O papel das novas gerações de famílias empresárias na migração de recursos filantrópicos para investimentos de impacto

No Brasil, os efeitos da disseminação da Covid-19 foram enfrentados por meio de uma mobilização ampliada de recursos, da criação de novas oportunidades de colaboração e expansão de agendas e estratégias e modelos de contribuição.

Para o investimento social e filantropia brasileiros, esses resultados significaram um salto de expansão e desenvolvimento, além da diversificação de perfis e formatos de atuação. A promoção da cultura de doação na sociedade brasileira, combinada com a criação de novos agentes de mobilização e gestão de recursos filantrópicos, abre caminho para uma ação ampliada e em maior colaboração com as políticas públicas.

Esse cenário foi o ponto de partida do painel Novos Atores na Filantropia e Investimento Social Brasileiros, realizado em setembro de 2020, como parte do trilho de atividades do 11º Congresso GIFE.

Para aprofundar esse debate, trazendo as perspectivas para o tema em 2021, o redeGIFE entrevistou Beatriz Johannpeter, membro do Conselho de Governança do GIFE no período 2014-2017 e consultora associada da Cambridge Family Enterprise Group Brasil, consultoria internacional na criação de valor para famílias empresárias.

A inovação impulsionada por novas gerações de investidores familiares na gestão e destinação dos recursos, além do fortalecimento do ecossistema de investimentos e negócios de impacto social e ambiental são alguns dos aprendizados destacados pela especialista no bojo do enfrentamento aos desafios e consequências da pandemia no Brasil.

Confira a seguir a entrevista na íntegra.

redeGIFE: No Brasil, a pandemia acelerou um movimento de colaboração há muito identificado e estimulado no âmbito do investimento social e da filantropia. Como você avalia esse fenômeno que articulou tanto parcerias entre organizações do setor quanto com outros atores, como a sociedade civil e o próprio poder público? Quais são os principais desafios e também os aprendizados desse amplo movimento.

Beatriz: Corporações que têm como principal responsabilidade social garantir compromissos com seus stakeholders foram além e, rapidamente, realizaram doações em valores superiores a dez milhões de reais para responder às necessidades emergenciais, suprindo, em muitos casos, a falta de agilidade do poder público. Em paralelo, muitas dessas organizações mantiveram seus investimentos nas comunidades em que estão presentes por meio de seus institutos e fundações. 

Ações que congregam doações relevantes de famílias empresárias e de pessoas físicas privilegiadas foram estruturadas por organizações consagradas do terceiro setor. É o caso do  Fundo Emergencial para a Saúde – Coronavírus Brasil, iniciativa de Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), Movimento Bem Maior e BSocial, com apoio do GIFE, Synergos e tantas outras que demostraram que a experiência e a articulação da sociedade civil são ferramentas imprescindíveis para enfrentar nossos desafios sociais.

Me parece ser sem precedentes também a forma como a população em geral, independente da geografia, classe social e atividade profissional, se mobilizou e se engajou. Cidadãos e organizações da sociedade civil se articularam voluntariamente para doar alimentos e produtos de higiene para quem mais precisava. Algumas iniciativas mais ligadas às comunidades periféricas, perante à crise, tiveram que reagir e inovar. Esse processo nos traz novos aprendizados e tende a nos levar a um novo nível de consciência. Ficaram fortemente evidenciadas as nossas desigualdades, e, com isso, passaremos a repensar nossa forma de agir, de nos relacionar e de doar.

redeGIFE: Que novos perfis de doadores/investidores, agentes de mobilização e gestão de recursos filantrópicos e formatos e ferramentas surgiram a partir dessa vivência da colaboração colocada como motor para responder à situação de emergência?

Beatriz: Foi possível notar um número importante de doadores pessoas físicas com alto patrimônio e de Family Offices se mobilizando para doar emergencialmente. Novas iniciativas também estimularam atores diversos que se engajaram de forma ágil e inovadora. Estruturas de crowdfunding e matchfunding feitas via sites como Benfeitoria, Vakinha e Catarse foram ativadas para apoiar um número enorme de demandas diversas e pulverizadas em todo o território nacional. O ecossistema de negócios de impacto e os fundos filantrópicos também ganharam destaque com a situação de emergência e devem se tornar mais relevantes daqui para frente.

redeGIFE: Qual é o papel do investimento social familiar, em especial das novas gerações de investidores familiares, na promoção de inovação no setor filantrópico e do ISP no Brasil? Que oportunidades esses investidores apontam para o setor e, ao mesmo tempo, quais podem ser vislumbradas para a atuação deles na direção de uma transformação social positiva no país?

Beatriz: As novas gerações estão revolucionando o investimento social familiar por meio de uma forte migração de recursos filantrópicos para investimentos de impacto ou sustentáveis. As famílias empresárias já perceberam que não vão conseguir responder às desigualdades brasileiras com projetos isolados e têm demonstrado um desejo de experimentar e fomentar investimentos de impacto também como forma de contribuir para um mindset de incentivo ao empreendedorismo social. Essa transformação na forma de atuar deve resultar em uma enorme migração de ativos financeiros para investimentos responsáveis. Além disso, esses investimentos têm sido um elemento importante para atrair e desenvolver membros da nova geração de famílias empresárias, já que as iniciativas desenvolvidas são um verdadeiro ganha-ganha.

redeGIFE: Que relação você visualiza entre esse fortalecimento do ecossistema de investimentos e negócios de impacto social e ambiental e os novos atores e arquiteturas do investimento social privado e da filantropia?

Beatriz: A pandemia provocou um aumento das doações e um despertar da consciência de todos quanto às nossas desigualdades sociais. Deflagrou, além das questões emergenciais de saúde, uma relevante mobilização em relação às necessidades das comunidades vulneráveis. Gerou também impactos paralelos que provocaram um novo entendimento da importância da diversidade racial, de gênero, etc. Com isso, a filantropia e o ecossistema de investimentos e negócios de impacto em comunidades vulneráveis ganharam visibilidade e atratividade. Percebo que muitos dos atores que foram impulsionados pela situação de emergência passaram a querer conhecer melhor esses universos.

redeGIFE: Na sua avaliação, como toda essa nova arquitetura do setor do ISP e da filantropia deve influenciar a cultura de doação na sociedade brasileira no próximo período?

Beatriz: Como sociedade, amadurecemos e aprendemos muito nos últimos meses. Nunca se endereçou tantas questões sociais de forma prática com criatividade e solidariedade. Essa nova abordagem, agilidade e transparência certamente são fatores que já estão influenciando nossa forma de entender e de realizar doações e devem impactar nossa cultura de doação.

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