Série Fundo BIS: Plataforma aposta no financiamento dos Fundos Rotativos Solidários

Fundo Rotativo Solidário (FRS) é uma prática popular que vem se espalhando pelo Brasil nos últimos trinta anos, principalmente em pequenos municípios e comunidades do interior. Normalmente, nasce a partir da injeção de um recurso não reembolsável em projetos produtivos para geração de renda de uma comunidade.

Uma das organizações que atuam nesse tipo de apoio é a Rede Vencer Juntos, de Salvador (BA), que teve seu projeto selecionado pela segunda edição do Fundo BIS. A iniciativa se configura como uma plataforma coletiva de captação de recursos e divulgação de experiências de Fundos Rotativos Solidários da região Nordeste e do Norte de Minas Gerais, o Fundo Nordeste Solidário (FNES).

Um mapeamento de FRS realizado entre 2011 e 2013 com apoio da extinta Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) identificou e cadastrou 341 iniciativas em 404 municípios da região Nordeste. Na ocasião do estudo, esses fundos haviam fomentado mais de 9 mil pequenos empreendimentos produtivos, coletivos ou familiares, envolvendo mais de 70 mil pessoas, a maioria vinculada à agricultura familiar.

A iniciativa da Rede Vencer Juntos partiu desse banco de dados para o lançamento de uma campanha nacional no formato matchfunding – a cada quantia arrecadada pelos FRS, o Fundo Nordeste Solidário completa com mais um valor e estimula os produtores a devolverem o recurso, destinando parte do lucro de seu empreendimento a um Fundo Rotativo local, com o objetivo de multiplicar o benefício e fomentar o desenvolvimento de outros territórios.

“Apostávamos que os resultados da pesquisa apoiada pela SENAES estimulariam a introdução de políticas públicas mais permanentes de apoio às iniciativas de Fundo Rotativo Solidário. No entanto, a política pública federal de apoio às iniciativas de economia solidária foi abandonada em 2016, deixando dezenas de milhares de famílias sem assistência. Os Fundos Rotativos Solidários, que se organizaram em uma rede em 2016, tiveram que encontrar um novo caminho para captar investimentos sociais para ganhar escala e ampliar seu impacto. Nasceu então a proposta do Fundo Nordeste Solidário para captar recursos de empresas, pessoas físicas e fontes públicas”, conta Barbara Schmidt Rahmer, presidente da Rede Vencer Juntos e membro da coordenação da Rede Nordestina de Fundos Solidários.

Campanha, pandemia e próximos passos

A primeira campanha de captação de recursos do FNES aconteceu em dezembro de 2020 por ocasião do Dia de Doar. Sete FRS aderiram à iniciativa e organizaram campanhas locais em seus territórios, sendo que o Fundo Nordeste Solidário se propôs a injetar 1 mil reais para cada cem reais captados localmente. A campanha arrecadou cerca de 25 mil.

Com a pandemia, a etapa de prospecção junto a parceiros e investidores prevista para viabilizar a continuidade e ampliação do FNES foi impactada.

“A crise sanitária inviabilizou as viagens de prospecção de doadores e reduziu as de campo para captação de imagens e depoimentos dos FRS. Por outro lado, a crise nos forçou a aprender a usar as tecnologias de comunicação virtual. Apesar das limitações em lugares muito remotos, boa parte do nosso público conseguiu participar dos encontros virtuais. Descobrir essa possibilidade foi excelente porque abriu perspectivas de economia de tempo e recursos no futuro”, celebra Barbara.

Para este ano, além de intensificar os esforços de prospecção de doadores maiores e parceiros estratégicos para alcançar a sustentabilidade e ampliação do FNES, a iniciativa prevê ações piloto em alguns territórios para apoiar os FRS na construção de parcerias com empresas locais, além de uma segunda campanha de captação em julho de 2021.

A presidente da Rede Vencer Juntos observa ainda que a pandemia abriu a oportunidade de mostrar ao mundo a força e a resiliência de uma comunidade organizada nas bases.

“Os Fundos Rotativos Solidários são uma tecnologia social poderosa para fomentar o empreendedorismo comunitário, mas em tempos de crise também servem para atender a situações de emergência, como fizeram as associações comunitárias gestoras de FRS que se engajaram em ações envolvendo confecção de máscaras, doação de cestas, entre outras.”

Para Barbara, existe uma oportunidade de maior apoio por parte do investimento social a essas comunidades e territórios por meio dos FSR. A presidente da Rede Vencer Juntos expressa o desejo de avançar rumo a um novo paradigma de filantropia.

“O povo nordestino é muito bem organizado e tem demonstrado uma criatividade, garra, solidariedade e capacidade extraordinária para inventar e executar as tecnologias sociais e práticas populares para enfrentar seus problemas e superar seus desafios. A ASA Brasil, rede de mais de três mil organizações da sociedade civil que é protagonista do Programa 1 Milhão de Cisternas no Semiárido – premiado várias vezes, inclusive pela ONU -, é um exemplo notável dessa capacidade. O grande sucesso do programa revelou o que pode acontecer quando o poder público ou a filantropia aposta e investe nos projetos propostos pelos próprios nordestinos.”

Barbara observa que a Rede Nordestina de Fundos Solidários, com 341 experiências documentadas e prontas para ganharem escala, é outro exemplo.

“Nos dias de hoje, quando precisamos, urgentemente, de programas para impulsionar a recuperação econômica e a geração de renda para centenas de milhares de famílias que perderam seu emprego ou outra fonte de sobrevivência, essa tecnologia social se tornou mais relevante ainda. Precisamos da reintrodução e ampliação de políticas públicas de apoio a essas redes, mas, enquanto isso não acontece, o investimento social privado pode fazer uma contribuição estratégica”, ressalta.

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