A comunicação de causas deve ser corajosa e inspiradora  

A comunicação do campo social precisa ser corajosa, aguerrida, questionadora, colocando em pauta os desafios atuais, e ao mesmo tempo inspiradora, que compartilhe aprendizados e aponte os resultados já alcançados. Esta foi uma das principais mensagens que nortearam os debates do ComNet -The Communications Network Annual Conference 2017, principal conferência internacional de comunicação na área social, realizada entre 27 a 29 de setembro em Miami (EUA).

Durante o encontro, cerca de 800 lideranças da área estiveram presentes, inclusive organizações brasileiras, como o Instituto Alana, Instituto C&A, agência CAUSE e MC&Pop Comunicações, entre outras.

“O que ficou mais forte neste ano em todas as falas foi a necessidade e urgência de nos posicionarmos, de ocuparmos espaços e não nos intimidarmos por discursos. A nossa atuação, enquanto comunicadores, é sim política e deve ser assim, e é importante que a gente não se cale. Essa visão vem do atual contexto norte-americano, mas se aplica também ao Brasil. Temos que tomar partido e dizer aquilo que nos move, para ajudar a manter os nossos valores e conquistas. Fica essa vontade de construir uma comunicação que, neste momento de tensão, ocupe o espaço que ela deve ocupar”, comenta Carolina Pasquali, diretora de Comunicação do Instituto Alana.

Diante deste cenário, os comunicadores passam a ter uma posição e relevância ainda mais central nas organizações e precisam estar preparados para tal. Francine Menezes, sócia-diretora da agência CAUSE, ressalta que os comunicadores têm papel-chave para apurar fatos, trazer a verdade, e se posicionar. Com uma intensa polaridade pela qual a sociedade atual passa, é pertinente trabalhar a comunicação nas organizações principalmente assumindo essa postura protagonista.

“Por isso, é importante que as organizações compartilhem suas visões para o futuro e se atenham a isso, para que as pessoas enxerguem as nossas organizações como locais para encontrar força e esperança. Nós promovemos grandes transformações e precisamos mostrar isso, seja por meios de histórias, dados, pesquisas etc. O importante é não nos esquecermos de que é o nosso papel uma visão de futuro possível para que as pessoas possam seguir adiante, num momento em que, às vezes, desanimamos com o que vemos acontecer na sociedade”, completa Carolina.

Como atuar

Mas, afinal, é o que é preciso então fazer para conseguir um impacto maior das ações, ter uma comunicação que atinja mentes e corações? Um aspecto central discutido ao longo do ComNet foi a importância de se pensar em todo o processo de construção das mensagens, a fim de descomplicar os discursos. Isso significa estudo, pesquisa, planejamento, testes e reelaboração e readequação constante, com um tempo adequado para todo o processo e engajamento da equipe.

E isso se torna muito mais fundamental hoje, como destaca Sandra Mara Costa, sócia da MC&Pop Comunicações, tendo em vista o novo paradigma trazido pelas redes sociais em que todos são produtores de mensagens. “E qual é o papel do comunicador especialista neste contexto? Ele realmente precisa dominar o processo de produção de mensagens, colocando seu conhecimento para tornar a sua comunicação mais eficiente. É necessário trabalharmos profundamente a mensagem de uma maneira que ela seja verdadeira, inteligível, autêntica, clara e simples”, comenta a especialista. E completa: “A mensagem que tem mais impacto é aquela que fala mais diretamente às pessoas, que consegue construir uma ponte com os públicos aos quais ela se dirige, criando empatia, proximidade e deixando claro qual mudança que está fazendo, isso sempre alinhada à estratégia institucional”.

Joana Castello Branco, gerente de Comunicação do Instituto C&A, lembra outro aspecto debatido no encontro: a importância de falarmos dos desafios atuais de forma sistêmica, incluindo o papel de cada ator na transformação de um ecossistema, facilitando assim o entendimento da responsabilidade e qual o papel que cada um pode ter na transformação que se quer produzir.

“Isso faz a ‘chamada para ação’ ser mais clara e efetiva. Outro ponto é a necessidade de pensarmos em como formulamos a narrativa do desafio que cada organização enfrenta. Todos sabemos que é preciso que a sociedade conheça melhor os problemas da educação infantil, do acesso à saúde, do trabalho escravo, entre tantos outros que estão em nossas agendas. Porém, é um risco focarmos somente no aspecto negativo e nas crises que temos diante de nós. Os diferentes atores podem se mobilizar no curto prazo, mas no longo prazo acharem que o problema é complexo demais para ser resolvido. É importante indicarmos caminhos e possíveis soluções”, comenta a gerente de Comunicação do Instituto C&A.

Por isso, um grande diferencial é quando a construção dessa narrativa passa a ser feita de forma colaborativa, em parceria com as diferentes organizações e atores que atuam em uma mesma agenda. A chance dessa mensagem ser poderosa, se disseminar e realmente ser um motor de mudanças é muito maior, apontam os especialistas presentes no ComNet.

“São grandes as questões da sociedade brasileira que demandam um esforço coletivo, para que possamos estabelecer diálogos de fato transformadores. Assim é urgente que estejamos juntos, que entendamos as ferramentas e estratégias para ampliar o número de interlocutores e trazer as pessoas para perto, a fim de que entendam o que fazemos e estejam conosco também”, analisa a diretora de Comunicação do Alana.

Daí a necessidade, lembram as comunicadoras, de fortalecer redes e espaços para que os comunicadores possam se reunir, trabalhar em conjunto e pensar nas melhores estratégias para o setor. “Ficou muito forte a vontade de levar adiante a Rede de Comunicação Brasileira porque é um lugar de muita potência que precisamos criar no Brasil. Voltamos todas animadas”, ressalta Carolina Pasquali.

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