Rede Temática LEQT realiza primeira reunião geral de 2019

O dia 16 de abril marcou a realização da primeira reunião geral da Rede Temática (RT) de Leitura e Escrita de Qualidade para Todos (LEQT) em 2019 . O grupo se reuniu na sede do CENPEC, em São Paulo, para retomar decisões encaminhadas no final de 2018, atualizar os membros sobre as realizações nos primeiros meses de 2019 e debater dois dos quatro objetivos estratégicos da rede.

Com quase 30 organizações representadas na ocasião, a reunião dedicou o primeiro período à retomada do planejamento para o biênio 2019-2020. Em outubro de 2018, em uma reunião do conselho consultivo, foi decidido um conjunto de quatro objetivos estratégicos para a rede: Indicadores, Território, Advocacy e Fortalecimento Institucional.

Sobre o primeiro, a LEQT criou um conjunto de indicadores para ser utilizado como parâmetro avaliativo ou de monitoramento de projetos do campo da leitura por instituições que compõem a rede e outras que atuam com o tema de forma a possibilitar que elas avaliem e monitorem seus projetos para torná-los ainda mais eficientes. O primeiro produto resultante de um processo de escuta dos membros da rede ficou pronto e os participantes da reunião puderam levar uma cópia dos Indicadores LEQT de Qualidade em Projetos de Leitura.

Fernanda Cury, consultora do GT Indicadores, observou que, apesar de a publicação já estar disponível no SINAPSE, os indicadores não estão fechados, uma vez que o grupo identificou a necessidade de incluir métricas sobre eventos literários, por exemplo. Dessa forma, outras ações acontecerão nos próximos meses, como a definição da plataforma que hospedará os indicadores e a aplicação piloto da ferramenta junto a seis organizações membros da LEQT.

O momento inicial da reunião também abordou a organização da rede, atualmente dividida em assembleia de membros, GTs, conselho consultivo e coordenação. Ana Lucia Lima, da Conhecimento Social – organização que integra a coordenação da RT desde o início -, explicou que as alterações em sua composição refletem a dinâmica de uma rede viva, que está sempre em transformação, conforme a entrada e saída de membros ao longo do tempo.

A reunião também foi momento para apresentação oficial da nova organização que compõe a coordenação. Juntamente com a Conhecimento Social, a Fundação Itaú Social e o GIFE, a Fundação SM, representada por Mariana Franco, apoiará os trabalhos à frente da LEQT.

“Dianne Melo, especialista em programas sociais da Fundação Itaú Social, comemorou o avanço do trabalho da rede nos primeiros meses do ano, seja no conselho, nos GTs ou na coordenação. “A urgência do tema faz com que olhemos para projetos de leitura e escrita no cenário atual e pensemos no nosso papel para fortalecer essa temática.”

Painel “Território”

Iracema Nascimento, secretária executiva da RT, ficou responsável pelo painel “A experiência da LEQT em Nova Iguaçu e os novos desafios no objetivo Território”. A escolha de um município para atuação prática se deu para que a rede pudesse comprovar sua tese de que uma ação cooperativa e coordenada tem mais resultados.

A secretária pontuou algumas das intenções da LEQT ao desenvolver iniciativas em Nova Iguaçu, como experimentar caminhos para enfrentar desarticulação e descontinuidade de políticas e ações no campo da promoção da cultura escrita; monitorar e sistematizar as ações da colaboração no território para gerar indicadores de resultados da ação colaborativa; contribuir para a implementação e o fortalecimento do Plano Municipal Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB); entre outras.

Dentro de todo esse processo, Iracema destacou avanços como a própria escolha coletiva de um território, a articulação e mobilização no município, a realização e participação da LEQT em eventos em Nova Iguaçu e a oferta de 16 ações por 12 membros da rede para o território. Entre os desafios foram citados a mobilização de um território carioca feita a partir de São Paulo, instabilidade na gestão municipal, descontinuidade na articulação local e desarticulação do próprio GT Território.

Como forma de continuar com a atuação em Nova Iguaçu mesmo frente a essas e outras dificuldades, Iracema dividiu com o grupo a realização da reunião do Grupo de Articulação Local (GAL) no final de 2018, quando as ações foram revisadas e metas foram definidas para 2019, além da análise das metas dos Plano Municipal de Cultura (PMC), Plano Municipal de Educação (PME) e do próprio PMLLLB, de forma a priorizar ações para 2019.

Em um processo de planejamento realizado em março deste ano, foram definidas cinco linhas de atuação: 1. Formação de mediadores, leitores e escritores; 2. Espaços de leitura: ampliação e modernização; 3. Acervo: ampliação, diversificação e tratamento; 4. Acesso à informação sobre leitura; e 5. Articulações políticas. “Entre os desafios para 2019, estão apoiar o GAL para que se torne e se reconheça como coletivo coeso, independente da LEQT, na elaboração de um projeto de atuação integrado e da linha de base de monitoramento e avaliação em Nova Iguaçu”, exemplificou Iracema.

Painel “O trabalho de promoção da leitura em territórios: aprendizagens e desafios”

Continuando a programação do dia, o segundo painel reuniu representantes de três organizações que têm projetos em campo para dividir suas experiências. Isso porque uma das motivações para a realização da reunião geral foi a vontade do GT Território de deixar de lado a associação direta entre atuação em campo e o território de Nova Iguaçu e pensar no tema de forma mais ampla.

Dessa forma, Márcio Black, especialista em cultura da Fundação Tide Setubal, abriu o painel e dividiu a trajetória da organização que, até 2016, tinha como missão a redução de desigualdades em São Miguel Paulista, distrito localizado na zona leste de São Paulo. A alteração da missão ampliou o escopo para periferias de São Paulo, o que levou a Fundação a rever suas ações. “A nossa ideia não era desarticular São Miguel, mas olhar também para o restante da cidade”, explicou.

O especialista em cultura ressaltou que depois de muita pesquisa e debates, chegou-se à conclusão de que era preciso um modelo que garantisse a circulação de iniciativas já existentes na periferia, mas que também dialogasse com as diferentes linguagens – como saraus, rodas de conversa e festivais. Por isso, a Fundação criou o Circuito Literário nas Periferias (CLIPE).  

“Começamos a fazer um grande mapeamento de tudo o que acontecia na cidade em termos de promoção de leitura e criamos eixos do projeto: patrocínio, onde patrocinamos a maior parte das festas literárias; formação, no qual fizemos uma parceria com a Companhia das Letras para implementar clubes de leitura para formação de leitores; e compartilhamento de rede, com indicação de programação para os festivais. Além disso, também apostamos em eventos autorais, como o próprio Festival do Livro e da Literatura de São Miguel.”

Belita Cermelli, diretora da Casa Azul, compartilhou projetos de arquitetura, urbanismo, educação e cultura que a organização realiza em Paraty (RJ). Uma delas é a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). “O festival literário é uma estratégia para o território, pois tem toda a questão de ocupação dos espaços públicos. Às vezes, falamos que é um festival de ideias, pois integra diferentes manifestações artísticas e não só a literatura.”

Realizada desde 2003, a Flip tem números expressivos no território: além de empregar cerca de 1.400 pessoas, o Festival gera um volume de recursos dez vezes maior do que custa para ser realizado. “Temos certeza que é importante conhecer o território na hora de realizar um evento porque a cultura é algo que impacta o local onde acontece e um festival como a Flip precisa estar atento ao seu papel transformador. É preciso ter conexão com o lugar”, ressaltou Belita.

Além dessa, outras ações permanentes desenvolvidas pela Casa Azul são a Biblioteca Casa Azul – espaço de convivência a partir do livro e da cultura em uma área de vulnerabilidade social de Paraty – e o Museu do Território.

Ana Christina, coordenadora da área de capital humano do Instituto Votorantim, encerrou o painel. Criado há 15 anos com a missão de qualificar o investimento de empresas do grupo Votorantim, o Instituto tem uma atuação multitemática e busca ser um centro de soluções sociais, sempre desenvolvendo projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

“A área de educação ganhou uma relevância muito grande, pois 2018 foi o ano centenário do Grupo Votorantim e, na época, elegemos a educação como principal legado na sociedade, em uma perspectiva de que ela possibilitou que o Grupo existisse por cem anos e, como uma ponte para o futuro, possibilitará por mais cem. Por isso, mantivemos a sigla mas mudamos o nome do programa – de Parceria Votorantim pela Educação para Parceria pela Valorização da Educação -, implementando ações em mais de cem municípios brasileiros”, explicou a coordenadora.

Ao painel seguiu-se uma rodada de debates em torno dos projetos apresentados. Em nome do Instituto Votorantim, Ana Christina afirmou que, além de atuar em municípios pequenos, a organização sempre têm em mente os ciclos para desenvolver os projetos, além de identificar atores locais para valorizar ações que já existem. “O conhecimento do território é a grande chave. Por isso, buscamos identificar atores estratégicos que permitirão que o projeto continue independente de quem está no local.”

Painel “Possibilidades e necessidades de advocacy no campo da leitura”

O painel de encerramento da reunião tratou sobre possíveis ações de advocacy a serem desenvolvidas e encampadas pela LEQT no campo da leitura. Os membros dividiram-se em quatro grupos para debater o que a rede deseja em termos de advocacy, como ações nesse âmbito contribuem para o cumprimento da missão da rede e qual será a forma de atuação e escopo das ações de advocacy da LEQT.

Em uma grande roda, alguns pontos importantes foram levantados, como a necessidade de pensar no papel da rede – considerando que 30% da população brasileira é composta de analfabetos funcionais -, além de ter a formação de leitores como bandeira e princípio orientador do grupo.

Alguns membros apontaram que a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Leitura e Escrita está se reorganizando para aplicar a Política Nacional de Leitura e Escrita. Nesse sentido, a rede se questionou como pode apoiar esse processo e mobilizar parlamentares para a causa, possivelmente levando a discussão para Assembleias Legislativas.

Também foi discutida a necessidade de a rede estar pronta para fazer advocacy defensivo, ou seja, emitir pronunciamentos públicos no caso de medidas e acontecimentos que vão contra os princípios da LEQT.   

Próximos Passos

A partir do alinhamento entre a assembleia de membros que a reunião geral proporcionou, os próximos passos da rede se concentram nos GTs. Outras edições de reuniões gerais estão previstas para agosto e novembro, com datas a serem definidas.

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