Rede LEQT promove atividades na FLIP 2019

Este ano, a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), maior evento literário do Brasil, homenageou Euclides da Cunha, autor brasileiro mundialmente conhecido pela obra Os Sertões. A homenagem marcou o tom político da 17a edição do evento, que teve participação majoritariamente feminina e brasileira entre seus convidados.

Na edição deste ano, a Rede de Leitura e Escrita de Qualidade para Todos (LEQT) marcou presença no evento em duas mesas de debates.

A primeira, denominada “Livro de Impacto”, aconteceu no segundo dia da programação da FLIP (11 de julho). Organizada por Casa da Porta Amarela e Selo Aupa – Jornalismo de Impacto, a atividade discutiu o papel da periferia, do investimento social privado, das organizações da sociedade civil, do jornalismo e da literatura na busca de soluções para os desafios atuais do país. 

Na ocasião, a LEQT foi representada por Kátia Rocha, diretora da Rede Educare. Depois de escrever vários livros, dos quais, muitos foram adotados por redes públicas, Kátia se deparou com o dado de quem faltam 125 mil bibliotecas no Brasil e percebeu que muitas instituições do campo do investimento social privado (ISP) queriam investir em leitura.

“Foi aí que surgiu a ideia de captar recursos do ISP, de um lado, e fazer articulações com grupos e entidades comunitárias para montar Cantos de Leitura em comunidades vulneráveis. “Qualquer lugar pode se tornar um espaço de leitura e transformação”, ressaltou.

Também compuseram a mesa Fábio Deboni (Instituto Sabin), Edson Leitte (Gastronomia Periférica), Marcio Black (Fundação Tide Setubal) e Leonardo Letelier (SITAWI Finanças do Bem). A mediação ficou a cargo de Ivan Zumalde, fundador do portal Aupa.

Marcio ingressou na Fundação Tide Setubal quando esta estava ampliando sua missão de São Miguel Paulista para as periferias de São Paulo. Nesse novo contexto, uma das iniciativas apoia projetos de literatura periférica organizados em torno do Circuito de Literatura Periférica (CLIPE). Em um ano de CLIPE, a Fundação apoiou festivais literários em várias partes da cidade como Grajaú, Parelheiros e regiões da Zona Norte.

“A literatura praticada nos territórios cumpre pelo menos quatro funções. A primeira é contribuir com os processos de letramento das comunidades locais, inclusive influenciando positivamente a alfabetização escolar. A segunda é o fortalecimento de lutas e identidades raciais e de gênero, temáticas necessariamente transversais à literatura periférica. A terceira e a quarta são o fortalecimento político dos atores e a valorização do território”, observou Marcio, que destacou ainda dois passos necessários para o avanço dos projetos de incentivo à literatura de periferia para que alcancem maior impacto: a constituição de acervos públicos de literatura periférica e a venda ou distribuição das obras nos territórios.

“Nesse sentido, a Fundação está em diálogo com a prefeitura de São Paulo para viabilizar a compra sistemática de obras de literatura periférica pelo poder público e sua disponibilização pelo Sistema Municipal de Bibliotecas”, informou.

Para Edson, em projetos de apoio a territórios é necessário valorizar as pessoas que vivem no local, que ali trabalham, muitas vezes, em atividades ‘invisíveis’, mas fundamentais para o funcionamento e a existência de grandes ações, como a própria FLIP.

Durante a Festa Literária Internacional de Paraty, Fabio lançou o livro Impacto na Encruzilhada. O autor chamou atenção para a importância de qualificar o termo ‘impacto’. “De que impacto estamos falando? Só um ‘selinho’ de certificação ou de mudanças estruturais na sociedade? Impacto para quem? Como fazer o recurso chegar na ponta? Como usar instrumentos de mercado ou de negócios para gerar impacto, renda e transformação?”, questionou.

Política pública

No dia 12 de julho, a LEQT realizou a mesa “Leitura e Escrita de Qualidade para Todos: Direito ameaçado”. Organizada pela própria Rede, a atividade reuniu especialistas em políticas públicas na área de leitura e escrita para debater a situação atual do setor no Brasil.

Mediada por Iracema Nascimento, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e secretária executiva da Rede LEQT, a atividade contou com os debatedores José Castilho, secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) de 2006 a 2016, Carla Mauch, coordenadora da Mais Diferenças, e Silvia Carvalho, coordenadora do Avisa Lá.

José abriu sua fala com um breve histórico sobre as políticas públicas do livro e da leitura no Brasil, destacando que elas se iniciaram como políticas propriamente em meados dos anos 2000. O marco para isso foi a XIII Cúpula Iberoamericana de Chefes de Estado, realizada em novembro de 2003, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, que aprovou o Plano Iberoamericano de Leitura com a participação do Brasil e de outros 19 países.

O documento se configura como um compromisso dos governos, setor privado e organizações da sociedade civil para empreender uma ação de longo prazo em favor da leitura e da escrita como meio de acesso privilegiado ao conhecimento e como requisito indispensável para o desenvolvimento educativo, cultural e econômico.

“Esse documento trouxe um entendimento sobre o que deveriam ser as políticas públicas de leitura e escrita nesses países. Até então se resumiam em governos centrais comprar livros e enviar para os níveis locais. Eram mais um incentivo ao mercado editorial do que políticas públicas de leitura. Quando o Pacto propõe a elaboração de planos plurianuais, pressupõe projetos de longa duração, tendo como base o desenvolvimento sustentável, que conjuga desenvolvimento social e emancipação dos indivíduos”, explicou.

Em referência à leitura realizada no âmbito escolar, Silvia destacou a necessidade de investimentos constantes em políticas públicas de formação de professores para a mediação da leitura, ou seja, para o uso adequado dos livros, para que não fiquem fechados em caixas ou parados nas estantes.

Sobre as possibilidades de ação para enfrentar perdas pela atual suspensão das políticas públicas da área, José se mostrou esperançoso. “Já estamos fazendo. Nos últimos dois meses viajando pelo Brasil, eu vi o PNLL vivo em escolas e bibliotecas comunitárias. As pessoas estão promovendo acesso, mediação, os livros estão circulando.”

Acessibilidade

Carla destacou que o principal avanço das políticas públicas do livro e da leitura no que diz respeito à acessibilidade foi ter colocado na pauta do debate público e na lei a necessidade de inclusão de todas as pessoas, com ou sem deficiência. “Agora a gente tem que qualificar a inclusão para que não se foque em um único tipo de deficiência e lutar pela implementação da lei para se transforme em letra viva.”

Para a coordenadora da Mais Diferenças, um dos desafios é a produção de livros de múltiplos formatos que permita a leitura a todos, em lugar de livros para atender a necessidades específicas. Outro é a formação de pessoas para a mediação de leitura acessível, de que todos podem desfrutar, não só as pessoas com deficiência.

Das 518 atividades da programação da FLIP, apenas oito foram traduzidas para Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) em uma iniciativa da Mais Diferenças. Carla relatou que ao realizar uma atividade de mediação de leitura acessível para crianças na Biblioteca Comunitária Casa Azul durante a edição deste ano, quatro adultos surdos da comunidade participaram e, ao saberem que uma das mesas principais da Festa também contaria com tradução em LIBRAS, compareceram à praça e assistiram pela primeira vez uma conferência da FLIP.

Saiba mais sobre a LEQT na FLIP

A sessão “Leitura e Escrita de Qualidade para Todos: Direito ameaçado” contou ainda com performance literária dos “Encrespados”, grupo de jovens da periferia da Zona Sul paulistana que discute temáticas étnico-raciais, diversidade de gênero e direitos humanos com estudantes de escolas públicas a partir das mais diversas expressões. A tradução em LIBRAS foi garantida pela Mais Diferenças.

Também houve sorteio de exemplares da publicação Indicadores LEQT: Qualidade em Projetos de Leitura.

Vários membros da Rede LEQT realizaram atividades durante a Festa. É o caso da Biblioteca Comunitária Casa Azul, responsável pela programação educativa da FLIP; do Instituto Pró Livro, com a apresentação dos resultados da pesquisa Retratos da Leitura – Biblioteca Escolar durante o encontro “Biblioteca Escolar: porta do conhecimento”; entre outros.

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