Processos avaliativos e a cultura de doação: caminhos, desafios e oportunidades

Entender os resultados e efeitos de determinada ação ou projeto não é o único objetivo de processos avaliativos. As avaliações podem permear as iniciativas desenvolvidas pelas organizações da sociedade civil (OSCs) em diferentes momentos, como para promover um diagnóstico e, assim, iniciar o desenho de um novo projeto. Ou, ainda, para monitorar propostas que estão sendo desenvolvidas e reorganizar rotas de acordo com os achados. Se realizadas ao final das iniciativas, avaliações também servem para analisar os impactos das ações na sociedade, entre tantas outras finalidades. 

Além dos resultados, o próprio processo pode trazer uma gama de benefícios não só para as organizações que desempenham a ação ou programa avaliado, mas também para as instituições apoiadoras da organização, como os investidores e financiadores parceiros. 

Para entender como a realização de processos avaliativos ajuda não só a aprimorar ações e práticas, mas também fortalece a relação com financiadores e doadores e, portanto, pode ser instrumento aliado na busca pela sustentabilidade financeira, a Agenda de Avaliação do GIFE conversou com Beatriz Bouskela, diretora executiva do Movimento Arredondar, uma iniciativa que promove doações arredondando o valor de compras em lojas físicas e online. Os recursos são direcionados a organizações da sociedade civil certificadas.

Confira a entrevista a seguir. 

De que forma processos avaliativos beneficiam grantmakers (organizações financiadoras ou doadoras) e grantees (organizações da sociedade civil financiadas e executoras de projetos e ações socioambientais)?

Beatriz: A realização de processos de diagnóstico e acompanhamento tem potencial de trazer diferentes benefícios para as organizações e para os financiadores. Por um lado, é uma possibilidade de estimular a organização a refletir sobre sua operação e estratégia, ao mesmo tempo em que possibilita o compartilhamento de desafios e oportunidades de desenvolvimento e potencialização do trabalho. Ter um olhar retrospectivo e poder projetar o futuro é uma forma de assimilar aprendizados e construir novas rotas. Ao mesmo tempo, esse é um processo de aprendizado também para o financiador, que para além do recurso financeiro, é convidado a se aprofundar na realidade da organização e causa apoiada, desafiando-se a ter uma participação ainda mais empática e estratégica.

 

Que fatores devem ser observados pelas organizações financiadoras na hora de definir a estratégia mais adequada para o monitoramento dos resultados da iniciativa apoiada? E como esses fatores podem influenciar o relacionamento entre grantmakers e grantees?

Beatriz: Durante um processo de acompanhamento, é importante desenvolver uma compreensão do contexto de cada organização e como essa relação doador-organização pode impactar ou já está impactando o desenvolvimento do trabalho. Nesse sentido, torna-se relevante compreender elementos como a história e missão da organização; o funcionamento de sua estrutura operacional; como se dá a relação com seus públicos; quais são suas fontes de financiamento; como a organização mede resultados, principais desafios e oportunidades; onde quer chegar; e qual é o impacto e os desafios da relação estabelecida entre o financiador e a organização. Esses elementos apoiam o desenho do melhor formato de acompanhamento de resultados, bem como estimula uma participação mais ativa e estratégica por parte do financiador.

 

Quais são as oportunidades para as organizações apoiadas pelo Movimento Arredondar resultantes dos processos de monitoramento e avaliação que estruturam a seleção dessas organizações?

Beatriz: Em processos de avaliação inicial para entrada das organizações apoiadas na Rede do Arredondar, passamos por reflexões estratégicas e operacionais. O feedback que costumamos receber das organizações é que o próprio processo gera grandes benefícios, à medida que estimula novas perspectivas e, muitas vezes, apoia as organizações na identificação de pontos a serem amadurecidos. Na relação entre Arredondar e organizações beneficiadas, buscamos conduzir processos simples e construtivos, priorizando dar autonomia para que as próprias organizações possam sinalizar suas prioridades e principais pontos de desenvolvimento. 

Nesse sentido, desenvolvemos uma relação de parceria e confiança, uma vez que a organização tem responsabilidade pela prestação de contas e consegue ser a tomadora de decisão sobre a utilização do recurso doado. Na nossa experiência, temos diversos outros exemplos que consideramos muito positivos para o fortalecimento das organizações, como financiadores que focam seu apoio na melhoria de fragilidades institucionais da organização ou custeando recursos estratégicos para adaptação de processos, como auditorias, consultorias, aceleração, novas contratações, entre outros. 

 

A importância do desenvolvimento institucional das organizações da sociedade civil tem sido amplamente debatido e ganhou força com a pandemia. Como a atuação do Arredondar responde a essa demanda?

Beatriz: O recurso do Arredondar é um recurso livre, que pode ser utilizado de diferentes formas, inclusive para fortalecer a organização de forma estrutural. Estimulamos que seja utilizado para potencializar seu impacto, implementar novos projetos ou processos e apoiar em momentos de resiliência. Entendemos que a utilização do recurso institucional é uma forma de viabilizar diferentes ações da organização e fortalecer sua atuação. Assim, ao mesmo tempo em que trazemos a liberdade para a utilização do recurso, entendemos a importância de conectar diferentes públicos à missão e resultados finais que essa organização está viabilizando. Para deixar o impacto das doações mais palpável, complementamos a nossa transparência com informações qualitativas, compartilhando histórias e depoimentos de colaboradores ou pessoas beneficiadas pelas organizações, por exemplo.

 

Durante a pandemia de Covid-19, foram desenvolvidos inúmeros editais, campanhas de financiamento coletivo e de arrecadação, projetos, ações e programas para superar os diversos desafios. Mesmo em cenários de emergência como esse, é importante fazer avaliação das iniciativas desenvolvidas? Por quê?

Beatriz: Independentemente do tamanho da ação e contexto, a prestação de contas é um elemento fundamental para dar transparência aos doadores, fortalecendo um relacionamento mais duradouro com a organização e com a cultura de doação. Mesmo assim, em situações de urgência, é fundamental refletir sobre os melhores formatos e periodicidade para essa coleta, dialogando com a organização e estabelecendo formatos que estejam adequados à situação. 

Ao longo da pandemia, muitas organizações iniciaram novas frentes de atuação, adaptaram suas estruturas e desenvolveram novas relações com seus públicos e parceiros. O dinamismo e sucesso dessas ações só foi possível com um aprofundamento nas relações de confiança e processos que contaram com maior flexibilidade, colaboração e troca de experiências e aprendizados.

 

Muito do que foi realizado durante a pandemia de Covid-19 só foi possível graças a uma relação mais horizontal e um aumento da confiança entre doadores e donatários. Qual é o papel da confiança nesse cenário de avanços no relacionamento entre grantmakers e grantees?

Beatriz: Como uma via de mão dupla, a relação de confiança entre doadores e organizações torna o processo de doação mais fluido e estratégico. De um lado, os financiadores se posicionam como parceiros estratégicos, buscando compreender o contexto da organização, assim como suas fragilidades e necessidades. Do outro, as organizações percebem seus financiadores como parte de seus projetos e da possibilidade de concretizá-los, envolvendo-os e compartilhando seus resultados e desafios de forma recorrente e transparente. Nesse contexto de confiança, as partes passam a se ver como co-produtoras de um resultado e caminham lado a lado na concretização dele e no contorno de eventuais adversidades, desenvolvendo relações mais saudáveis, com mais autonomia e promovendo trocas mais estratégicas. 

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