“Se tem gente com fome, dá de comer!”: campanha nacional da Coalizão Negra por Direitos se soma a inúmeras iniciativas que visam responder ao aumento da fome no país

Em 2020, o país viu surgir a pandemia do novo coronavírus e, com ela, o agravamento da situação política, econômica e social do país. Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, 55,2% das famílias brasileiras sofreram algum tipo de insegurança alimentar nesse período.

Em março, foi lançada a campanha nacional de financiamento coletivo Tem Gente com Fome, uma iniciativa da Coalizão Negra por Direitos com apoio da Anistia Internacional, Oxfam Brasil, 342 Artes, Redes da Maré, Orgânico Solidário, Associação Brasileira de Combate às Desigualdades (ABCD), Instituto Ethos e Nossa – Redes de Ativismo.

Segundo Sheila Carvalho, advogada da Coalizão Negra por Direitos, o enfoque do movimento é a luta por direitos dentro dos espaços institucionais e das comunidades.

“Desde o início da pandemia, estivemos envolvidos na agenda do auxílio emergencial, aprovada em março e suspensa no final de 2020. Por conta da queda do auxílio, no início do ano, começamos a ter várias dificuldades nas nossas comunidades, em especial, um estado violento de insegurança alimentar. Tendo a fome como realidade, a Coalizão acreditou que era um momento propício para mobilizar movimentos e organizações parceiras que pudessem se somar em ações políticas e humanitárias nos territórios.”

Engajamento popular

A campanha foi inspirada no poema de Solano Trindade: “Se tem gente com fome, dá de comer!”. Com uma grande mobilização e apoio amplo de toda sociedade, a campanha conseguiu arrecadar 250 mil reais em menos de 24 horas.

Para Sheila, o início da campanha foi muito importante por expressar um grande engajamento popular, antes mesmo das  doações feitas por grandes empresas. “Acho que foi uma resposta muito positiva de pessoas realmente preocupadas com o aumento da fome no país. Então, essa ação humanitária não faz sentido só para a coalizão, mas para uma sociedade muito mais ampla.”

Chegando a quase um mês de campanha, a arrecadação já passa de R$ 6 milhões e uma empresa de auditoria foi contratada para acompanhar o processo de doações. A meta é  arrecadar 133 milhões de reais para, durante três meses, distribuir alimentos e produtos de higiene e limpeza para 222.895 famílias em situação de vulnerabilidade, mapeadas em todas as regiões do Brasil por organizações que integram a Coalizão Negra por Direitos como, por exemplo, a Redes da Maré, que atua no Rio de Janeiro. Esses grupos são responsáveis pela logística de distribuição, enquanto o escritório central da campanha, sediado na Uneafro Brasil, responde pela compra dos itens.

Controle social e incidência política

Para Sheila, vivemos um dos momentos mais difíceis da pandemia em nosso país, com o avanço da fome e uma política de morte estabelecida pelos atuais governantes.

“Acredito que o ‘nós por nós’ nunca foi tão forte porque as instituições não estão se mobilizando para atender às necessidades básicas, os direitos básicos da população, em especial da população negra. Assim, temos investido em ações humanitárias de atendimento direto para além das ações que fazemos de incidência no campo político. A Coalizão Negra por Direitos tem levado para a comunidade internacional denúncias das violações de direitos que temos sofrido no país. Essa ação híbrida de incidência política que a gente realiza enquanto movimento é muito importante”, observa a advogada.

Uma dessas iniciativas, prevista para ser lançada em 5 de maio, é a Comissão Popular de Inquérito. Sheila explica que a finalidade da ação é abrir um processo de investigação dos crimes cometidos pelo presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia.

“Se o governo não se responsabiliza como deveria, nós, sociedade civil organizada, nos responsabilizamos. Esse é o momento de avançarmos um passo a mais no enfrentamento. O que vivemos não é uma situação normal, não é algo do ‘jogo’ do Estado de Direito, pelo contrário, estamos vivendo algo que atenta todos os dias contra a democracia.”

Para a advogada, é fundamental o aporte do investimento social privado, principalmente para apoiar movimentos negros que nunca estiveram no centro do financiamento por parte do setor.

“Estamos lutando contra a força do Estado que, diariamente, está tentando nos matar. Precisamos de um investimento para, no mínimo, resistir a isso. Também acredito que é uma oportunidade de potencializar a ação da sociedade civil, para que se encontre práticas inovadoras e disruptivas. Nunca foi tão importante conectar o investimento social privado a esses projetos e organizações que fazem o trabalho comunitário. A ação do dia a dia é o que está fazendo com que os números e índices de morte não sejam maiores.”

Por meio do site da campanha Tem Gente com Fome , pessoas físicas podem doar de 5 reais a 10 mil reais. A página traz orientações para doações de valores maiores por pessoas ou empresas.

Related news

Especial redeGIFE: As Fronteiras do Investimento Social Privado

O 11º Congresso GIFE chegou ao fim! Com base na atualização de horizontes estratégicos tradicionalmente produzida no âmbito do evento, o Especial redeGIFE traz pistas sobre os próximos passos do setor na direção de expandir, diversificar, articular e inovar.

Apoio institucional