Preços exorbitantes, problemas na infraestrutura e exclusão ameaçam participação social na COP30 em Belém

Por: GIFE| GIFEnaCOP| 24/03/2025

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A oito meses de sua realização, a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontecerá em Belém (PA), tem despertado preocupação. Isso porque, apesar da expectativa em torno do evento, questões como a disparada nos preços das hospedagens, e falta de infraestrutura podem dificultar a participação de delegações e da sociedade civil. 

A expectativa é que cerca de 40 mil visitantes transitem pela capital paraense durante os dias do evento, que acontece em novembro deste ano. São esperados líderes mundiais, cientistas, organizações da sociedade civil e a população em um debate essencial sobre a crise ambiental. No entanto, com a alta demanda por hospedagem, hotéis e locações por temporada têm inflacionado seus valores, com estadias ultrapassando o valor de compra de apartamentos em Belém, por exemplo. Há lugares em que a hospedagem para o evento chega a quantia exorbitante de R$2 milhões.

Tal cenário tem trazido preocupações pois pode comprometer não apenas a participação das comunidades amazônidas, como também a de delegações de países em desenvolvimento, ativistas e organizações da sociedade civil, especialmente as que já enfrentam barreiras financeiras. Enfoque mencionado por Maria Netto, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS)

“A gente esperaria, sobretudo, que no Brasil a COP fosse um espaço importante para a sociedade civil poder se manifestar, até porque as últimas Conferências tiveram muito pouco espaço para manifestação pública. Então, esse é um ponto muito importante, porque não é só a sociedade civil da Amazônia, é a sociedade civil do mundo todo que deveria ter espaço”, destaca.

Trilhando caminhos de resistência, a sociedade civil amazônida tem buscado contornar as barreiras que têm se levantado. No dia 10 de fevereiro, por exemplo, grupos de indígenas, quilombolas e ribeirinhosque participaram da ocupação da Secretaria de Educação de Belém – convocaram uma Assembleia da Resistência rumo à COP30. A Cúpula dos Povos também tem buscado garantir esse espaço. 

Para Paulo Moutinho, cientista sênior do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a mobilização demonstra a expectativa de inclusão e escuta ativa da COP30  sobre o que a sociedade tem a dizer. “A sociedade espera ver resultados efetivos e concretos de longo prazo para o combate às mazelas já evidentes das mudanças climáticas. Por fim, digamos que a sociedade, especialmente a amazônida, almeja que este processo traga benefícios regionais, onde a floresta seja valorizada e aqueles que dela cuidam sejam beneficiados diretamente.” 

Racismo ambiental

Município mais populoso do Pará, Belém possui uma população de 1.303.403 pessoas, de acordo com dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desse total, 73,3% são negras, 0,16% indígenas e 0,10% quilombolas

Levando em consideração esses cenários, o debate sobre racismo ambiental se mostra essencial na COP30, especialmente porque Belém está situada na região Amazônica, onde os impactos da crise climática afetam desproporcionalmente indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Contudo, contrariando essa expectativa, o presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, enviou em 10 de março uma carta a 197 países sem mencionar, em mais de 10 páginas, qualquer referência ao racismo ambiental. Em resposta, movimentos negros do Brasil cobraram reconhecimento da pauta.

Um exemplo dos impactos da COP30 e do racismo ambiental para a capital ocorre na Vila da Barca, considerada uma das maiores favelas de palafitas da América Latina. A construção da Nova Doca pelo governo do estado, especialmente para a Conferência, planeja despejar o esgoto na comunidade, como denunciou reportagem da Agência Pública. Os moradores da Vila ainda têm sofrido com despejo de lama, entulhos e demais resíduos da obra.  

“Para os territórios, às vezes é muito difícil serem ouvidos. É necessário apoiá-los, criando condições para sua participação e espaços de diálogo onde possam apresentar seus problemas locais e como podem ser tratados globalmente”, reflete Maria Netto.

Financiando possibilidades

Maria Netto enxerga o Investimento Social Privado (ISP) como um mitigador dos desafios da Conferência, promovendo inclusão, acessibilidade e equidade nas discussões climáticas. “Temos apoiado um trabalho interessante, o Comitê COP30, formado por diversas organizações territoriais que promovem a agenda climática e discutem o legado da conferência para a população”, exemplificou.

“O setor privado muitas vezes vê esses apoios como gasto, e não como investimento. No entanto, inúmeras organizações da sociedade civil mostram como a questão ambiental se tornou central”, acrescenta Paulo Moutinho. “A economia brasileira está cada vez mais atrelada à saúde das florestas e da vegetação nativa. Se o desmatamento combinado com a mudança climática local não for contido, a sociedade enfrentará situações críticas”, conclui.


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