Os aprendizados possibilitados por tecnologias digitais na pandemia

Tendo em vista seu papel central de gerar conhecimento a partir de articulações em rede para aperfeiçoar o ambiente político e institucional do investimento social, o GIFE organiza, todos os anos, encontros, painéis, eventos, reuniões e apresentações presenciais que reúnem a rede de associados e convidados que fazem parte do ecossistema do investimento social privado e filantrópico. 

Com isso, a ideia é ampliar a qualidade, legitimidade e relevância da atuação dos investidores. Como continuar com essas práticas, uma vez que os encontros foram suspensos em razão da diretriz de distanciamento social para conter a disseminação acelerada do novo coronavírus? 

Considerando que não é possível falar sobre o ano de 2020 enquanto uma oportunidade – afinal, como enxergar um lado positivo diante do fato de que milhares de pessoas perderam a vida, seus empregos e sustento desde o surgimento da Covid-19? -, o mais acertado, é, portanto, refletir sobre o que passou e como os momentos desafiadores trouxeram consigo milhares de aprendizados, que se multiplicaram em diversas áreas e instâncias da vida e abriram novas possibilidades, inclusive para o enfrentamento à crise e o pós-pandemia.

Assim como escolas que passaram a adotar o ensino remoto, escritórios que começaram a funcionar no sistema home office e muitos outros setores que promoveram mudanças, o GIFE valeu-se da tecnologia para aproximar as pessoas durante a pandemia e possibilitar a continuidade de ações mesmo à distância. 

Para José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE, antes mesmo de pensar nos impactos que a nova dinâmica de interações trouxe para a vida em sociedade, é importante reconhecer a agilidade e prontidão do setor da filantropia, investimento social e sociedade civil em desenvolver, aprimorar, redirecionar e adaptar ações para responder às consequências da Covid-19 no país, bem como os setores essenciais, que continuaram suas atividades para atender à população. 

“Se o setor trabalha com produção de alimentos, provisão de transporte público ou produção de bem público de modo geral, sua primeira grande contribuição é continuar, ou seja, dar sequência e seguir realizando e produzindo apesar da adversidade. Depois, no caso do investimento social, o setor também se desdobrou em ações emergenciais múltiplas. Acredito que essa capacidade de adaptação para organizar o trabalho remoto e, com isso, combinar ações de apoio nas áreas de saúde, produção social, educação e também ações presenciais com todos os cuidados e protocolos foi muito importante”, explica. 

Pandemia reforçou importância da inclusão digital 

“Você está no mudo”, “liguem as câmeras”, “vamos fazer uma call?”, “vou compartilhar minha tela” foram algumas das frases faladas milhares de vezes ao longo dos últimos meses. Isso porque, desde a adoção de medidas como distanciamento social e quarentena, a tecnologia entrou em cena como o recurso para aproximar as distâncias e possibilitar a continuidade das atividades. 

Para José Marcelo, o aumento do uso da tecnologia se configura como um dos processos em que acontecimentos históricos adversos e severos – como é o caso de guerras e pandemias – promovem avanços nos modos de organização social, de cooperação e inovações tecnológicas. Se antes já se buscavam dinâmicas de interação remota, a pandemia obrigou, de uma hora para outra, que todas as pessoas que tinham a possiblidade de ficar em casa, o fizessem em nome do bem coletivo, trabalhando e interagindo a partir do uso de ferramentas como videoconferência e tantas outras. 

Todo esse processo também reforçou a urgência da reflexão sobre inclusão digital. No Brasil, foi comum deparar-se com relatos de professores que percorriam grandes distâncias para entregar atividades e apostilas impressas aos seus alunos, sobretudo àqueles que moram em regiões de alta vulnerabilidade ou rurais que, em muitos casos, não contam com sinal de internet ou aparelhos para acessar as tarefas. 

“No começo da pandemia, lembro-me que havia um temor se a nossa infraestrutura de rede daria conta de todos os acessos e, felizmente, deu, ainda que nós saibamos o quão limitado e desigual é o acesso no país. Essa vivência consolidou a inclusão digital, ou seja, o acesso a internet de qualidade, como um imperativo fundamental a ser universalizado”, reforça José Marcelo. 

Impacto das tecnologias digitais 

Apesar dos muitos impactos que a quarentena e o medo da infecção pelo vírus causaram e ainda causam na população, José Marcelo pontua que, mesmo que a tecnologia não desempenhe o papel de suprir a interação humana afetiva e presencial, ela pode e foi bem sucedida em abrir novas possibilidades de diálogo. 

O GIFE, assim como muitas outras instituições, precisou mudar planos previamente estabelecidos em razão da pandemia. É o caso de seu 11º Congresso, marcado para acontecer, originalmente, em maio de 2020. O adiamento incentivou, entretanto, que a equipe repensasse os moldes do evento e expandisse toda a discussão, que teve início em agosto de 2020 e culminará em um grande evento previsto para março de 2021. 

Com essas novas dinâmicas, foi possível, por exemplo, ter cada vez mais pessoas participando de atividades coletivas. “Prescindir do deslocamento permitiu uma agilidade na criação de momentos de cooperação com muito mais facilidade. Com isso, tivemos um aumento de oportunidades de interação, de contato e uma interconexão aprofundada entre pessoas que estão em pontos variados do país, de organizações e de segmentos diversos. Para o GIFE, isso foi muito rico, pois sempre temos esse desafio de nacionalizar mais o nosso trabalho e a nossa rede.” 

Para o coordenador, esse dinamismo e agilidade possibilitados pelas tecnologias digitais pode ter sido um fator positivo na rápida articulação de respostas à pandemia, uma vez que o ambiente de funcionamento da rede online permite interconexões dinâmicas, seja via vídeoconferência, WhatsApp, e-mail ou outras ferramentas que materializam oportunidades de ação colaborativa e conjunta.

O equilíbrio necessário para os próximos passos 

Ao mesmo tempo em que muitas pessoas falam da pandemia no passado, como se esse fosse um capítulo superado da história da humanidade, médicos e demais especialistas da área da saúde e ciência reafirmam a importância de a população continuar alerta aos perigos de contaminação e disseminação acelerada do vírus em um momento em que as estatísticas já mostram aumento importante de casos e óbitos. 

Quando a situação estiver sob controle, José Marcelo acredita que o desafio será encontrar o melhor balanço e equilíbrio entre a vida presencial e seus pontos positivos – como a qualidade das interações – e a preservação dos ganhos obtidos pelo uso intensivo de tecnologias digitais durante todos esses meses. 

“Acredito que se trata de um balanço equilibrado entre o normal antigo que conhecíamos e esse novo contexto que nos foi apresentado, para produzirmos, entre muitas aspas, um novo normal melhor, também do ponto de vista das dinâmicas de trabalho, de circulação cotidiana, de interação e de realização pública. Pensar nessa combinação vai ser fundamental para o próximo período”, completa. 

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