Apesar de estigmas e falta de conhecimento, saúde mental deve ser debatida nos espaços de trabalho

Uma busca rápida na internet pelos termos pandemia e saúde mental mostra efeitos da Covid-19 na sociedade que vão além das fatalidades e hospitais lotados. De acordo com a pesquisa Impacto Social do Confinamento pelo Surto de Coronavírus Covid-19 na América Latina – Brasil, cerca de 40% das 15 mil pessoas entrevistadas relataram se sentir aborrecidas ou irritadas, ansiosas ou tensas, preocupadas com diversas coisas e com dificuldade para relaxar durante vários dias em meio à pandemia. 

Alterações no apetite e no sono também foram sintomas para 30 e 34% dos entrevistados, além do fato de que quatro em cada dez relataram dificuldades para trabalhar, cuidar da casa ou relacionar-se com outras pessoas em decorrência de problemas emocionais no contexto do isolamento social. 

Os Jogos Olímpicos de Tóquio mostraram que o tema está mais em pauta do que nunca em todos os lugares. Ninguém duvida que a ginasta norte-americana Simone Biles, de 24 anos, estava extremamente preparada para suas competições. Entretanto, a atleta decidiu não participar de inúmeras finais da ginástica para se preservar fisicamente e cuidar de sua saúde mental, o que prova que as questões psicológicas não podem ser separadas do trabalho ou ocupação do indivíduo. 

De acordo com a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, 576 mil pessoas foram afastadas do mercado de trabalho em 2020 por motivo de adoecimento mental, número que representa um aumento de 26% em relação a 2019. O Fórum Econômico Mundial mostra que empresas e organizações do mundo todo perdem cerca de 2,5 trilhões de dólares em produtividade em razão de faltas no trabalho e alta rotatividade. 

Considerando esse contexto e para somar-se às discussões no âmbito do Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, o redeGIFE conversou com Maria Fernanda Quartiero, investidora social e diretora presidente do Instituto Cactus, que trabalha para a prevenção e a promoção da saúde mental no Brasil. Confira a entrevista a seguir. 

redeGIFE: A pauta da saúde mental veio para ficar ou foi mais evidenciada pela pandemia?

Maria Fernanda: É inegável que as medidas de isolamento social intensificaram o processo de adoecimento da população, mas estamos arcando com as consequências de anos de desatenção nesse campo. O debate público sobre saúde mental pode até ser atual, mas os dados alarmantes sobre sofrimentos psíquicos não são. 

Para enfrentar essa questão, agora emergencial, precisamos reconhecer que esse é um problema de saúde pública que atravessa diversas esferas da vida de um indivíduo, como a educação, a empregabilidade e o meio ambiente. Devemos aproveitar a atenção e luz que o tema recebeu e ter um olhar mais sustentável e estrutural para institucionalizar o debate sobre saúde mental no Brasil em todos os setores sociais. 

redeGIFE: Ainda existem interpretações equivocadas sobre as questões psicológicas?

Maria Fernanda: O estigma e a falta de conhecimento sobre o tema, muitas vezes, representam grandes barreiras e podem resultar em prejuízos, como a relutância em procurar ajuda profissional ou tratamento, na falta de compreensão por parte da família e amigos, menos oportunidades de trabalho, educação ou atividades sociais, dificuldade em encontrar moradia, intimidação, violência física ou assédio, falta de preparo dos cuidadores e profissionais da saúde para lidar com saúde mental, sistemas ou seguros de saúde que não cobrem adequadamente um tratamento em saúde mental e aprofundamento do sofrimento e do isolamento social. 

redeGIFE: Construções e comportamento sociais têm o poder de interferir e agravar casos de transtornos de ordem psicológica? 

Maria Fernanda: Quando pensamos em mulheres, por exemplo, um dos públicos prioritários no Instituto Cactus, percebemos que as convenções de gênero são um fator de risco para a saúde mental. Além de o público feminino apresentar maior prevalência a adoecimentos mentais, os profissionais admitem que, no geral, as mulheres silenciam nos atendimentos situações de violência que vivem, ao mesmo tempo em que intensificam a procura por serviços de saúde, sendo estereotipadas como “poliqueixosas”, o que só reforça os estigmas e tabus na busca por cuidado. Esses dados são do levantamento Caminhos em Saúde Mental que lançamos recentemente.

redeGIFE: Por que investir na saúde mental é importante não só do ponto de vista humano, mas em termos de ganhos e desempenho por parte das empresas? 

Maria Fernanda: Temos perdas em torno de 78 bilhões de dólares com a queda de produtividade no Brasil. A saúde mental está entre as três maiores causas de absenteísmo e representa de 20% a 50% das causas de turnover [taxa de rotatividade de funcionários] nas empresas. Ou seja, as pessoas produzem menos, além de faltarem ao trabalho e deixarem seus empregos por problemas de saúde mental. 

Segundo o LifeWorks Mental Health Index, 76% dos entrevistados afirmaram que ter suporte à saúde mental é um fator que pesa na decisão de deixar o emprego. Dados da OMS [Organização Mundial da Saúde] mostram que a cada um dólar investido em saúde mental são geradas economias de quatro dólares. Por fim, o Relatório de Tendências da Great Place To Work revela que a saúde mental foi citada por 38% dos 1.700 respondentes como o principal tema de gestão de pessoas para 2021. 

redeGIFE: Como as empresas podem investir mais em prevenção? 

Maria Fernanda: Antes mesmo da pandemia, as pesquisas já revelavam os principais fatores estressores no trabalho: tratamento injusto, sobrecarga, comunicação não clara, falta de suporte das lideranças e pressão de tempo descabida.

É importante, sobretudo, olhar a questão como estrutural. Não estamos falando necessariamente de investir em uma solução pontual, mas em mudar as abordagens e processos para que o tema seja incorporado de forma sustentável nas práticas organizacionais. Como podemos aumentar o senso de propósito nos times, diminuir ou redistribuir carga de trabalho, ter um ambiente seguro para falar das questões de saúde mental, rever processos e ferramentas, ter mais empatia e facilitar as conexões e o acolhimento? O papel das lideranças é fundamental no desenho dessa cultura, pois é a partir do engajamento desses atores que conseguimos institucionalizar práticas de cuidado.

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