Os desafios enfrentados por crianças e jovens durante a pandemia, segundo as RTs do GIFE

Aumento das desigualdades e da pobreza, crianças e jovens em situação de fome e insegurança alimentar, diminuição da renda familiar, dificuldade de acesso a conteúdos pedagógicos online por falta de conectividade e aparelhos tecnológicos adequados, aumento da violência em razão do distanciamento social: a pandemia de Covid-19  trouxe consequências graves para diferentes setores. É o que apontam representantes das redes temáticas (RTs) de Garantia de Direitos de Crianças e Adolescentes e Juventudes do GIFE.

“Crianças e adolescentes tiveram muitos de seus direitos e acessos violados. Com o distanciamento social, as crianças ficaram muito mais em casa e, com isso, o número de violências aumentou muito”, explica Eloísa Canquerini, coordenadora de Sustentabilidade do Santander Brasil, uma das organizações que integra a coordenação da RT. 

A coordenadora cita a pesquisa Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cujos números traduzem o cenário de desafios de crianças e jovens: 

–  61% dos entrevistados que vivem com crianças ou adolescentes declararam que a renda familiar diminuiu; 

– 54% não receberam alimentação escolar por conta do fechamento das escolas; 

– 8% dos entrevistados que moram com crianças e jovens declararam que esse público deixou de comer por falta de dinheiro para comprar alimentos (número chega a 21% entre as classes D e E). 

Para 2022, Eloísa comenta sobre a continuidade do planejamento da Rede, que envolve a realização de uma pesquisa sobre a situação dos conselhos municipais do Brasil. A ideia é que os resultados possam apoiar a criação de iniciativas de fortalecimento e apoio dos conselhos. 

“Temos olhado para diversas frentes, entre elas o impacto causado pela pandemia e como ele pode ser minimizado. Um dos temas debatidos é o fortalecimento dos conselhos municipais enquanto instância fundamental para a democracia e garantia de direitos de crianças e adolescentes e de que forma a rede pode contribuir com esse processo.” 

Juventudes 

Segundo Mariana Resegue, secretária-executiva do Em Movimento, uma das organizações que coordena a Rede Temática Juventudes, os jovens são, comumente, a faixa da população mais afetada por situações de crise. Se antes da pandemia de Covid-19 já estava em curso um cenário de exclusão dos jovens de diferentes espaços, a pandemia agravou os contextos desafiadores para esse público, que enfrenta dificuldades em acessar a educação básica e superior, em se graduar, em ter uma inclusão produtiva, entre outros fatores. 

Além de desafios complexos, como aumento de situações de vulnerabilidade social, da fome e insegurança alimentar, o agravamento desses contextos forçou as organizações a repensarem sua atuação. “Com a juventude vivendo situações de extrema pobreza e passando fome, passamos a lidar com questões de urgência. Antes da pandemia, estávamos pensando na construção do desenvolvimento sustentável das juventudes. A pandemia nos jogou de volta a um lugar de garantir a sobrevivência dos jovens”, explica Mariana. 

Nesse sentido, aponta que, ao mesmo tempo que é necessário oferecer esse suporte de caráter mais emergencial, também é fundamental pensar em projetos de transformação sistêmica. Para isso, algumas oportunidades de atuação para a RT são: 

– incorporar os valores que fundaram a Rede Temática e encará-la como um espaço não só de discussão, mapeamento de evidências e formação, mas de atuação conjunta, mobilização e articulação; 

– envolver os jovens e amplificar suas vozes para garantir participação e incidência. 

Agenda de Avaliação 

Em 2021, a Agenda de Avaliação – uma das oito agendas estratégicas do GIFE – se dedicou a dar continuidade aos debates realizados durante a Eval20 Reimagined: A Virtual Experience, conferência anual da American Evaluation Association (AEA), realizada pela primeira vez online em outubro de 2020. Camila Cirillo, consultora de avaliação e coordenadora da Agenda de Avaliação, explica que, entre oficinas e webinários dos quais os membros da agenda participaram em 2021, um debate que esteve muito presente foi a questão da equidade

“Desde a Conferência da AEA em 2020, percebemos que o tema da equidade racial segue muito forte e continua pautando debates não só no Brasil, mas também no âmbito internacional. Nós realizamos um mapeamento com o objetivo de identificar como e em quais momentos as avaliações poderiam ser mais equitativas. A partir disso, elaboramos uma série de ações”, conta a coordenadora. 

Para Camila, muitas das oportunidades de atuação para a Agenda de Avaliação em 2022 estão conectadas aos mesmos desafios enfrentados quando o assunto é avaliar iniciativas, ações, projetos e programas. Pessoas e organizações já apresentavam dificuldades em:

–  conseguir recurso para fazer avaliações; 

– definir o foco da avaliação e qual a pergunta relevante a ser feita;

– decidir qual abordagem avaliativa seguir; 

– saber quem contratar para ajudá-las nesse processo. 

Com a chegada da pandemia de Covid-19, novos desafios surgiram, como: 

– realização de processos avaliativos totalmente à distância; 

– contato com os verdadeiros interessados nas avaliações;

– falta de planejamento estratégico para realizar avaliação em meio a emergência. 

“Fortalecer as capacidades de avaliação dos nossos parceiros e das organizações da nossa rede é e sempre será uma pauta. Continuaremos atuando para apoiá-los e, este ano, teremos um seminário internacional, que é um espaço grande e relevante para qualificar o debate sobre avaliação na nossa rede”, aponta Camila. 

 

Fique por dentro 

As outras reportagens da série abordam os desafios e perspectivas das RTs Gestão e Políticas Públicas e Saúde, Leitura e Escrita de Qualidade para Todos (LEQT) e Equidade Racial.

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