Trabalho de cuidado não remunerado ou mal pago perpetua desigualdades de gênero e econômica, aponta relatório da Oxfam

Foto: Relatório Tempo de cuidar: o trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade (Oxfam)

Os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas (60% da população mundial). Os 22 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que todas as mulheres da África. Mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado – uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global – mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo.

Esses são alguns dos achados do relatório Tempo de cuidar: o trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade, publicado recentemente pela Oxfam.

O documento aponta o que chama de “grande fosso” baseado em um sistema econômico sexista e falho, que valoriza mais a riqueza de um grupo de poucos privilegiados, na sua maioria homens, do que bilhões de horas dedicadas ao trabalho mais essencial – o do cuidado, que hoje é não remunerado ou mal pago –, prestado principalmente por mulheres e meninas em todo o mundo, o que perpetua as desigualdades de gênero e econômica.

De acordo com o estudo, governos ao redor do mundo devem agir para construir uma economia humana que seja feminista e que valorize o que realmente importa para a sociedade, em vez de promover uma busca interminável pelo lucro e pela riqueza. “Investir em sistemas nacionais de cuidado para equacionar a questão da responsabilidade desproporcional assumida pelo trabalho de mulheres e meninas, adotar um sistema de tributação progressiva, com taxas sobre riquezas, e legislar em favor de quem cuida, são passos possíveis e cruciais a serem dados para uma mudança”, diz o documento.

O redeGIFE conversou com Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil, que repercutiu os achados do relatório, ressaltando que enfrentar as desigualdades no Brasil significa enfrentar o racismo e a discriminação de gênero. “Priorizar essa agenda significa um compromisso para transformar o nosso país.”

Confira a seguir a entrevista na íntegra.

redeGIFE: Que cenário os dados apontam em relação aos desafios no tema da desigualdade?

Katia Maia: O relatório demonstra que a desigualdade global está em níveis recordes e o número de bilionários dobrou na última década. Os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial – e quase tanta riqueza quanto todas as mulheres da África – que são cerca de 660 milhões. Enquanto isso, milhões de mulheres e meninas passam boa parte de suas vidas fazendo trabalho doméstico e de cuidado, ganhando pouco ou sem remuneração, e sem acesso a serviços públicos que possam ajudá-las nessas tarefas tão importantes. O relatório evidencia o sexismo da economia global e a urgência de se garantir os direitos das mulheres, numa economia mais justa, solidária e feminista.

redeGIFE: Que recomendações podem ser capturadas desse amplo retrato da desigualdade, especialmente direcionadas ao Brasil?

Katia Maia: Nossas recomendações para enfrentar esses desafios passam pelo papel do Estado, mas também do conjunto da sociedade. O Estado deve investir em sistemas nacionais de prestação de cuidados para aliviar o peso sobre os ombros dessas mulheres, garantir a escuta de cuidadores na construção de políticas públicas voltadas ao cuidado e os direitos desses trabalhadores. Além disso, o Estado deve reduzir as desigualdades fiscais com a taxação de grandes fortunas e o combate à sonegação, entre outras medidas.

redeGIFE: Que outros atores precisam ser envolvidos no enfrentamento dos desafios?

Katia Maia: Construir uma sociedade menos desigual não é função apenas do Estado, mas de todo o conjunto da sociedade, e isso inclui o setor privado, seja por meio das políticas e práticas adotadas na realização de seus negócios, seja por meio de seus institutos e fundações. As empresas devem reconhecer o valor do trabalho de cuidado e promover o bem-estar de trabalhadores e trabalhadoras. Cada um de nós deve rever as crenças sexistas que consideram o trabalho de cuidado uma responsabilidade de mulheres e meninas.

redeGIFE: Qual é o papel do investimento social privado no combate às desigualdades? Como a atuação dos institutos, fundações e empresas dialoga com esse cenário e de que maneira poderia responder à altura dos desafios?

Katia Maia: O investimento social privado tem um papel importante na medida em que estimula e viabiliza organizações da sociedade civil que lutam por justiça social. Para além do tradicional apoio do investimento social em saúde, educação e outras áreas importantes para a redução das desigualdades, é fundamental a atuação em agendas e debates que tratam de temas centrais como o injusto sistema tributário brasileiro. O debate sobre a reforma tributária no Congresso Nacional apresenta uma oportunidade única para que possamos ter uma mudança significativa nesse ‘alimentador’ de desigualdades.

Confira outros dados do relatório:

  • Os 22 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que todas as mulheres da África.
  • Mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado – uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global – mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo.
  • Se o 1% mais rico do mundo pagasse uma taxa extra de 0,5% sobre sua riqueza nos próximos 10 anos seria possível criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e de cuidado para idosos.
  • Em 2050, o Brasil terá cerca de 77 milhões de pessoas dependentes de cuidado (pouco mais de um terço da população estimada) entre idosos e crianças, segundo dados do IBGE.
  • 90% do trabalho de cuidado no Brasil é feito informalmente pelas famílias – e desses 90%, quase 85% é feito por mulheres.  
  • Em média, uma mulher no emprego doméstico no Brasil ganha 78,44% do rendimento de homens que exercem as mesmas funções. (Pnad Contínua 2018)
  • De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apenas 30% dos municípios brasileiros (cerca de 1.500) contam com instituições de assistência a idosos – a maior parte está localizada na região Sudeste do país.
  • 37% das mulheres declararam ter exercido cuidados no Brasil em 2018, enquanto 26% dos homens declararam o mesmo (dados da Pnad Contínua 2018)
  • As mulheres que não tinham carteira de trabalho assinada receberam, em 2018, R$ 707,26 ao passo que para as formalizadas esse valor foi de R$ 1.210,94.

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