Planejamento, conectividade e tecnologia: quais são os principais desafios da educação em tempos de pandemia

Se no início de janeiro dissessem que não só o Brasil, mas o mundo inteiro passaria meses dentro de casa, sem poder frequentar escolas, escritórios, parques e shoppings para combater um inimigo invisível, ninguém acreditaria. Entretanto, é essa a realidade frente à pandemia do novo coronavírus, que mudou o funcionamento da vida como se conhece. Por isso, a edição 2020 do Dia da Educação, comemorado anualmente em 28 de abril, será diferente. 

Mais do que celebração, é hora de pontuar ações que estão sendo desenvolvidas para apoiar diretores, gestores, coordenadores pedagógicos, professores, famílias e os maiores interessados no assunto, os próprios estudantes, no redesenho da educação que o momento atual impõem. 

O que mudou? 

Segundo mapeamento realizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), mais de 1,5 bilhões de estudantes foram afetados pela paralisação das aulas e fechamento temporário de escolas em 191 países e regiões. Isso significa que uma nova realidade foi imposta a todas as pessoas de alguma forma envolvidas com a educação. 

Professores que tinham pouco ou nenhum contato com tecnologia precisaram começar a planejar aulas mediadas por telas junto a seus coordenadores pedagógicos, ao mesmo tempo em que descobrem sobre o funcionamento de ferramentas tecnológicas. Com aulas online, surgiram novos desafios que não eram comuns nos encontros presenciais como problemas de conexão e engajamento dos alunos à distância. 

Tatiana Klix, diretora do Porvir, portal especializado em inovações em educação, explica que entre inúmeras questões, um dos maiores desafios é a necessidade de adaptação a uma situação para a qual ninguém estava preparado. “Não é só uma questão de saber ou não usar a tecnologia ou de os alunos terem ou não computador em casa. A situação fica difícil também porque ninguém estava preparado para promover aprendizado de uma maneira diferente. Estamos precisando nos adaptar muito rapidamente sem ter um horizonte lá na frente.” 

A insegurança gerada entre o corpo docente pode ser dividida em fases. A inquietação dos professores com questões mais técnicas, como, por exemplo, dar aula online, gravar vídeos e como os alunos irão acessar o material em casos em que não contam tecnologia em casa, soma-se a uma preocupação com a participação dos estudantes. 

“O segundo desafio é o do engajamento, do contato com os alunos, de entender se as aulas estão fazendo sentido, de saber se os alunos de fato estão aprendendo, se interessando pelas aulas, se estão conseguindo administrar as tarefas em casa. Esse segundo nível diz respeito à qualidade das atividades”, afirma Tatiana. 

União de esforços 

Entre os 133 respondentes do Censo GIFE 2018, 80% mencionaram a educação como principal área de atuação. O dado segue uma tendência histórica de atuação mais expressiva de investidores sociais no tema. O dado explica o fato de institutos, fundações e empresas estarem desenvolvendo iniciativas para, de alguma forma, minimizar os impactos que a crise sanitária traz à educação. 

Uma iniciativa que congrega diversos associados GIFE é a Aprendendo Sempre, plataforma voltada a gestores educacionais, professores e famílias a fim de garantir que todos os estudantes continuem aprendendo e se desenvolvendo durante a pandemia de Covid-19. 

Além de mapear eventos, cursos, webinários, oportunidades de trocas de informação e apresentar conteúdos alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às dez competências fundamentais que estudantes devem desenvolver, o site também reúne tecnologias para preparação e transmissão de aulas online e exemplos de boas práticas de quem já está promovendo aulas à distância. 

Para Tatiana, a ideia de unir esforços em uma iniciativa como essa, da qual o Porvir faz parte, é evitar trabalhos repetidos e aumentar a capacidade de resposta às inúmeras demandas e carências que o momento traz, entre elas, apoio a professores, redes de ensino e famílias; produção e disseminação de conteúdo e informação; e disponibilidade e compreensão sobre boas ferramentas e seus funcionamentos. 

Além disso, reunir conteúdo em um só lugar é uma forma de diminuir a sobrecarga de informações. “No início dessa fase, nos demos conta de que professores estão sendo bombardeados de informações por WhatsApp, e-mail e várias fontes e, com isso, já não estão mais sabendo para onde olhar. Na medida em que reunimos esforços, eles verão que um conjunto de organizações fez a curadoria do conteúdo e, assim, realizamos uma entrega de maneira mais acessível, confiável e assertiva para quem está precisando de ajuda.”  

Orientações a gestores  

Outra iniciativa do investimento social privado é o lançamento da Gestão de crise na Educação: Covid-19 pelo Instituto Unibanco, uma página que reúne conteúdo para apoiar gestores em tempos de coronavírus. Um dos materiais disponibilizados na plataforma é um conjunto de dicas para que gestores possam orientar as famílias sobre as melhores estratégias para incentivar os estudos em casa. Entre as sugestões estão estimular contato com professores, desenhar uma rotina em família e planejar intervalos. 

Segundo Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco, “a participação das famílias sempre foi peça essencial na engrenagem de uma boa gestão educacional. No momento em que as atividades presenciais estão suspensas, ela se torna ainda mais importante. Essas famílias precisam também ser apoiadas em suas necessidades para que consigam dar o melhor apoio aos estudantes – na medida do possível e considerando suas vulnerabilidades.” 

A plataforma também reforça que, além da preocupação com a aprendizagem dos conteúdos curriculares à distância, é preciso atentar-se ao bem-estar, saúde mental e equilíbrio emocional dos estudantes, fatores que nunca devem ser colocados em segundo plano. Segundo Ricardo, alunos com questões socioemocionais têm mais dificuldades na aprendizagem e, por isso, o momento atual eleva riscos de evasão, por exemplo, especialmente entre jovens mais vulneráveis. 

“Todos nós estamos com o estresse muito elevado e passando por situações que nunca vivemos e a população mais vulnerável sofre muito mais. As questões econômicas pesam muito. Existem também as questões de perda de familiares e amigos pela Covid-19 e violência doméstica aumentando em patamares como nunca vistos antes. São muitos os aspectos a serem cuidados em relação a esses jovens, que precisam se sentir apoiados e conectados com a escola, especialmente neste momento”, afirma o superintendente. 

Importância de considerar a realidade local 

Segundo dados divulgados pela Teacher Task Force, uma aliança internacional coordenada pela UNESCO, mais de 800 milhões de estudantes que estão com aulas suspensas não contam com um computador em casa, enquanto 43% do total de alunos não têm acesso à internet. Por isso, entender a multiplicidade de formatos sob os quais os conteúdos podem ser oferecidos é uma forma de considerar as diferentes realidades socioeconômicas dos alunos no Brasil.

Outro conteúdo que integra a plataforma do Instituto Unibanco é o portal Estratégias de Aprendizagem Remota, elaborado pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB) para que escolas públicas ofereçam ensino remoto aos estudantes. Uma das principais mensagens do portal é a importância de o gestor da rede de educação considerar a realidade local no momento de planejar quais serão as estratégias para manter a educação mesmo à distância. 

Lúcia Dellagnelo, diretora-presidente do CIEB, cita a pesquisa Planejamento das Secretarias de Educação do Brasil para ensino remoto, realizada pelo CIEB, ao afirmar que, das 3.032 secretarias de educação respondentes, 63% ainda não orientam sobre qual estratégia de ensino remoto deve ser adotada neste período. 

“Redes que já tinham planejamento e alguma experiência no uso da tecnologia conseguiram se mover mais rápido e montar um projeto que realmente faz chegar aos estudantes algum modelo de ensino. Mas a pesquisa aponta que grande parte dos municípios simplesmente suspendeu aulas ou deu férias antecipadas. Isso tem a ver com falta de preparo e planejamento frente à pandemia, o que é agravado pela diferença de acesso à internet e a equipamentos para atividades online pelos estudantes, com grandes preocupações sobre o aumento de desigualdade”, afirma a diretora. 

Ter em mente o momento de estresse ao qual os professores estão submetidos – por serem demandados a exercer uma função para a qual não têm preparo – e o seu papel em apoiar e manter o engajamento dos alunos são pontos fundamentais para a educação, atualmente, defende Lúcia. “Poderíamos tirar um pouco dessa pressão para o conteúdo pedagógico e mostrar ao professor a importância de estar em contato com os alunos, estimulando a ler e a fazer atividades educativas, sem cobrar a questão do desempenho acadêmico nesse momento”, afirma. 

Além de detalhes sobre as possibilidades que cada estratégia da aprendizagem remota oferece – transmissão de aulas e conteúdos via televisão e rádio, videoaulas gravadas e ao vivo em redes sociais, envio de conteúdos digitais e disponibilização de plataformas de ensino online – o CIEB também criou uma ferramenta para que gestores educacionais possam, de acordo com a realidade de sua rede de ensino, escolher quais estratégias adotar para o ensino remoto. O questionário traz perguntas sobre infraestrutura, conectividade, conhecimentos técnicos e mobilização dos atores escolares e, a partir das informações fornecidas, monta um plano personalizado para o gestor. 

Para Lúcia, mesmo que desafiador, o momento pode trazer alguns aprendizados e, para a diretora, o maior deles é a necessidade de incorporar tecnologia no dia a dia das escolas, para que, em casos de emergência como esse, a transição para o mundo online seja mais fluida tanto para professores, como para os alunos. “Nós costumamos falar que a escola pública deve ser uma escola conectada não só no sentido da internet, mas ser um local que saiba usar tecnologia no dia a dia, que tenha infraestrutura adequada, com professores capacitados com habilidades e competências digitais desenvolvidas e um conjunto de recursos educacionais digitais que são complementares às aulas presenciais. Com isso, há um aumento do leque de experiências de aprendizagem para os estudantes.” 

Outras iniciativas 

– Produção dos guias Covid-19 pela Campanha Nacional pela Educação. Volume um, Educação e Proteção de crianças e adolescentes – Comunidade escolar, família e profissionais da educação e proteção da criança e do adolescente; dois, Educação e Proteção de crianças e adolescentes – Tomadores de decisão do poder público em todas as esferas federativas e três, Educação a Distância

– Além de integrar a Aprendendo Sempre, a Fundação Lemann também está desenvolvendo outras iniciativas, como apoio técnico a redes municipais e estaduais em parceria com a Imaginable Futures e Sincroniza Educação e a AprendiZap, plataforma para que alunos possam receber conteúdos e exercícios via WhatsApp. 

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