A co-criação do grantmaking e filantropia de risco marcam primeira reunião da nova rede temática

Pensar coletivamente os modos do fazer grantmaking no Brasil e os desafios e oportunidades de atuação das organizações da sociedade civil no aprimoramento do acesso aos recursos disponíveis guiaram as discussões da primeira reunião da Rede Temática de Grantmaking, no dia 10 de julho, na sede da Fundação Lemann, em São Paulo. O objetivo foi abordar questões práticas a partir da escuta das percepções, interesses e visões do grupo pensando no desenvolvimento e na agenda de trabalho da rede.

Anunciada em abril, durante a mesa de debate Cultura de doação e grantmaking: superando barreiras para um país mais doador, no X Congresso do GIFE,  a Rede, que pretende ampliar a prática do grantmaking no setor e desenvolver e fomentar ferramentas que apoiem a construção de novas formas e estratégias desta prática, sabe do cenário desafiador que enfrentará. Dados do Censo GIFE 2016 apontam que, dos R$ 2,9 bilhões investidos, foram aportados 60% em ações e programas próprios e 21% foi investido em ações e patrocínios de terceiros, o que equivale a R$ 595 milhões, 33% menos se comparado a 2014.

A prevalência é do perfil executor de projetos próprios entre as organizações que responderam o Censo: 43% perfil executor, 41% híbrido (doa e executa projetos próprios) e apenas 16% doador. Entre 2014 e 2016, houve uma queda de 33% dos recursos doados para projetos de terceiros. Em números absolutos foram R$ 894 milhões, em 2014, e R$ 595 milhões dois anos depois. Porém, cresceram a importância dada para o fortalecimento das OSCs – em 2014 era de 21% e saltou para 35% em 2016 – e o reconhecimento do trabalho que realizam: de 1% para 10%, respectivamente.

Para José Marcelo Zacchi, secretário-geral no GIFE, uma das lições de casa não cumpridas durante a construção democrática do país nos últimos 30 anos é a capacidade da sociedade brasileira de mobilizar recursos próprios para a manutenção de organizações cidadã, autônomas, sustentáveis. “Ainda há uma enorme fragilidade dessa teia de instituições para construirmos esse campo que não é governamental nem do mercado e que ainda depende muito mais de recursos governamentais ou internacionais do que seria o ideal. Do ponto de vista da Rede, nosso objetivo é pensá-la como sequência do esforço que fazemos para garantir que o GIFE tenha ambientes perenes de discussão, de troca, de aprimoramento contínuo em temas que são também perenes na agenda dos atores de investimento social privado. Está expresso no Censo GIFE que há um desejo de fazer mais pelas doações, mas ainda não se reflete nos números. Então, tem uma questão aqui que é: temos um acúmulo, vontade, mais quais são os obstáculos? Quais são as ‘porcas’ e ‘parafusos’ do dia a dia do fazer o grantmaking?”, provocou.

Capacidade de se aventurar

Como nas demais Redes Temáticas, há duas instituições que estão à frente da coordenação, sendo o Instituto Humanize e a Fundação Lemann responsáveis pela de Grantmaking. Segundo Georgia Pessoa, diretora executiva do Instituto Humanize, existe uma movimentação de grupos dentro e fora do Brasil que, nos últimos dez anos, vem construindo o conceito de Venture Philanthropy (VP), ou filantropia de risco, que está alimentando também as ações da própria instituição. Uma das diferenças básicas entre a filantropia tradicional e a de risco está na composição dos atores, segundo Georgia. Enquanto que na tradicional a dinâmica de funcionamento envolve doador, beneficiário e o líder de ONGs, na de risco compreende investidor social, investida e o empreendedor social.

“Um dos conceitos de VP é que ‘filantropos e investidores de impacto têm se unido para apoiar toda a cadeia de empreendedorismo com modelos de inovação social desde o seu nascedouro, destinando capitais a fundos sem retorno (grants) no início para que novas ideias possam surgir, identificando aquelas dotadas de melhores perspectivas de geração de impacto e sustentabilidade econômica e as financiando ao longo de toda a cadeia, passando por linhas de crédito, garantias, seguros, equity, dentre outros mecanismos tradicionais’”, apontou Georgia.

A European Venture Philanthropy Association (EVPA) foi citada pela diretora como uma das referências dessa discussão que defende que “a filantropia de risco e o investimento social têm a ver com combinar a alma da filantropia com o espírito de investimento, resultando em uma abordagem de alto engajamento e de longo prazo para criar impacto social.” A partir do entendimento do VP com foco no impacto social, Georgia apontou: “A palavra risco no Brasil ainda está muito estigmatizada. Até por isso, gostamos muito de falar em aventura, se aventurar, se lançar. Estamos no exercício do repensar os modelos de atuação.”

Em novembro, a European Venture Philanthropy Association promoverá um encontro internacional sobre filantropia de risco e investimento social e instituições brasileiras foram chamadas para participar. “Além de ser uma oportunidade de aprendermos, fomos convidados para avaliar a oportunidade de ajudar a criar uma rede de Venture Philanthropy na América Latina e a ideia é que vá uma delegação do GIFE”, contou Georgia.

Desafios à vista

Duas questões apontaram alguns caminhos para o trabalho da Rede durante as conversas dos grupos formados no evento: quais são os principais desafios dos investidores sociais privados que fazem ou querem fazer grantmaking?;  e considerando os desafios, o que esta Rede pode fazer para superá-los?

Estabelecer relações de confiança, apresentar e/ou construir pluralidade de modelo de doação, compreender o papel do grantmaker discutindo e aprofundando o conceito de “grants”, criar independência e selecionar organizações e projetos, gerir a relação e mensurar impacto foram alguns dos principais desafios listados pelos participantes. Para superá-los o grupo fez uma série de sugestões que vão desde a criação de momentos e espaços para troca de saberes, possibilitando aprender com a experiência agregada do grupo, e a criação de um banco de boas práticas, a organização de pesquisas e debates sobre temas como accountability e gestão profissional, a produção de ferramentas práticas e manuais, até iniciativas de atuação coletiva como a experiência de co-investimento e contratações conjuntas para citar alguns exemplos

“Além disso, precisamos tornar o investimento de risco mais charmoso, mais interessante. Somos avessos ao risco”, provocou Angela Dannemann, superintendente adjunta do Itaú Social, trazendo para a conversa o desafio e a proposta de reinventar a narrativa do grantmaking e do risco. 

A co-criação do grantmaking

Na opinião de Georgia Pessoa, a Rede Temática de Grantmaking é uma oportunidade de realizarem um trabalho de co-criação, de reunir os processos individuais das organizações para uma atuação efetivamente coletiva. “Se identificamos todos aqueles temas-desafios, o importante agora é conseguirmos trazê-los para esse lugar comum. A grande sacada será encontrarmos a nossa medida: qual é a velocidade de cada organização, qual a priorização que estamos dando para cada um desses temas, por onde a gente começa, quais os processos conjuntos. Algumas das organizações já têm suas aprendizagens sistematizadas. Como podemos trabalhar com um benchmarking, um roadmap GIFE com uma oferta de conteúdos que vão desde diagnóstico até planejamento estratégico passando pela comunicação, captação e operação dessas organizações da sociedade civil? Todos os doadores estão quebrando a cabeça de como tratar isso. Se o GIFE oferece uma possibilidade sistematizada, um trabalho inteligente que cada um possa customizar e adaptar, já é de grande valia”, sugeriu.

A Fundação Lemann tem a comunicação como uma de suas estratégias consolidadas para dar mais visibilidade para o impacto gerado pelos projetos que apoia, mas também das instituições parceiras. “Vivemos um período de carência de boas histórias, de boas notícias e mostrar o que está sendo feito, tudo que tem gerado de resultado é uma aposta forte nossa”, afirmou Lara Alcadipani, gerente de comunicação.

Nesse espírito de gerar uma rede de apoio e fomento à cultura de doação, Lara contou outra estratégia da instituição. “Com a preocupação também do foco no impacto, na medição de resultados, acompanhamento, troca de experiências, temos realizado atividades de formação com os parceiros como de captação de recursos para organizações do Terceiro Setor e avaliação de impacto.”

Em relação à responsabilidade de puxar a coordenação de uma rede, a gerente da Lemann compactua com a mesma percepção da Georgia diante do tamanho do desafio, e acredita que ter um grupo maior ajudando a provocar a construção desse campo será essencial. “As situações acabam sendo metáforas delas mesmas porque estamos falando de como realizamos um trabalho que é de fomentar um sistema de impacto social a partir dos investimentos das organizações e da filantropia e fazendo isso de maneira colaborativa. Por si só já traz uma dimensão bastante interessante de aprendizado conjunto. Espero muito aprender com os parceiros nessa frente e aportar um pouquinho do conhecimento que a Fundação vem desenvolvendo nesses quase 16 anos de investimento social. Percebendo o perfil engajador e o nível de interesse desse grupo, além da demanda existente para esse tipo de discussão no setor, será desafiador congregar tudo isso de maneira produtiva para que consigamos gerar alguma transformação dentro da nossa atuação e, principalmente, atuando em conjunto. Estou muito feliz e animada.”

O grupo vai ser reunir a cada dois meses e o próximo encontro está marcado para setembro.

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