Para 86% da população brasileira, a escola se torna melhor ao incluir estudantes com deficiência

Além de ser tema de compromissos internacionais dos quais o Brasil é signatário – como a Declaração de Salamanca, de 1994 -, a inclusão escolar foi formalizada no país em 2008 com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva. Mais de dez anos depois, o número de matrículas da educação especial aumentou 70%, índice acompanhado pela inclusão de alunos em salas regulares, que passou de 54% em 2008 para 92% em 2018. 

Para compreender as percepções e entendimentos da população brasileira sobre educação inclusiva nas escolas, o Instituto Alana acaba de lançar O que a População Brasileira Pensa sobre Educação Inclusiva?. Realizada pelo Datafolha, a pesquisa ouviu cerca de dois mil brasileiros para, além dos objetivos citados acima, mapear opiniões sobre interesse docente na temática, preconceito que pessoas com deficiência sofrem no ambiente escolar e investigar possíveis influências positivas ou negativas da convivência com pessoas com deficiência no trabalho, na escola ou no domicílio. 

Entre as motivações para encomendar a pesquisa, Raquel Franzim, coordenadora de educação do Instituto Alana, explica que estão as diferentes iniciativas do Instituto, cujo objetivo é apoiar a sociedade como um todo – não apenas famílias e pessoas com deficiência – a se engajar com a causa. “Nós acreditamos que, interna e externamente, inclusão é um valor. As diferenças não são só das pessoas com deficiência, mas de todos. Diversas pesquisas encomendadas pelo Alana, como Os Benefícios da Educação Inclusiva para estudantes com e sem deficiência, mostram que ambientes inclusivos melhoram o desempenho acadêmico de todos os estudantes”, observa a coordenadora.   

Maioria favorável  

A metodologia da pesquisa baseou-se na apresentação de frases sobre educação inclusiva para que os entrevistados respondessem se concordavam ou discordavam. Raquel afirma que o principal achado do levantamento foi descobrir que 86% dos entrevistados concordam que as escolas se tornam melhores ao incluir crianças com deficiência. Segundo a coordenadora, esse resultado se refere à responsabilidade dividida a que a instituição se propõe, o que beneficia todos os estudantes, sejam eles com deficiência ou típicos. 

“Quando a população afirma que a escola se torna melhor é porque o professor, o gestor e a comunidade escolar precisam pensar em estratégias que eliminem barreiras e construam apoios para o aprendizado, a participação e a permanência na escola. Ela se torna melhor porque precisa se autorrevisar em todos os seus aspectos. As pessoas com deficiência provocam novas estratégias formativas, metodologias e formas de trabalhar e participar que reconheçam que as pessoas são e se expressam de maneiras diferentes e isso, sem dúvida, beneficia a todos.” 

O estudo mostrou ainda que quem convive com pessoas com deficiência tende a ser ainda mais receptivo à educação inclusiva: 93% dos que convivem com a diferença na escola acreditam que elas se tornam melhores quando são inclusivas. Para quem não convive com crianças com deficiência, o índice de concordância é de 85%. 

O lugar do atendimento especial 

Outra descoberta que merece destaque é o fato de que 76% dos pesquisados afirma concordar que crianças com deficiência aprendem mais estudando com crianças sem deficiência. Esse dado, juntamente com o fato de que 68% discordam que a criança com deficiência atrasa o aprendizado das crianças típicas, aponta uma tendência de percepção da população brasileira sobre o atendimento educacional especial. 

“A história da escola no Brasil e do movimento da pessoa com deficiência aponta a tendência de separação de estudantes com deficiência em escolas especiais. A escola comum é o lugar do direito de todos e o atendimento educacional especializado por meio de convênio com instituições parceiras também tem seu lugar, que é o contraturno. A população está mostrando que não é uma coisa ou outra, mas as duas juntas”, afirma Raquel. 

Em contrapartida, 40% dos entrevistados concorda que é melhor para crianças com deficiência estudar em escolas só com outras crianças com deficiência. Raquel reforça que o desafio dessa divergência sobre o tema pode ser enfrentado com uma maior divulgação, tanto dos benefícios para crianças com deficiência, como das ações positivas realizadas em escolas de tempo regular. “Muitas vezes, a comunicação mostra exemplos apenas das barreiras e dos desafios da educação inclusiva, o que é absolutamente necessário, mas também precisamos falar sobre os caminhos, o que dá certo e quem está fazendo.”

Postura dos professores e formação docente 

Segundo a pesquisa, 71% dos entrevistados concordam que os professores têm interesse em ensinar crianças com deficiência. Entretanto, 67% acredita que os docentes não têm a formação necessária para ensiná-las. Nesse sentido, Raquel reforçou a importância de compreender o contexto da formação de professores no Brasil. 

Para a coordenadora, independente da área de trabalho do professor, a formação inicial brasileira precisa ser revista – posição amparada pelo fato de que cerca de 71% dos professores da Educação Básica ouvidos pela pesquisa Profissão Professor acreditam que a formação inicial que tiveram não foi suficiente para prepará-los para os desafios do início da docência. 

Esse é um desafio não apenas do docente que trabalha com crianças com deficiência, mas da estrutura da política de formação de professores, que, segundo Raquel, ainda é pouco voltada aos desafios da prática docente. “Se o ensino inicial pouco privilegia que o professor se debruce sobre seu principal objeto de conhecimento, que é como as crianças participam e aprendem, é realmente muito difícil ele se sentir preparado para lidar com esses desafios. Mas vale reforçar que a formação inicial não vai dar conta de tudo, já que inúmeras aprendizagens acontecem no exercício da função. Precisamos também fortalecer a formação continuada dos educadores.” 

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