Políticas públicas de educação e cultura para a sede de letras e palavras

“Sinto um desconforto vivencial cotidiano diante do mundo e do problema dos outros”. Com este trecho de Hilda Hilst, autora homenageada da FLIP 2018, Patrícia Lacerda, gerente de educação do Instituto C&A, abriu os trabalhos da mesa “De onde brota a sede”, na quinta 26/7, em Paraty. A mesa integrou o ciclo “Sabores do livro e da leitura”, realizado como parte da programação aberta da FLIP pelo Instituto C&A, pela RNBC (Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias) e pela Rede LEQT (Leitura e Escrita de Qualidade para Todos), com apoio de vários parceiros.

A frase da Hilst presta-se a tratar da situação dos 29% da população brasileira que se encontram na faixa de analfabetismo funcional, segundo dados inéditos do último INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), divulgados em primeira mão na mesa.

Realizado desde 2001, o INAF mede as habilidades de leitura, escrita e matemática da população de 15 a 64 anos, em busca de compreender seus determinantes. De acordo com a economista e pesquisadora Ana Lima, responsável pelo INAF e uma das coordenadoras da Rede LEQT, a série histórica do INAF vem demonstrando que a escolaridade é fator fundamental para o domínio dessas habilidades, mas não tem sido capaz de garantir os níveis esperados de alfabetismo e numeramento. Dentre as pessoas com ensino médio, 12% estão na faixa de domínio rudimentar de leitura, escrita e matemática, 42% estão na faixa elementar e só 33% estão na faixa de domínio com proficiência. E essas proporções não têm variado significativamente desde 2001.

Ana chama a atenção para a necessidade de uma análise minuciosa dos dados, fazendo os recortes necessários, de forma a identificar não só aspectos negativos, mas também as potencialidades da ação coletiva para enfrentamento desses desafios.

Agora é lei – Nesse sentido, a recém-aprovada Lei 13.696, que institui a Política Nacional de Leitura e Escrita, oferece lastro legal para a luta que diversos atores da sociedade civil vêm empreendendo há muitos anos em torno da garantia cultura escrita como direito de todos. Essa é a aposta da secretária executiva do PNLL (Plano Nacional de Leitura e Escrita), Renata Costa. Ela instou os presentes quanto à necessidade de atuar para a elaboração e aprovação dos planos estaduais e municipais.

Literatura de todos para todos – Nascido na década de 1980 numa periferia remota de São Paulo, o artista gráfico, escritor e professor Marcelo D’Salete lembra que não se via representado nos poucos livros a que tinha acesso em sua infância e adolescência. Talvez isso o tenha estimulado a ser ele mesmo autor, escrevendo e desenhando a história do Brasil e o protagonismo das pessoas negras nessa história a partir de outras perspectivas.

Autor de várias novelas gráficas, no dia 20/7, D’Salete foi agraciado com o Prêmio Eisner (considerado o Oscar dos quadrinhos) na categoria melhor livro estrangeiro publicado nos Estados Unidos, com o título “Cumbe” (traduzido para o inglês como “Run for it”). “Ter literatura diversificada, com autores de diversas origens e temas diferentes, é uma preocupação que deve fazer parte dos Planos”, reiterou Marcelo.

Investimentos e políticas públicas consistentes e de longo prazo em educação e cultura podem resultar em mudanças socioeconômicas significativas na sociedade brasileira. “Aparentemente ninguém é contra ampliar o acesso à educação e à cultura, mas investimento sério nisso significa um novo pacto social no Brasil”, lembrou Patrícia Lacerda, que também é coordenadora da Rede LEQT.

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