Solidariedade e união de esforços em torno de agendas comuns são caminhos para enfrentar efeitos da pandemia

Poucas coisas conseguem representar tão bem a pandemia de Covid-19 como a desigualdade. Segundo o relatório O Vírus da Desigualdade, lançado pela Oxfam, as mil pessoas bilionárias do mundo levaram apenas nove meses – entre março e dezembro de 2020 – para recuperar-se financeiramente do que perderam na pandemia, enquanto os mais pobres podem levar pelo menos 14 anos. No Brasil, as populações das periferias, formadas majoritariamente por pessoas negras, foram as mais afetadas pela pandemia, que já contabiliza mais de 300 mil mortos no país. 

Esse foi o tom do debate na live Pandemia, Pós-pandemia e Políticas Sociais, que integrou a programação do evento de encerramento do 11º Congresso GIFE. Na posição de mediadora, Jessica Moreira, jornalista e uma das gestoras do coletivo Nós, Mulheres da Periferia, deu início à conversa reforçando que, passado um ano do decreto da pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o home office não foi uma opção para milhares de homens e mulheres, que precisaram continuar se arriscando. Ao mesmo tempo, somam-se á disseminação do vírus a fome, o desemprego e os desmontes na área da saúde. 

Na mesma linha, Preto Zezé, empresário e presidente da Central Única de Favelas (CUFA), afirmou que muitas das diretrizes adotadas logo no início da pandemia como principal forma de prevenção não foram possíveis para uma parcela significativa da população, considerando o acesso precarizado a serviços básicos como saneamento e água e sabão para lavar as mãos. “Tudo isso cria uma situação muito grave para quem já está socialmente isolado de outros direitos. A população que vive nesses locais é quem segura o Brasil nas costas com sangue, suor e vida. São os chamados trabalhadores essenciais, sendo que muitos deles não estão na lista de prioridades de vacinação.”  

Considerando a experiência da CUFA, que desde o início da pandemia articulou estratégias que arrecadaram cerca de R$ 180 milhões para combater os efeitos da pandemia e alcançou mais de cinco milhões de pessoas, Preto Zezé reforça que o colapso no sistema de saúde, o corte no auxílio emergencial e a onda de desinformação – como as desconfianças envolvendo a vacina contribuem para o agravamento do contexto, onde a fome é uma urgência a ser atendida. 

“Esse é um naufrágio geral com um afogamento seletivo. Agora, estamos relançando o Mães de Favela, nosso programa de transferência de renda para mulheres, com a meta de alcançar 1,5 milhões de pessoas. Percebemos que quando o recurso chega nas mulheres, que geralmente têm o perfil de mãe solteira negra e moradora da favela, é impressionante que, mesmo sendo as mais sacrificadas pela pandemia, sua reação é proteger crianças e adolescentes e garantir que o dinheiro fique no território. Elas representam uma capacidade de reação e resposta muito eficiente”, explicou. 

Dinamismo, governança compartilhada e boas experiências 

Além de escancarar a diferença de acesso a alguns direitos básicos, a pandemia também mostrou que as desigualdades podem prejudicar soluções pensadas para contornar o momento de emergência. No mundo todo, a educação migrou do presencial para o virtual para respeitar as normas de distanciamento social com o fechamento das escolas. Entretanto, a maioria dos estudantes da rede pública de ensino no Brasil não têm acesso a equipamentos ou à internet. 

Diante desse e de muitos outros desafios que o setor enfrenta, Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos pela Educação, comentou alguns aprendizados que a educação obteve a partir da pandemia. Um deles é a construção conjunta de agendas dinâmicas. Também se faz necessária a construção de novas governanças coletivas, que, segundo a presidente-executiva, vai além do trabalho conjunto.

“Os Gabinetes de Articulação para Enfrentamento da Pandemia (Gaepe) têm participação de organização da sociedade civil, órgãos de controle, Ministério Público, poder executivo e legislativo, universidades, especialistas e coletivos. O Ministério da Educação (MEC) sempre foi uma instância muito importante para puxar políticas e mudanças na educação brasileira. Hoje, o MEC é completamente ausente e está mais preocupado com educação militar e tirar a menção a gênero dos livros didáticos do que fazer a coordenação de esforços no enfrentamento dos efeitos brutais da pandemia na educação. Por isso, temos sempre que ter uma visão de vários pilares de sustentação dessas governanças, até para termos uma voz mais poderosa”, exemplificou Priscila. 

Por fim, um terceiro aprendizado é a valorização e divulgação das boas práticas. Para a especialista, é necessário celebrar o que dá certo, fornecer incentivo para quem faz acontecer e criar um constrangimento para que, aqueles que ainda não o fazem, passem a se envolver. 

A relação entre saúde, educação cívica e informação de qualidade 

Representando o pilar da saúde no debate, Jorge Kalil, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e representante do Brasil no Instituto de Engenharia Genética e Biotecnologia (ICGBE), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), reforçou que muito do que o Brasil está vivendo neste, que é o pior momento da pandemia para todas as classes sociais, poderia ter sido evitado com uma articulação, por exemplo, entre governo federal e Ministério da Saúde para fornecer indicações e diretrizes em diferentes níveis, prezando pela saúde e bem-estar das pessoas e não focando em disputas políticas.

Ao mesmo tempo em que o professor reforça a insuficiência de recursos para responder ao tamanho dos desafios na saúde e o importante papel do Sistema Único de Saúde (SUS) no atendimento a todas as pessoas doentes durante a pandemia, ele cita agravantes como a falta de educação cívica das pessoas, que não respeitam determinações de evitar aglomerações; a disseminação de informações incorretas a respeito do vírus; o surgimento das novas variantes, com maior poder de disseminação; e também o papel desempenhado pelas desigualdades no agravamento do cenário.

“No Hospital das Clínicas [em São Paulo], nós atendemos muitas pessoas da periferia. Percebemos que, além de serem mais atingidos, os moradores desses locais já chegam ao hospital com a saúde mais debilitada.” 

Diante desse cenário, Jorge cita o Todos Pela Saúde, iniciativa criada pelo setor privado que, em parceria com o poder público, tem como objetivo identificar as principais áreas dentro da saúde que precisam de apoio. Lançado como um programa, o Todos Pela Saúde foi transformado em instituto no início de 2021 e conta com um time de profissionais de diferentes áreas da saúde para, juntamente com o SUS, organizar as demandas dos estados e elencar ações prioritárias. 

“Não podemos ser conhecidos como o lugar onde nascem novas variantes. Temos que tomar atitudes e nos preparar, criando ações estruturantes. A iniciativa privada, por exemplo, pode ajudar em milhares de coisas, como em práticas de gestão. Precisamos saber aproveitar o conhecimento que já temos e a nossa capacidade de gerar mais conhecimento e coordenar ações para que possamos nos prevenir e dar um alerta quando tivermos outros problemas de saúde”, defendeu Jorge. 

Intersetorialidade e solidariedade 

Apesar de a live envolver representantes de áreas diferentes, alguns temas se mostram transversais. Para Jorge, articular a saúde a outras áreas é fundamental.

“Faz parte da educação, por exemplo, uma educação sanitária, reforçando a importância do conhecimento para resolver os problemas do país. Eu sou educador da área da saúde e vejo a importância de educar e dar uma consciência social para todos.” 

Para Priscila, apesar de ser um tema muito debatido, a intersetorialidade é desafiadora de ser colocada em prática, considerando que, para isso, exige a presença em um território.

“O Compaz [Centro Comunitário da Paz], em Recife, é um equipamento público para a convivência de famílias onde encontram-se políticas de saúde, educação, esporte, cultura, biblioteca comunitária, empregabilidade para mulheres, acolhimento de mulheres grávidas e diversas outras políticas dentro do território. Eu ando muito convicta de que precisamos aterrissar essas construções nos territórios. A CUFA também é um exemplo disso. É importante que façamos cada vez mais, tornando uma realidade disseminada no país”, comentou. 

Preto Zezé reforça que é papel e obrigação do Estado a criação de políticas públicas que atendam à população. Entretanto, em momentos de emergência como o atual, a esperança e solidariedade devem ser uma escolha política e palavra de ordem.

“É importante que o setor privado, a sociedade civil organizada e as lideranças se unam para que possamos fazer da solidariedade um movimento permanente. Vejo debates sobre a eleição de 2022, mas precisamos sobreviver a 2021. A proteção econômica, social, da saúde e a segurança alimentar são agendas que pedem para ser abraçadas agora. Se não formos capazes de entender que essas são pautas independente das nossas diferenças, acho que fracassamos como sociedade”, afirmou.

Assista ao vídeo da live neste link. 

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