrentar, e possa refletir sobre a inserção que ele já tem e o que ele quer. É difícil, inclusive, para alguns jovens que já estão inseridos no mundo do trabalho, marcado por uma inserção precária, com baixos salários, alta rotatividade, pressão por resultados etc., imaginar o que é um trabalho decente. Ele não enxerga questões motivadoras”, analisa Gabriel Di Pierro, assessor de juventude da organização Ação Educativa.

Essa constatação, inclusive, é o que motiva a Ação Educativa a realizar o projeto “Tô no Rumo – Jovens e Escolha Profissional”, que acontece em diversas unidades escolares e já alcançou mais de 5 mil jovens. As ações partiram de uma pesquisa, realizada há dez anos, chamada “Que Ensino Médio Queremos?”, investigando junto a estudantes, familiares, professores e equipes técnicas os sentidos e significados do Ensino Médio para jovens de cinco escolas públicas da zona leste de São Paulo. Identificou-se, naquele momento, um forte interesse por uma escola capaz de proporcionar a reflexão sobre o mundo do trabalho e propiciar um processo de orientação profissional, permitindo o delineamento de projetos profissionais, incluída aí a escolha de cursar o ensino superior.

Para disseminar essa proposta e levar a discussão para dentro do Ensino Médio, a Ação Educativa conta com uma parceria com a Universidade Federal do ABC (UFABC) e, pelo quinto ano, irá oferecer um curso de extensão universitária neste tema. As inscrições estão abertas até o dia 5 de maio (clique aqui para saber mais).

Segundo o coordenador do projeto, apesar da formação ser direcionada a professores do Ensino Médio e educadores em geral que queiram desenvolver, com jovens, atividades educativas focadas em temas como escolha profissional, mundo do trabalho e possibilidades de continuidade dos estudos, cada vez mais profissionais de organizações da sociedade civil e que atuam com a Lei da Aprendizagem nas empresas tem procurado o curso.

A proposta é que os educadores ajudem os jovens, em seus locais de atuação, a desenvolverem uma visão crítica sobre a realidade e possam construir uma trajetória autônoma, não só baseada no que é ofertado hoje. “A proposta é que, a partir das discussões promovidas, esse jovem possa pensar tanto na sua trajetória individual, mas também possa entender e fazer lutas coletivas para transformar a educação e o mundo do trabalho, pois essa é uma agenda de promoção dos direitos da juventude”, ressalta o coordenador da iniciativa.

Alguns investidores sociais já têm buscado realizar essa aproximação das suas formações às políticas públicas voltadas aos estudantes do Ensino Médio, como é o caso do Instituto Walmart. A organização desenvolve, desde 2010, a Escola Social do Varejo (ESV), que capacita jovens e os apoia na conquista do primeiro emprego formal, realizado em parceria com o Instituto Aliança.

O Instituto já tem algumas experiências de adaptação e aplicação da metodologia de forma integrada ao Ensino Médio, trabalhando com Secretarias Estaduais de Educação e levando o DNA do programa para a rede pública. A ESV já atuou em seis estados e, atualmente, apoia uma experiência no Ceará.

Luiz Herrisson, diretor do Instituto Walmart, destaca que o momento agora é de buscar opções para ampliar o alcance da iniciativa. “Avaliamos que a Escola Social do Varejo é um programa muito importante e que possui um excelente indicador de inserção, que é de 80%. Porém, temos avaliado oportunidades para dar escala ao programa. O número de inscritos em nossos núcleos tem crescido bastante e não conseguimos absorver tanta gente interessada em participar. Para se ter uma ideia, cerca de 4 mil jovens se inscreveram para as 500 vagas que abrimos nos quatro núcleos neste início de ano, em Osasco (SP), Recife (PE), Salvador (BA) e Porto Alegre (RS). Temos conversado com potenciais parceiros, inclusive com outros institutos e fundações que atuam na temática de juventude e trabalho”, ressalta.

Apoio institucional