Iniciativa usa monitoramento de dados para aprimorar área de saúde mental no SUS

Um estudo do jornal médico The Lancet, publicado em novembro de 2021, mostra o impacto direto no aumento das taxas de transtornos depressivos e de ansiedade a partir da ampliação de casos de  Covid-19 e redução da mobilidade em razão do distanciamento social. A pesquisa estima 53,2 milhões de novos casos de depressão globalmente devido à crise sanitária, além de adicionais 76,2 milhões de pessoas com quadros de ansiedade. 

Segundo o Painel Saúde Mental, do Desinstitute, há uma redução dos gastos federais per capita com a política de saúde mental: de R$ 16,90 em 2012, para R$ 12,40 em 2019. As dificuldades enfrentadas pela área de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) também podem ser observadas a partir da notícia da demissão de 13 profissionais entre psicólogos, terapeutas e psiquiatras do Hospital São Paulo, na capital paulista. Em nota, a instituição afirma que os valores recebidos do poder público para atendimento ao SUS não acontecem há anos.  

O aumento nos transtornos mentais ocasionado pela crise sanitária foi um dos fatores que incentivou a Impulso Gov – organização criada para aprimorar a coleta e análise de dados dos serviços de saúde – a priorizar o trabalho na área, entendendo a importância desse cuidado para a promoção da saúde integral das pessoas, como explica João Abreu, diretor-executivo da organização.

Desafio da coleta de dados 

A Impulso Gov firmou uma parceria com o Instituto Cactus e, juntas, desenharam um projeto piloto implementado em Aracaju (SE), com apoio da Prefeitura Municipal. 

Daniela Krausz, gerente de projeto na Impulso Gov, afirma que a etapa de diagnóstico contou com a elaboração de relatórios sobre uma revisão de estudos e casos brasileiros e internacionais sobre a avaliação em saúde mental, análise de indicadores e uso de dados a nível municipal, utilizando as informações da Rede de Atenção Psicossocial do SUS (RAPS) de Aracaju. 

Essas análises, assim como conversas com gestoras de saúde e outros especialistas, mostraram diversas dificuldades de gestão da RAPS relacionadas à falta de acesso a informações organizadas e a complexidade do fluxo de dados nas bases dos governos no Brasil.

Com isso, aumentam as chances desse cenário se refletir na qualidade do serviço oferecido à população, como o agravamento da situação de usuários sem devido acompanhamento, a existência de filas de espera e sobrecarga em determinados serviços, enquanto outros são subutilizados, além da dificuldade em estabelecer e manter o vínculo dos usuários com a rede, exemplifica Daniela. 

Otimização via tecnologia 

Na etapa de elaboração da solução, a equipe desenvolveu um processo de análise dos dados sobre atendimentos em saúde mental no município e, a partir disso, criou um conjunto de métricas e indicadores de qualidade em parceria com a coordenação da RAPS. 

Em seguida, implementou um painel. Orientado por uma visualização simples, é possível consultar quantos são os usuários ativos em toda a rede e em cada Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), a taxa de abandono geral e por localidade, o número de procedimentos e de internações, regiões que concentram pessoas com transtornos mentais agudos que levam à internação sem identificação precoce ou acompanhamento prévio, entre outras informações. 

Para Daniela, essa identificação permite que a gestão fortaleça os serviços nos territórios e execute ações de busca ativa dos cidadãos.

“Entendemos que se as gestoras acessarem o painel e confiarem nas informações, é possível tornar os serviços de saúde mental do SUS mais eficientes. Com isso, esperamos que a RAPS consiga criar maior vínculo entre os cidadãos e os serviços, reduzir os níveis de abandono e agravamento dos transtornos e ofertar cuidado adequado às demandas.”  

Próximos passos 

Apesar de ter sido desenhado para atender às demandas específicas do município de Aracaju, o painel pode ser aplicado em outras cidades e contextos, sobretudo considerando que muitos dos desafios enfrentados são compartilhados entre diversas localidades. 

Daniela comenta sobre a renovação da parceria com o Instituto Cactus para continuidade do projeto em 2022, bem como a busca por mais apoiadores para levar a tecnologia a outras cinco cidades ao longo do ano. 

“Também pretendemos validar e aprimorar os indicadores a nível nacional, trabalhando em um modelo de atuação em escala, para que a gestão em saúde mental no Brasil tenha acesso a dados e a qualidade dos serviços seja pautada em indicadores”, completa a gestora. 

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