Para especialista, cabe ao setor filantrópico construir narrativas que resgatem a centralidade da sociedade civil na consolidação da democracia

Em um momento de mudanças intensas no cenário brasileiro e global, movimentos de estigmatização e hostilidade em face do papel e atuação desses atores na cena pública combinam-se com a demonstração renovada de sua vitalidade e centralidade para a promoção da ação coletiva em momentos-chave como o da pandemia e para a produção de respostas a novos desafios em frentes tão diversas quanto a equidade racial, os direitos das mulheres, as mudanças climáticas, a criação de novas oportunidades econômicas, a mobilização comunitária, a inovação política, e assim por diante.

A reflexão permeou um painel realizado pelo GIFE no contexto do Trilho de seu 11º Congresso, que buscou explorar as formas possíveis para a potencialização da interação entre a filantropia e o investimento social e esses processos.

De que modo esses atores podem se conectar e estabelecer novas estratégias de apoio e parceria? Como novos perfis, agendas e dinâmicas de ação que surgem a todo momento podem inspirar novos modelos para a atuação do investimento social? Que desafios e oportunidades estão no horizonte dessa interação?

Para debater essas e outras questões, o redeGIFE entrevistou Graciela Hopstein, coordenadora executiva da Rede de Filantropia para a Justiça Social. Organizadora do livro Filantropia de Justiça Social, Sociedade Civil e Movimentos Sociais no Brasil (2018), a especialista chama atenção para a oportunidade de enfrentar alguns dos problemas ambientais e sociais que, até pouco tempo, pareciam impossíveis de combater.

Confira a entrevista a seguir.

redeGIFE: Como você avalia o papel dos movimentos e organizações sociais e de seus atores para a promoção da ação coletiva em momentos-chave como o da pandemia e para a produção de respostas a desafios sociais, econômicos e ambientais?

Graciela: Os movimentos sociais vêm ocupando um lugar de destaque na cena política, tanto no Brasil, quanto no âmbito internacional e, embora esse protagonismo tenha ficado evidente na pandemia, essa é uma tendência mais antiga que vem se aprofundando no contexto da crise do capitalismo e da democracia representativa. Eles começaram a ganhar notoriedade no limiar do século XXI como atores-chave nas lutas e processos de transformação ancorados na construção de agendas diversificadas voltadas ao reconhecimento e à conquista de direitos e à afirmação de identidades múltiplas e diferenciadas e a novas formas de vida.

Trata-se de um conjunto diversificado de atores – coletivos, grupos, organizações da sociedade civil – capazes de construir agendas, criar narrativas, linguagens e formas de produção e organização baseadas na autogestão. É por essa razão que podemos entender o papel de destaque que os movimentos e coletivos sociais tiveram no enfrentamento à pandemia. De fato, eles encontraram formas autônomas de dar respostas inovadoras à crise, articulando atores, iniciativas e recursos e buscando soluções para atender às necessidades e demandas, que envolveram desde a distribuição de cestas básicas até a condução de campanhas de informação e ajuda humanitária, que, certamente, implicou também a instalação de estratégias inovadoras de luta e resistência.

Entender a atuação dos movimentos implica um processo analítico de desconstrução porque, de fato, eles não buscam a institucionalização, mas sim o questionamento do poder instituído – colonial, patriarcal, branco, heterossexual –, a conquista de direitos e o reconhecimento de identidades múltiplas. São lutas biopolíticas porque são, ao mesmo tempo, econômicas, políticas e culturais, valendo para decidir sobre as diversas formas de vida, e porque têm a capacidade de questionar de maneira profunda o sistema político e social vigente a partir da construção de agendas integradas, inovadoras, interseccionais e de processos estruturais de transformação.

redeGIFE: Como você vê os riscos e ameaças no que se refere ao espaço de atuação desses atores e as experiências concretas de intolerância e intimidação à pluralidade da sociedade civil?

Graciela: Os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil no Brasil vêm enfrentando diversas ameaças, produto de um processo de criminalização do setor que envolve tanto ataques reputacionais e digitais – especificamente daqueles que atuam na área de direitos humanos junto às minorias políticas – como também, e de forma concomitante, um vácuo no financiamento – pela escassez de recursos financeiros doados para esses grupos -, colocando em risco sua sustentabilidade.

O relacionamento das organizações e movimentos sociais com o poder público também vem sendo afetado de forma visível, não apenas pela falta de diálogo para a construção de agendas, mas principalmente pelo encolhimento e fechamento dos espaços de participação cívica, o que vem limitando de forma visível ações de incidência e advocacy. De forma geral, observamos também que as narrativas conservadoras instaladas – tais como “ideologia de gênero” e “escola sem partido – e as perseguições às minorias políticas e populações vulneráveis e às iniciativas voltadas à defesa do meio ambiente não apenas colocam sob ameaça o trabalho dos movimentos, como também impactam negativamente o processo de construção de agendas políticas voltadas ao reconhecimento e à conquista de direitos.

Talvez, no contexto da pandemia, possa se abrir uma janela de oportunidade que permita reconhecer no âmbito da esfera pública a enorme contribuição que as organizações de base comunitária e os movimentos vêm realizando no enfrentamento aos impactos devastadores da Covid-19. Cabe a nós, atores do setor filantrópico e da sociedade civil, começar a construir narrativas – ou contra narrativas – e a reconstruir conceitos e sentidos, resgatando a centralidade da sociedade civil e do setor cidadão na consolidação da democracia.

redeGIFE: É possível traçar um panorama para este ano no que se refere aos principais desafios e também às oportunidades para o êxito e a ampliação da atuação dos movimentos e organizações em agendas como equidade racial e de gênero, mudanças climáticas e desmatamento, recuperação e nova economia, inovação política e desigualdades?

Graciela: Analisando a atuação desses atores políticos, é possível reconhecer elementos velhos e novos: reivindicações históricas se misturam com novas denúncias, demandas, agendas, formas de organização e estratégias de luta. Ocupação nas ruas e nas redes. Movimentos que disputam visibilidade, autonomia e liberdade no consumo, na política, no reconhecimento de identidades diversificadas, na circulação e acesso a espaços públicos, sobre seus corpos e suas vidas. Lutam contra o feminicídio, contra o assédio sexual e o racismo; pelo fim da sociedade patriarcal e do colonialismo; contra as mudanças climáticas e a favor de um outro modelo de desenvolvimento; pelos direitos dos migrantes, mulheres e jovens e população LGBTIQ+; e pela defesa dos povos originários.

Talvez possamos identificar um novo ciclo de lutas no contexto da pandemia onde os movimentos sociais e as dinâmicas de organização comunitária foram e são mais importantes do que nunca. Em lugares onde os sistemas social e de saúde desmoronam e as desigualdades e injustiças estruturais ficaram ainda mais visíveis, as dinâmicas de ajuda mútua e colaboração que vêm sendo construídas pelos movimentos e atores locais precisam ser potencializadas e é aqui que a filantropia comunitária entra na cena e ocupa um lugar fundamental para apoiar com recursos as iniciativas já existentes nos diversos territórios (urbanos e rurais) de atuação. A filantropia comunitária não apenas contribui com novas abordagens e olhares, mas atua no sentido de potencializar, por meio de doações estratégicas, a promoção de formas de organização coletivas e autônomas, reconhecendo o poder de voz dos movimentos locais e seu papel relevante na escolha de rumos, na busca de soluções e na condução de processos de transformação.

redeGIFE: Que formatos e tendências podem ser vislumbrados na interação da filantropia e do investimento social com esses processos na direção de estabelecer novas estratégias de apoio e parceria?

Graciela: Existe uma janela de oportunidade para que fundações e proprietários de grandes fortunas sejam catalisadores que ajudem a construir um futuro capaz de aproveitar este momento para enfrentar alguns dos problemas ambientais e sociais que, até um tempo atrás, pareciam impossíveis de combater no nível sistêmico. Talvez a pandemia tenha sacudido o sistema geral para permitir que isso aconteça. Neste cenário, é importante que fundações, filantropos e doadores percebam que essa crise não passará apenas com um plano de vacinação e/ou com a distribuição de auxílios emergenciais dos governos. Embora seja possível reconhecer indícios positivos por parte de algumas organizações filantrópicas com relação às mudanças em suas agendas e práticas de doação e investimento – como a partir de doações significativas e da criação de linhas de apoio emergencial, por exemplo –, é fundamental fazer mudanças, incorporando estratégias estruturais de apoio de longo prazo.

Esse é um apelo ao setor filantrópico para que as organizações doadoras façam adaptações nas suas estratégias e nos seus portfólios, para que possam olhar para o campo social e para a sociedade civil reconhecendo as suas demandas e necessidades e façam uso do seu capital social para apoiar a variedade de ações civis e comunitárias que estão efetivamente acontecendo. Este também é o momento de conceder doações irrestritas aos parceiros de confiança, de forma a apoiá-los para que possam enfrentar a situação junto com suas comunidades da melhor forma possível. No contexto atual, é importante pensar em como apoiar ativistas e grupos comunitários, movimentos e pessoas que estão fazendo um trabalho importante em lugares em que os mais vulneráveis e marginalizados serão ainda mais atingidos.

Ouvir as demandas dos movimentos para pensar como é possível apoiar os esforços que eles estão fazendo diante da pandemia é uma ação prioritária. Buscar formas de articulação entre parceiros diversos, especialmente com aqueles que têm um profundo conhecimento das redes e organizações existentes, como os fundos locais que integram a Rede de Filantropia para a Justiça Social, é também uma estratégia possível, não apenas porque eles têm a capacidade de fazer apoios para iniciativas da sociedade civil de forma ágil e assertiva, mas como forma de fortalecer a filantropia local e o seu ecossistema.

Certamente, fazer com que esses recursos cheguem rapidamente nas bases, nas comunidades, nos atores estratégicos que atuam no enfrentamento à Covid 19 será de grande potência transformadora.

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