Oficinas promovem reflexão sobre cultura de doação, gestão institucional e acesso a recursos

Inquietações que transitam entre os temas da cultura de doação, gestão institucional e acesso a recursos nortearam algumas oficinas da programação aberta do X Congresso GIFE.

Com a proposta de apresentar iniciativas que, de modos diversos e complementares, atuam no campo para promover a cultura de doação, uma das oficinas contou com a participação do IDIS – que apresentou o estudo Charities Aid Foundation, sobre o potencial transformador da doação da classe média até 2030 – e de autores dos projetos vencedores do Fundo BIS –  primeiro fundo brasileiro destinado exclusivamente para ampliar a cultura, o volume e a qualidade das doações no país.

O IDIS apontou o poder transformador da classe média, com a potencial transição de bilhões de pessoas para um processo de relativa fartura nos próximos anos, que traz como desafio como fazer com que esse aumento de ganhos se traduza também em aumento de doações. E nesse sentido foram apontadas quatro barreiras para que isso se materialize: 1. Não se entende a função das organizações da sociedade civil no Brasil; 2. Os brasileiros não enxergam o papel transformador das doações, como algo que pode mudar uma situação; Os brasileiros não confiam nas OSCs; 4. Os brasileiros acham que quem doa não deve divulgar que fez a doação.

As iniciativas selecionadas pelo Fundo BIS foram apresentadas na sequência: pesquisa comportamental sobre doadores médios, que será realizada pela Conectas e pela Fundação Getúlio Vargas; o Marco Bancário da Doação, da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR); o Movimento Arredondar; e a plataforma Viralize.

A pesquisa da Conectas e da FGV, ainda em andamento, parte do princípio de que conhecer e saber o perfil e o comportamento dos doadores é ponto de partida fundamental para que as OSCs possam pensar e traçar as melhores estratégias de mobilização de recursos. E percebendo que existe ainda um gap de informações a respeito de um tipo de potencial doador brasileiro, o com alta renda salarial, propôs então um levantamento para conhecer motivações e o que mais incentiva este grupo a doar. Outro ponto específico da pesquisa é entender o que motivaria possíveis doadores a direcionarem recursos especificamente a organizações que atuam com direitos humanos.

João Paulo Vergueiro, da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) abordou o andamento das discussões sobre a criação do Marco Bancário da Doação, que visa normatizar a doação junto ao sistema bancário para que seja reconhecida como transação financeira distinta das transações comerciais. Nina Valentini, presidente do Movimento Arrendondar, abordou a iniciativa de arredondamento em plataforma de e-commerce. E Rodrigo Bueno, da consultoria Estúdio Cais, apresentou o projeto Viralize, que busca a audiência presente na internet, por meio de influenciadores digitais, para causas e projetos que precisam de financiamento.

Simultaneamente a esta programação, a oficina sobre Fortalecimento das OSCs: gestão institucional e acesso a recursos contou com a participação de Graciela Hopstein, da Rede de Filantropia para a Justiça Social; Márcia Woods, pela plataforma Captamos; e Tiago Alvim, da Nexo Investimento Social. A mediação foi realizada pela coordenadora de advocacy do GIFE, Aline Viotto. Foram abordadas estratégias que vêm sendo implementadas pelas organizações para fortalecer sua capacidade institucional, as possibilidades e desafios de acesso a recursos e como investidores sociais e OSCs têm atuado e podem auxiliar nessa frente.

“É a primeira vez que, num congresso do GIFE, fica tão clara a necessidade desse apoio mais estratégico, como um todo, para as organizações da sociedade civil”, diz Graciela. “A Rede de Filantropia para a Justiça Social reúne fundos que promovem doações para a sociedade civil via grantmaking, e isso é um apoio complexo, porque implica não só doação de recursos, mas desenvolvimento de capacidades e fortalecimento institucional. Os fundos têm a ver com justiça social e direitos humanos. Chegaram para apoiar as causas lá da ponta, e por isso sempre tiveram como foco financiar pequenas e médias organizações. Quando pensamos em apoiar OSCs que trabalham com direitos, estamos pensando em fortalecer a democracia no Brasil, e isso passa pela distribuição de direitos e recursos”.

Graciela define o trabalho dos fundos como difícil, porque implica em captar para doar, e a capação ainda é considerada um gargalo. Cerca de 80% dos fundos que a Rede mobiliza vem de apoiadores internacionais, e pouquíssimos envolvem poder público. “A mobilização de recursos tem que ser vista como um ato político. E a seleção dos apoiados também. Uma das questões no caso desses fundos é que, pelo fato de atuarem em áreas pouco comuns, conhecem profundamente as agendas. A gente fala em parceria, cocriação. A gente se alimenta do que as organizações na ponta sabem fazer melhor do que ninguém. Mas os fundos também têm uma sensibilidade de entender quem está precisando do recurso. Há uma interpretação de uma necessidade de apoiar determinadas causas e agendas”.

Márcia Woods abordou a realidade da captação dentro das OSCs, que normalmente não possuem um setor estruturado para isso. “A desigualdade que se tem no país é realidade para o terceiro setor também. Temos grandes organizações que estão promovendo coisas muito sofisticadas e campanhas para captar recursos, ao mesmo tempo em que as pequenas não têm nenhuma estrutura para realizar isso. Todo mudo debate a cultura de doação, mas a gente quer discutir também a cultura da ‘pedição’, como a gente pede recursos”.

Ela aponta que o brasileiro hoje vem desenvolvendo um engajamento maior, e é preciso aproveitar isso. “Se a gente não conseguir comunicar para engajar, não vamos mudar isso. É preciso aproximar as pessoas das nossas causas, e então elas serão aliadas. As pessoas cada vez mais estão descrentes das instituições e cada vez mais acreditam nas pessoas próximas, em seus pares. Assim, a comunicação mais acessível é ponto crucial não só para defender as causas, mas para trazer recursos”.

Tiago Alvim, da Nexo, abordou os incentivos fiscais, que em sua visão acabam sendo muito criticados e por isso muitas vezes perde-se o foco do quanto eles são importantes. Além de trabalhar na Nexo, Tiago atua também na plataforma Prosas.

“Na Nexo a gente faz isso off-line e no Prosas, online. O governo federal nos deu uma escolha para destinar para onde vai parte do nosso dinheiro. A gente precisa se mobilizar, porque uma vez que o governo federal deu essa autorização, a gente precisa aplicar esse recurso. E aplicar bem”.

Uma crítica apontada por ele diz respeito à concentração de recursos no eixo Rio-São Paulo, que leva cerca de 70% dos recursos. “Dizem que tem muito projeto que circula pelo Brasil. Sim, circula, mas com uma narrativa que não é produzida nesses locais. Hoje 30 grupos empresariais são responsáveis por 50% do investimento da Lei Rouanet. Podemos discutir com elas e aperfeiçoar isso. Há causas e possíveis soluções para isso, como crise de confiança, a localização da sede do investidor, a competição (melhores projetos) versus o desenvolvimento territorial, a promoção de políticas e ações deliberadas para descentralização e a retomada do crescimento como grande oportunidade. Vamos ter uma retomada da economia nos próximos anos. Teremos uma janela de oportunidades e podemos corrigir um pouco esse quadro a partir do dinheiro novo que está chegando, sem retirar aquilo que já está aplicado”.

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