Investidores sociais reforçam temáticas urgentes da agenda pública e apontam contribuições potenciais

 

Na pauta de debate oito temas urgentes e relevantes da agenda pública e a reflexão sobre o que, afinal, o Investimento Social Privado (ISP) pode fazer para ajudar a enfrentá-los, a colaborar para novos rumos e promover mudanças com impacto. Essa foi a proposta da trilha de atividades da programação aberta do X Congresso GIFE, realizado de 4 a 6 de abril, em São Paulo.

O objetivo foi convocar os participantes a discutir e pensar em ações práticas dos investidores sociais em assuntos como: gestão pública, cidades sustentáveis, direitos das mulheres, segurança pública, equidade racial, mudanças climáticas, água e migrações e refugiados.

A ideia foi, inclusive, dar início ao projeto ‘O que o ISP pode fazer por…’, a ser desenvolvido ao longo de 2018 para fomentar o engajamento dos investidores nestes assuntos que são ainda pouco explorados no campo com o objetivo de refletir sobre quais são as principais contribuições potenciais para cada uma das temáticas selecionadas.

Após o evento, serão promovidos novos encontros periódicos sobre estes e outros temas com investidores e organizações da sociedade civil que são referências nestes campos, para colocar os assuntos no centro dos debates e discutir possíveis caminhos para novas ações.

Confira como foram as discussões:

Direitos das Mulheres

“As empresas, independente de seu modelo de negócio, estão desafiadas a entrar no século 21 no que se refere aos direitos das mulheres”. A fala é de Jacira Melo, do Instituto Patrícia Galvão, que abriu os trabalhos da Roda de Conversa “Direitos das Mulheres”.

Para Jacira, ter o setor corporativo trabalhando pelo enfrentamento à violência contra as mulheres – que somam 52% da população e mais de 40% da força de trabalho do país – com a cobrança por políticas públicas efetivas em todo território nacional fará uma enorme diferença em razão de seu poder de incidência no ambiente de debate público.

“O lugar das mulheres é um lugar injusto. É relação injusta em casa, no trabalho, no transporte, onde quer que se ande. Estamos lidando com relações injustas porque essa é uma sociedade de poder masculino e branco, parcela da população que não vai abrir mão facilmente de seus privilégios. Nós que estamos aqui enquanto sociedade civil organizada e empresas, precisamos falar sobre isso e os homens que queiram se unir a nós neste enfrentamento, que o façam principalmente dialogando com outros homens.”

Renata Rodovalho, coordenadora de projetos do Instituo Avon, partilhou a experiência da empresa, que conta hoje com uma força de venda de 1,5 milhão de mulheres por todo o Brasil. “A partir da representatividade geográfica e por perfil econômico deste capital social, fizemos recortes de ação com foco no combate ao câncer de mama – câncer que mais mata mulheres no mundo – e no enfrentamento da violência contra a mulher e, a partir destes enfoques, desenhamos nossa linha de investimento social privado. A Avon também criou uma política interna de enfrentamento à violência a partir do feminicídio de uma funcionária de um centro de distribuição na Bahia. Está claro para nós como empresa e negócio a responsabilidade em relação à causa e ao empoderamento feminino”, salientou.

Margareth Goldenberg, gestora executiva do movimento Mulher 360, contou que a instituição trabalha no viés do empoderamento econômico de mulheres. “Quanto mais empoderada economicamente, menos vulnerável é uma mulher”, afirmou. O movimento nasceu complementarmente aos Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs, da sigla em inglês) promovidos pela ONU Mulheres. A entidade tem como foco três grandes públicos: os colaboradores das empresas com um trabalho pelo avanço da equidade de gênero institucional, as mulheres das comunidades nos entornos das corporações e as mulheres na cadeia de valor das empresas, ou seja, seus fornecedores. “Nossa missão é ajudar estas empresas a avançarem nestes princípios no dia a dia, de forma muito prática”, explicou.

Para Amalia Fischer, coordenadora geral do Fundo Elas, o feminismo tem papel fundamental no avanço do debate sobre violência contra a mulher na linha do investimento social privado. “É muito importante neste momento que nos reconheçamos como feministas. Se por um lado as empresas têm avançado, por outro, o contexto é adverso a cada uma de nós e às empresas também”, avaliou. Ela defende o apoio das empresas às organizações feministas que lutam pelos direitos das mulheres. “Estas organizações têm um capital imaterial precioso para todas as empresas que estão aqui. É preciso abrir a mente e o coração para começar a investir em terceiros e não só em seus projetos”, opinou.

Amalia mencionou o exemplo do Instituto Avon, que apoia o Fundo Elas, que por sua vez apoia organizações e movimentos de mulheres com recurso financeiro, conhecimento e fomento ao trabalho em rede. “Nós ouvimos o movimento para entender do que ele precisa e devolvemos isso a ele. Para as organizações de mulheres, é importante que se capacitem e nos procurem para receber conhecimento para mobilização de recursos. As organizações precisam de dinheiro para incidência e controle social das políticas públicas e porque são elas que sabem muito bem como fazer isto.”

Mudanças climáticas

Dois convidados endereçaram as questões e provocaram os participantes para a roda de conversa sobre ‘mudanças climáticas’. Alice Amorim Vogas, coordenadora do Portfólio de Política Climática e Engajamento do Instituto Clima e Sociedade, e Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Carlos começou explicando que o Observatório é um rede de organizações da sociedade civil com 16 anos de vida. Atualmente conta com 43 membros e tem como foco principal apoiar o avanço de políticas públicas ligadas ao enfrentamento das mudanças climáticas.

Para ele, o cenário é de atenção. Um dado alarmante: nos últimos 17 anos, tivemos 16 dos mais quentes desde que começamos a monitorar a temperatura do planeta. Olhando para os efeitos, é possível correlacionar o fato a diversos eventos: tivemos furacões no Caribe e na América do Norte, incêndios no México, secas e estiagens no Brasil, especialmente em suas regiões mais pobres. “Isso está se tornando cada vez mais normal, mais usual e cada vez pior”, alertou.

Em uma narrativa histórica, o representante do Observatório Clima lembrou importantes marcos. A primeira lembrança foi a Rio 92, uma mobilização para evitar que a interferência humana no aquecimento do globo não ultrapasse limites perigosos. Já em 2015 o mundo se uniu novamente em uma jornada pela questão do clima – mobilizando pesquisadores, setor privado e até o Papa Francisco. “Entendeu-se que agir pelo clima é importante, estratégico e próspero, inclusive do ponto de vista econômico. Isso precedeu e, de certa forma, culminou no Acordo de Paris, um importante marco para o campo”, disse, destacando que o Brasil é um dos signatários.

E qual a contribuição do Observatório nessa pauta? Carlos conta que a principal dedicação está na produção de conhecimento. Informações sobre energia, florestas, agricultura, pecuária, gestão de resíduos, mobilidade urbana. A organização também atua divulgando dados, sistematicamente, sobre as emissões brasileiras de gases de efeito estufa. Todo esse repertório está à disposição para o campo, inclusive para investidores sociais interessados a atuar nesta agenda. “É uma plataforma que tenta oferecer informação, apontar soluções para demandas urgentes e democratizar o debate entre a população em geral.”

Alicia Amorim, do Instituto Clima e Sociedade, dando sequência ao debate, fez uma provocação ao grupo: “Quando falamos em mudanças climáticas, qual a primeira imagem que vem à cabeça?” As respostas variaram entre a ameaça aos recifes de corais e as geleiras derretendo e colocando em risco a vida dos urso polares. Bingo. Para Alice o exercício é simbólico: “Em geral quando falamos sobre mudanças climáticas, as pessoas lembram de imagens muito distantes à vida cotidiana. Ou seja, nunca vem à mente a imagem humana. Sendo que os principais afetados são as pessoas. Não só afetados, mas também responsabilizados, já que o cenário atual é resultado de ações coletivas de todos nós. Onde que estão as pessoas nessa fotografia?”, provocou.

Para a especialista, existe uma tendência na agenda de entender o clima como questão florestal ou agrícola. Mas é importante ressaltar que é também um desafio muito urbano. E é também uma agenda de oportunidades. “Uma das iniciativas que apoiamos recentemente foi um movimento inter-religioso, juntando lideranças de várias religiões para discutir clima. Nesse episódio, percebemos que todos vinham de pontos de partida diferentes, mas chegavam num mesmo lugar: a preocupação com a água. Usando esse gancho, colocamos pessoas tão diversas falando de um tema comum e cooperando”, contou Alice.

Para ela, este campo – ao mesmo tempo tão urgente, mas tão desconhecido pela população em geral – é uma oportunidade para juntar pessoas diversas, para cooperar e discutir. “Trata-se de um grande agente de transformação. E a pergunta que fica é: como a filantropia pode olhar para o tema como um espaço de colaboração?”, questionou.

A própria representante do Instituto Clima e Sociedade deu a resposta: “Estamos falando de uma agenda transversal que impacta tantas outras áreas: a educação não chega ao aluno se falta luz na escola. Se você não tem acesso à energia, você está excluído em diversas formas: distante do alimento, do conhecimento, do transporte. Ou seja, é uma agenda que está intrinsecamente ligada à erradicação da pobreza. E nunca é demais reforçar que, quando estamos falando de clima, estamos falando de desenvolvimento, de um desenvolvimento de qualidade, que promova maior equidade, em um processo mais democrático”.

Para os especialistas participantes da atividade, o ISP precisa cruzar suas agendas com a pauta das mudanças climáticas, articulando diferentes vozes nesse diálogo. “Muitas vezes, dentro do próprio instituidor é possível encontrar respostas. Não há empresa que não esteja preocupada com a questão de energia, por exemplo. Nesse sentido, o ISP está muito mais atrasado do que o próprio setor empresarial”, concluiu Alice.

Migrações e refugiados

Outra mesa da trilha “O que o ISP pode fazer por…” discutiu a questão das migrações e refugiados no Brasil. Ofelia Ferreira, coordenadora do Programa Latino-americano de Migração da Fundación Avina, abriu a conversa celebrando o espaço para o tema. “Que oportunidade discutir isso no Congresso. Um assunto que acontece nas nossas cidades, diariamente, como podemos observar agora no processo de interiorização de imigrantes do Governo Federal, quando um grupo de venezuelanos acaba de chegar a São Paulo”.

No caso da Fundación Avina, existe um histórico de 20 anos nessa pauta. Há três anos, a organização chegou à América do Sul, especialmente no Chile e no Brasil, depois da migração da comunidade haitiana para esses países após o terremoto que assolou o Haiti.

“Nunca a agenda migratória foi tão importante do ponto de vista social e econômico. Se tratarmos essa situação do ponto de vista do medo e da xenofobia, vamos viver um momento mais intensificado de conflitos. Esse é um tema que não vai sair da agenda de prioridades. O mundo está amplamente conectado e as temáticas migratórias serão cada vez mais constantes. Como vamos assegurar direitos para essa população? Esse é o desafio da inclusão: inovação criativa, inclusive para o setor privada”, questionou.

Talvez esteja aí uma saída para a filantropia. Olhar para o tema pela lente da oportunidade, encarando e promovendo os encontros de idiomas, de culturas e de experiências como riqueza e alavanca para o desenvolvimento.

Ofelia reforçou que precisamos de inteligência estratégica – em governos, em OSCs e no setor privado. “Precisamos fomentar a cultura do encontro. A lente do medo não é um modelo que vai nos levar para um lugar melhor”, completou.

O padre Paolo Parise, coordenador da Missão Paz, trouxe um exemplo para a conversa, que provoca a reflexão sobre o olhar da oportunidade versus o olhar da ausência. Ele contou dois casos que vivenciou na Casa do Imigrante. O primeiro diz respeito a uma professora que, ao perceber um aluno boliviano muito tímido, o estimulou a contar para a turma um pouco de sua cultura, a mostrar danças e manifestações artísticas de seu país de origem. Em pouco tempo a criança se integrou perfeitamente à escola. No segundo caso, uma educadora ignorou o bullying que uma garota do Congo sofreu por conta de suas tranças típicas no cabelo. Resultado: a menina rejeitou a escola por medo.

“A imigração é uma grande oportunidade para todos. Precisamos encarar o tema dessa forma”, explicou o padre que coordena uma organização que existe desde 1930 e atua em 22 países do mundo. E complementa: “Comparando com o ambiente externo, percebemos que o apoio da iniciativa privada é muito maior lá fora do que aqui”, disse.

Padre Paolo lembrou o quanto o tema ainda não recebe o devido tratamento no país. “Frequentando Brasília para tratar dessa agenda, percebo que, em geral, é um assunto apenas de três ministérios: Justiça, Trabalho e Relações Exteriores. Imigração tem a ver com cultura, com educação, com saúde. Existe uma falta de noção da realidade com gestores públicos também”.

Ele finalizou sua fala lembrando os desafios atuais. “Temos que acolher e ajudá-los a se desenvolver. É uma grande oportunidade para a sociedade brasileira. Temos empresários hoje que chegaram ao país como refugiados anos atrás. Em geral, a vontade de dar certo nessa nova cultura é um valor muito forte para essas pessoas. Ontem mesmo, um imigrante venezuelano passou mal durante a chegada. Quem o socorreu foi outro imigrante, médico, que vivia lá na Casa do Imigrante”, contou.

Cleyton Abreu, que coordena um centro do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados no Brasil, trouxe para o evento a experiência de Boa Vista, em Roraima, o centro das atenções da questão migratória no Brasil, por conta da crise venezuelana. Ele lembrou a mudança do cenário por lá: em janeiro o escritório começou atendendo cinco pessoas, hoje atende em média 170, especialmente para apoio à regularização imigratória.

Segundo ele, Roraima se tornou uma região de perfil xenofóbico, desde que a população – especialmente a de classe média alta – teve que lidar com pessoas em situação de vulnerabilidade, imigrantes, circulando pelas ruas da cidade. “Chegamos a atos de violência. Temos relatos de partos desumanizados quando a gestante é venezuelana. Ou pequenos procedimentos cirúrgicos sem anestesia para essa população. Tudo isso no Sistema Único de Saúde (SUS)”, relatou.

A pergunta que ele deixou é: “Vamos continuar com atos de xenofobia, reforçar o quadro de exclusão? Precisamos muito do apoio dos institutos e fundações, da filantropia privada em geral, para mudar essa realidade”.

Camila Asano, coordenadora de programas da Conectas Direitos Humanos, lembrou um ponto importante: migrar é um direito humano. Ela colocou o assunto em perspectiva, lembrando que vivemos o pior momento desde a segunda guerra mundial, quando cerca de 65 milhões pessoas no mundo são obrigadas a deixar seus lares, a vivenciar um deslocamento forçado.

No caso do Brasil, temos apenas 10 mil refugiados que foram acolhidos legalmente. “Estamos longe de ser uma parcela responsável e solidária desse drama humano que vivemos. Só pra contextualizar: 14% da população dos EUA é formada por imigrantes. Na Argentina, nosso vizinho que tem uma economia muito menos vibrante do que a nossa, 4% da população imigrante. No Brasil é menos de 1%. E isso porque nos orgulhamos de ser um país formado por imigrantes. Fazemos muito pouco”, analisou.

Camila destacou que, em geral, o assunto geralmente cai para a vala da ausência do poder público ou para a importância do papel da sociedade civil. Segundo ela, a iniciativa privada acaba ficando de fora do debate. “Podemos fazer muito mais [todos os setores da sociedade]. Há uma dívida enorme que o Brasil deve se responsabilizar. E o ISP pode ser um indutor dessa mudança”.

Gestão pública

Nesta atividade, promovida pela Fundação Lemann, Vetor Brasil, Humanize e Fundação Brava, a proposta foi discutir os desafios da gestão pública no Brasil, principalmente em relação à gestão de pessoas, por considerar este um dos pontos de maior dificuldade dos governos. A inovação no setor público e as lideranças foram também questões debatidas.

Segundo os organizadores, em estudo realizado, notou-se que 30% dos gestores municipais só têm até o Ensino Médio. Hoje, 85 faculdades contam com cursos focados no campo da gestão pública, mas pouco se insere esses recém-formados. Questionaram-se então em como atrair os melhores talentos para o setor público para ajudar a fazer a transformação que se quer.

As organizações, inclusive, têm programas específicos para ajudar a qualificar os gestores e outras estão investindo na criação de novas formações focadas em profissionais que queiram atuar na gestão pública. A Vetor Brasil, por exemplo, tem uma formação de trainee para jovens que queiram atuar neste campo em início de carreira e outro programa que prepara profissionais para trabalhar dentro do governo em posições de liderança.

O grupo discutiu também a importância de desburocratizar processos, para que essa interação e parcerias entre investidores e órgãos governamentais possam ser possíveis, e as dificuldades de se avançar, muitas vezes, devido às constantes trocas de governantes, o que gera novos contatos e articulações, assim como a paralisação de mudanças de políticas públicas.

Para os participantes, o ISP pode contribuir não apenas com formação, mas trazendo inovações de processos, metodologias e compartilhando boas práticas. O monitoramento e a transparência também apareceram como questões fundamentais e que devem permear todas as iniciativas conjuntas.

Cidades sustentáveis

Nesta atividade, a proposta foi compartilhar o que organizações como a Fundação Tide Setubal, o Instituto Vedacit, o Fundo Socioambiental CASA e o Programa Cidades Sustentáveis estão desenvolvendo, em diferentes frentes de atuação, para colaborar com a construção de cidades mais sustentáveis.

A Fundação Tide Setubal, por exemplo, tem como missão, cada vez mais, contribuir com o desenvolvimento das áreas periféricas e pensar de que forma é possível promover essa integração à cidade, não pela fragilidade, mas por suas potências. Sua atuação principal é no Jardim Lapena, zona Leste de São Paulo, em que trabalha junto à comunidade, mostrando a necessidade de atuar mais com o planejamento urbano, contemplando a participação social em um Plano do Bairro. Na área de advocacy, tem ainda desenvolvido estudos sobre orçamento territorializado.

Já o Fundo Socioambiental CASA – criado há 11 anos – apoia projetos desenvolvidos por grupos de base, que conhecem seu território, mas têm dificuldade de ter acesso a recursos. Diante da crescente demanda por apoio, criaram um programa específico de cidades sustentáveis, com a realização de um piloto na cidade de Recife (PE), apoiando 28 grupos, com iniciativas de hortas urbanas, mobilidade (ciclismo e a pé), além de políticas públicas. A experiência foi ampliada para outras 10 regiões metropolitanas.

Jorge Abrahão, do Programa Cidades Sustentáveis, questionou os presentes sobre o que o ISP pode fazer pelas cidades, e destacou que é preciso fazer muito mais, principalmente com o engajamento das lideranças. Para isso, a Agenda 2030 da ONU, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), é uma janela de oportunidades, tendo em vista que trata-se de uma agenda comum. “O desafio para ela avançar é conseguirmos integrar os segmentos. Não é uma questão de governos, mas das empresas e da sociedade civil como um todo o enfrentamento e implementação desta agenda”, ressaltou.

Entre os possíveis caminhos de contribuição do ISP, apareceram questões como: a importância dos investidores olharem para temáticas ainda pouco apoiadas, como a questão da moradia, assim como investirem mais recursos em iniciativas de organizações que já têm larga experiência no campo, fortalecendo suas atuações e resultados. Apoiar seus mantenedores – principalmente aqueles ligados às empresas – a encontrarem novos caminhos para a produção e comercialização de seus produtos pode garantir também cidades mais sustentáveis.

Segurança pública

A roda de conversa convocou os participantes a debater, junto com os organizadores – Instituto Betty & Jacob Lafer, Instituto Sou da Paz e Fórum Brasileiro de Segurança Pública – a agenda de segurança pública.

Os debatedores trouxeram a tona, por exemplo, a dificuldade em se definir de forma padronizada o que é gasto e investimento em segurança pública, o que dificulta a avaliação das políticas públicas nesta área. Apontaram também a necessidade de avançar em programas e iniciativas que sejam voltados às principais vitimas da violência, como os jovens negros e as mulheres.

Para os especialistas, o ISP precisa ter um papel mais ativo e apoiar mais iniciativas que atuam com a questão da segurança ativa. Outro caminho é promover ações que colaborem na produção de informação sobre este campo – pesquisas, estudos, avaliações etc. – assim como criar ou apoiar programas focados no combate aos diversos tipos de violência dentro das empresas mantenedoras.

A sociedade civil pode ainda ter papel ativo na elaboração das políticas de segurança, colaborando na construção de ferramentas para que a política pública se qualifique, na mediando as relações entre governos, políticas, sociedade etc., e qualificando o debate. É preciso, para os especialistas, quebrar com o paradigma de que a segurança pública é questão de polícia e sim de que trata-se de algo coletivo.

Equidade racial

Instituto Unibanco, Fundo Baobá e CEERT estiveram à frente da organização do debate sobre ‘equidade racial’, tendo como pano de fundo os diversos índices que mostram a grande desigualdade ainda presente no país como, por exemplo, o fato de 10% da população mais pobre ser negra e 11,8 da população negra ser analfabeta.

Selma Oliveira, diretora executiva do Fundo Baobá, destacou a importância das ações pró-ativas neste campo, pois não basta mais dizer apenas ‘não vou discriminar’.  O convite é que todos, em suas áreas de atuação, possam identificar o que é possível fazer para essa agenda avance, tendo em vista que trata-se de uma questão urgente para o desenvolvimento da democracia.

Cida Bento, coordenadora executiva do CEERT, destacou também as oportunidades de incorporar de fato a equidade racial nas empresas, trazendo este olhar para todas as iniciativas, seja no programa de voluntariado, num edital, na seleção de profissionais etc. Ter como norte as métricas e indicadores dos ODS também são fundamentais. Mais do que ações de sensibilização sobre o assunto, segundo os debatedores, é preciso ações e estratégias de fato eficientes, inclusive com mensuração de resultados que apontem as mazelas e, a partir daí, seja possível desenhar novos caminhos mais equitativos.

Água

“A água talvez seja um dos temas, daqui para os próximos anos, não só urgente, mas um dos mais emergentes que vamos ter contato. As crises hídricas vem aparecendo como uma das grandes ameaças. Como nos vamos lidar com a água vai ser decisivo pra vida no século XXI”, pontou logo no início da sua fala Marucia Vagle, da Aliança pela Água, uma das proponentes desta roda de conversa, juntamente com o Instituto Coca-Cola.

Segundo Marucia, os aprendizados com a crise em São Paulo e em outras partes do Brasil não é positivo, pois percebeu-se um modelo de gestão que prioriza a busca por novas fontes ao invés de cuidar da gestão eficiente, do consumo etc.  Segundo a especialista, é preciso pensar neste tema sob vários aspectos, como recurso, por exemplo, para a irrigação e abastecimento animal etc., que utilizam mais de 60% da água disponível.

O Brasil, inclusive, recebeu no mês passado o Fórum Mundial da Água e, como produto concreto desta iniciativa, teve o Compromisso empresarial pela segurança hídrica, algo que pode ser um bom ponto de partida para atuação do ISP.

O Instituto Coca-Cola compartilhou a sua experiência nessa agenda com a experiência do programa Água+Acesso, desenvolvido em áreas rurais com dificuldade de acessar a água e saneamento, por meio de uma autogestão comunitária. Entre os resultados, está o trabalho conjunto com 15 organizações em três estados, atendendo mais de 100 comunidades.

Contribuições do investimento social

Durante o congresso GIFE, perguntamos aos participantes quais as contribuições do investimento social para novas agendas e convergências no país. Confira:

 

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