Rede Dinheiro e Consciência incentiva maior conhecimento sobre usos do dinheiro

Fazer com que cada vez mais pessoas se conscientizem sobre o uso sustentável e responsável dos três tipos de dinheiro: de compra, investimento e doação. Esse é o objetivo da Rede Dinheiro e Consciência, que realizará a primeira Jornada Dinheiro e Consciência, ciclo de palestras por oito cidades brasileiras com início no dia 27 de outubro.

A Rede surgiu da parceria entre a consultoria EcoSocial e a Fundação Avina. Em 2017, Glaucia Barros, diretora programática da Fundação Avina no Brasil, assistiu durante reunião geral da Avina a uma palestra de Joan Melé, economista e ex-diretor do banco holandês Triodos Bank, instituição considerada pioneira no ramo ‘banco ético’.

“Para uma plateia de cerca de cem pessoas, Joan Melé perguntou se sabíamos em que o dinheiro que deixamos no banco está sendo aplicado. Ninguém soube responder. Voltei para o Brasil e queria entender com o gerente do meu banco como eu poderia opinar sobre onde o meu dinheiro será investido.”

Segundo a diretora, o que inspirou o desenvolvimento da Rede Dinheiro e Consciência é a possibilidade de incentivar a criação de uma nova economia, que seja mais inclusiva e sustentável. A parceria com a EcoSocial, consultoria e coaching para o desenvolvimento humano e organizacional, aconteceu em um momento em que a organização encontrava-se no mesmo patamar da Fundação Avina, com um programa de formação de executivos e empresários para negócios com propósito.

Sérgio Resende, consultor do Ecosocial, argumenta que criar consciência sobre o uso do dinheiro é o primeiro passo para fazer escolhas melhores. A vontade da Rede de trazer visibilidade para o fluxo do dinheiro pode ser compreendida a partir de um paralelo com a questão do lixo. “Por que resolver a questão do lixo é tão difícil? Porque a partir do momento que colocamos o lixo para fora, o caminho dele fica invisível, nós não acompanhamos isso. A mesma coisa acontece quando colocamos o dinheiro no banco: ele se torna invisível e não sabemos o que está acontecendo do outro lado.”

Criação da Rede Dinheiro e Consciência

Em abril de 2018, Joan Melé participou de eventos no Brasil durante o primeiro Ciclo Dinheiro e Consciência, que contribui para o aumento do interesse pelo conteúdo das finanças sustentáveis.

Depois de conversas e alinhamentos, as organizações decidiram formar a Rede Dinheiro e Consciência com apoiadores que assinam sua missão por uma nova lógica econômica. “Um dos campos onde queremos trabalhar é no sistema financeiro, buscando trazer mais transparência porque é importante que as pessoas saibam em que o seu dinheiro está sendo aplicado e também que tenhamos mais opções para aplicar o dinheiro em coisas que façam mais sentido aos nossos propósitos e princípios. Olhando para essas pergunta e inquietações e vendo a experiência super bem sucedida do Triodos Bank na Europa, um banco que investe em negócios e empresas que geram valor para a sociedade no campo social, educacional, cultural e ambiental, resolvemos juntar esforços para desenvolver e apresentar essa possibilidade aqui no Brasil”, explica Glaucia.

Objetivos da Rede

Segundo a diretora, um grupo de mais de cinquenta pessoas está pensando um modelo de “EMV”, que significa “Experiência Mínima Viável”, designando a possibilidade de empresas e pessoas físicas participarem ativamente de um dos três pilares do uso do dinheiro: o investimento. A Rede fez uma chamada de empresas que desenvolvem projetos em suas áreas de interesse e que necessitam de empréstimos de até R$ 500 mil. “Nós recebemos propostas de 34 empresas e fizemos uma seleção, escolhendo três finalistas que vão poder ser financiadas pelos chamados investidores qualificados. Estes estão dispostos a fazer um aporte com taxas mais justas. Pessoas físicas também podem contribuir com quantias a partir de R$ 1.000. É uma forma de fazer com que as pessoas vivam a experiência de apoiar negócios que façam sentido.”

Criar uma nova instituição financeira baseada em valores é outro objetivo da Rede. “A nossa ideia é criar um mecanismo financeiro que estamos chamando de banco, apesar de não saber o que será um banco daqui a dois anos porque o cenário está mudando com muita velocidade”, reforça Glaucia.

Com isso, a Rede busca influenciar o sistema financeiro e tornar-se um modelo a ser replicado por outras instituições. “Nós não estamos fazendo um banco para competir com alguém nem para tirar mercado. Estamos criando algo para dar visibilidade para o fluxo do dinheiro a partir de uma forma sustentável, numa ideia de colaboração. Não tem problema se vierem copiar nosso modelo porque o que queremos é inspirar outros atores a fazer mudanças também e que a economia se transforme a partir disso”, explica Sérgio.

Uma das características essenciais dessa nova instituição é o investimento na economia e produção de produtos e elementos que sejam sustentáveis e estejam alinhados com os propósitos da Rede, que segue os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

“Todo mundo deve estar atento a essa essa responsabilidade sobre o uso do próprio dinheiro. Mais do que responsabilidade, é um direito. Além disso, a América Latina precisa mostrar ao mundo que valoriza a transparência e fazer isso de uma forma que vá mudando o jeito de outras instituições financeiras tocarem o seu negócio nos parece uma grande oportunidade”, ressalta Gláucia.

Jornada 2018

A fim de discutir esses conceitos será realizada a primeira Jornada Dinheiro e Consciência. Com o objetivo de engajar cada vez mais pessoas na reflexão sobre uso consciente do dinheiro, o evento terá atividades em oito cidades brasileiras – São Paulo, Campinas, Porto Alegre, Florianópolis, Recife, Curitiba, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – entre os dias 27 de outubro e 6 de novembro.

Sérgio explica que a lógica da Jornada se opõe à do Ciclo: enquanto este ficou concentrado em São Paulo, a Jornada será replicada em diferentes cidades brasileiras por organizadores parceiros da Rede que já estão sensibilizados com a causa. Cada evento contará com uma programação própria, mas Joan Melé é presença confirmada em todos. Em alguns deles, os participantes poderão experimentar e colocar em prática os três usos do dinheiro. A plataforma de financiamento coletivo corresponde somente a um dos pilares.

“Nós não queremos fazer um movimento só conceitual, queremos algo prático. Então a ideia é que, depois de ouvir a palestra do Joan Melé, cada pessoa possa realmente praticar o uso desses três dinheiros. Alguns eventos terão a experiência de compra de produtos, o investimento para as três empresas que selecionamos – Impact Hub, Vela Bikes e Morada da Floresta – e doação, para que possamos continuar fazendo nosso trabalho e desenvolvendo a Rede”, explica Sérgio.

Todos os detalhes sobre a Jornada estão disponíveis no site.

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