Para 73% das OSCs, pandemia diminuiu captação de recursos, aponta pesquisa

Segundo o Mapa das Organizações da Sociedade Civil, existem 781.921 organizações ativas e atuantes no Brasil. Por meio de leis e decretos expedidos no contexto da pandemia de Covid-19, muitas delas são consideradas serviços essenciais por prestarem atendimentos nas áreas da saúde ou serviço social. Mesmo em funcionamento, muitas OSCs estão enfrentando inúmeras dificuldades, desde seu financiamento até a falta de condições para a prestação adequada dos serviços. Entender qual é o real impacto do novo coronavírus no terceiro setor é um dos objetivos da pesquisa Impacto da COVID-19 nas OSCs brasileiras: da resposta imediata à resiliência.

Coordenada por Mobiliza Consultoria e ReosPartners, a iniciativa tem apoio e envolvimento de inúmeras instituições do investimento social privado que desenvolvem um trabalho próximo às OSCs, como o próprio GIFE, que integra o comitê estratégico do estudo, além das cofinaciadoras Fundação Tide Setubal, Fundação Laudes, Instituto ACP, Instituto Humanize, Instituto Ibirapitanga, Instituto Sabin e Ambev. 

Rodrigo Alvarez, diretor da Mobiliza e um dos idealizadores e coordenadores do estudo, aponta que, se, por um lado, é possível observar o aumento da filantropia, por outro, as OSCs, apesar de serem importantes para fazer com que as doações cheguem a quem mais precisa, estão enfrentando desafios quando o assunto é a sua sustentabilidade.  

“As organizações da sociedade civil já vinham de períodos de instabilidade financeira anterior à Covid. Queríamos entender se e como elas estão sentindo esse impacto. O grande paradoxo que se coloca nesse momento é que, apesar do volume da filantropia ter aumentado, isso não está refletindo no fortalecimento das OSCs. Elas se mantêm ativas porque 87% relataram que estão fazendo alguma coisa para enfrentar os efeitos da Covid, mas quando perguntado quais foram os principais impactos negativos da crise, 73% relatam que foi a diminuição da captação de recursos”, reflete Rodrigo. 

Os efeitos econômicos da Covid-19 

Entre cerca de 1.700 respostas, 87% das organizações afirmaram que sofreram impacto nas suas atividades, seja paralisação total (para 36%) ou parcial (51%) em razão de medidas como distanciamento social. A quarentena também teve outros efeitos, como a suspensão de eventos presenciais, o que, por sua vez, teve um impacto direto na realização de almoços, jantares, chás e cafés beneficentes, estratégias usadas para a captação de recursos das organizações. 

Esse é, inclusive, um dos dados preocupantes apresentados pelo estudo: 73% dos respondentes já apontam diminuição na captação de recursos e 65% prevêm reduções em sua captação no futuro. 20% declara estar sem recursos para continuar suas atividades, além de outros desafios como o distanciamento e a comunicação com os públicos atendidos (55%), a diminuição de voluntários ativos (44%) e o estresse e sobrecarga das equipes (40%). 

Rodrigo conta que uma das estratégias utilizadas pelas organizações é ampliar a capacidade de captação de recursos por meios digitais, seja através de transmissões ou marketing digital. Além disso, a renegociação de contratos também é uma possibilidade a partir da busca de diálogo com financiadores para flexibilização de metas e combinados.

“Muitos financiadores estão permitindo que as metas de 2020 fiquem para 2021. Entretanto, as equipes contratadas para implementar essas metas estão alocadas em outros trabalhos que não podem ser cobertos com esse recurso. Então, há o desafio de renegociar metas e, ao mesmo tempo, manter seus custos fixos, que, muitas vezes, estão alocados em projetos”, aponta o diretor. 

A importância de apoios institucionais 

A reflexão de Rodrigo conecta-se diretamente à importância de financiamentos institucionais, aqueles não atrelados a um projeto específico. Segundo o estudo, 69% das respondentes indicam a necessidade de recursos para manter seus custos operacionais. Para o diretor, um dos objetivos da pesquisa é ajudar a chamar atenção para a necessidade de um financiamento mais flexível.

“Esperamos que a pesquisa possa contribuir para fortalecer a ideia de um grantmaking mais comprometido com a sustentabilidade das organizações. A partir dos anos 80 e 90, no Brasil, vimos o boom de OSCs formando um capital social que, nesse momento de pandemia, principalmente, está se mostrando muito importante. Se não olharmos para essas organizações e percebermos a importância de que elas se fortaleçam, que se fortaleça seu core, equipe e missão, teremos dinheiro a ser canalizado para a resolução de problemas sociais e ambientais brasileiros, mas não haverá organizações para fazer isso, já que todo o recurso vai para projetos”, explica. 

O diretor cita, ainda, o aumento de organizações doadoras. De acordo com o Censo GIFE 2018, caiu de 43% para 40% o índice de investidores sociais predominantemente executores e subiu de 16% para 23% os predominantemente financiadores. “O GIFE já está alertando há bastante tempo a importância de um grantmaking que tenha mais abertura e flexibilidade para que, com rubricas de fortalecimento institucional, as organizações possam pagar a equipe e investir em sua infraestrutura organizacional, o que pode beneficiar a captação de recursos e o  planejamento”, aponta Rodrigo.  

O que esperar do futuro? 

Segundo as organizações ouvidas pela pesquisa, o futuro próximo não é animador. Além de os 20% das OSCs que declaram já estar sem recursos financeiros para continuar suas atividades, 26% têm recursos para operar por até três meses e 23% até o fim do ano. Apesar disso, apenas 6% das OSCs apontam como tendência a interrupção das atividades e o fechamento até o final de 2020.

Para Rodrigo, uma das explicações para essa percepção de que poucas OSCs deixarão de existir frente a indicadores que apontam para outra direção é o próprio funcionamento da sociedade civil brasileira que, em parte, baseia-se e faz uso da força de trabalho voluntário. 

“Quando questionamos qual foi o orçamento anual das organizações em 2019, 21,2% afirma que não sabe responder porque muitas delas trabalham em um espírito quase voluntário. Então é algo como ‘se tiver recurso, nós atuamos’ e ‘se não tiver, continuamos atuando’ porque trata-se de um engajamento voluntário. Essa, talvez, seja a luz e a sombra do terceiro setor. Luz porque a participação de pessoas é o principal ativo da sociedade civil. E sombra porque, se queremos gerar resultados estratégicos e de maior profundidade, precisamos de fôlego para fazê-lo, além de dedicação, capacitação e formação. Não basta boa vontade”, problematiza. 

Se as organizações estão realmente otimistas ou esperançosas por uma mudança, não é possível dizer. Mas para 42% delas, a cultura de doação no Brasil irá crescer com foco em assistência social e saúde, enquanto 27% acreditam que o crescimento será de forma geral. Para Rodrigo, a percepção pode estar influenciada pelo aumento da filantropia no período de pandemia e também pela expectativa das próprias OSCs. Entretanto, o cenário futuro ainda está em aberto. 

“A expectativa é a de que tenhamos uma recessão econômica. Nesses períodos, geralmente, o investimento social privado diminui, pois empresas diminuem seu lucro. Sabemos que em momentos de emergência, o volume de recursos aumenta. Pode ser que consigamos manter um nível alto de ISP, mas não sabemos por quanto tempo; isso vai depender da retomada das empresas.” 

Próximos passos 

O sumário executivo com todos os dados da pesquisa está disponível para download neste link. As organizações promotoras do estudo estão trabalhando na redação do relatório completo, que tem previsão de lançamento para o mês de julho. 

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