Ciclo de Avaliação se prepara para novas agendas após um ano de atuação

Um ano de intensas trocas de experiências, debates, consultas e projeções a partir do entendimento da avaliação como meio efetivo de aprendizado para melhorar a governança e transparência.  Assim foi o Ciclo de Encontros de Avaliação 2016-2017, que construiu um legado potente e que, a partir de agora, dará mais subsídios para a continuidade da construção desta temática na Rede GIFE. Novos eventos, sistematizações, escuta ampliada e estratégias para aumentar o grupo estão no desenho das próximas ações.

Mais de 80 instituições foram envolvidas nos quatro encontros que, no total, contaram com as contribuições de mais de 20 especialistas nos 12 meses de trabalho. “Depois de várias iniciativas exitosas nos últimos anos, podemos dizer que estamos entrando em uma nova etapa de atuação, construindo uma agenda mais estruturada e permanente de iniciativas, visando avançar ainda mais concretamente no tema”, avaliou Ana Lúcia Lima, sócia-diretora da Conhecimento Social, que integra a equipe de parceiros do grupo que está à frente da organização desse processo.

A economista conta ainda que, em pesquisa com os participantes, 50% dos entrevistados responderam que o Ciclo atendeu às suas expectativas e que as mesas Avaliação e Avaliação: por um investimento social mais transformador, realizadas no 10º Congresso do GIFE, em abril deste ano, já foram “um start para essa nova sequência de ações, entendendo que a avaliação tem que funcionar antes de pensarmos um projeto, durante e depois de sua implementação.”

Aprendizados

O caminho percorrido até agora aponta que a avaliação deve ser pensada desde o desenho dos programas, considerando sua forma e mentalidade avaliativa para auxiliar na elaboração de um diagnóstico de contexto. Além disso, envolver os beneficiários, promover diálogos fecundos – capazes de engajar parceiros e facilitar a pactuação entre mantenedores e investidores – e fortalecer as decisões de governança e o compartilhamento de informações são também pontos de destaque ressaltados ao longo do processo.

“Tenho percebido avanços na discussão da temática de maneira geral nas instituições que, por exemplo, estão buscando ferramentas mais objetivas e leves, mantendo certo distanciamento do debate conceitual, não se apegando tanto às disputas semânticas da avaliação, entre outros. Já passamos da fase de que era preciso convencê-las da importância do tema, mas devemos manter essa agenda para seguirmos avançando e isso, por si só, já é um fato significativo”, pontua Daniel Brandão, sócio-fundador da Move Social, empresa responsável pela facilitação e sistematização das discussões dos encontros e pelo acompanhamento das atividades do grupo sobre o tema (os relatórios estão disponíveis ao final da matéria).

Outro obstáculo identificado por ele está no esgotamento da abordagem metodológica normalmente utilizada para tratar o tema. “Para mim, o passo seguinte é como pensar de maneira nova e a forma como estamos debatendo. A questão de inovar nesse campo dentro das instituições é central para que sua acessibilidade a um conjunto mais amplo de instituições aconteça”, pondera.

Avaliação dentro de casa

Historicamente, a Fundação Roberto Marinho, o Itaú Social e, mais recentemente, o Instituto C&A vêm, em parceria com o GIFE, realizando iniciativas com o objetivo de fortalecer uma cultura de avaliação junto aos investidores sociais privados brasileiros.

Uma das oito agendas estratégicas prioritárias para o período 2015-202o do GIFE, a avaliação é uma tendência no setor, como mostram os dados do último Censo GIFE: apenas 1% dos associados respondentes não faz avaliação para nenhum de seus programas e há vários tipos de atividades neste campo, como monitoramento ao longo do programa, avaliação de resultados, marco zero/linha base, marco de resultado/teoria de mudança/matriz de indicadores e avaliação de impacto.

73% têm orçamento alocado especificamente para esta tarefa, 55% conta com equipe interna e 60% destaca pessoas para realizarem as avaliações, 61% contrata especialistas e 53% investe em formação das equipes para esta finalidade.

“Isso significa que estamos olhando para o tema com atenção, mas as práticas ainda precisam ser fortalecidas. Quando perguntamos ‘o quão satisfeitos ou adequados são processos de avaliação na visão das instituições que estão no GIFE’, queixas como alto custo para as avaliações, excessivo comprometimento do tempo das equipes para gerenciar os processos e a baixa relevância e utilidade dos resultados obtidos nas avaliações são fatores que limitam o uso e a eficácia do tema”, ressalta Ana.

Para Daniel Brandão, as adversidades que estão instaladas nesse tripé – custo, tempo dedicação das equipes internas e conhecimento técnico sobre a matéria – não são de hoje e não necessariamente serão resolvidas de uma vez. “O momento nos convida a fazer este tipo de análise triangulada, buscando outras possibilidades e permitindo que as que já existem e estão maduras sejam estabelecidas. E qual o princípio das outras possibilidades? É o que Michael Quinn Patton chama de ‘avaliações apropriadas’, ou seja, aquelas que respondem às perguntas da melhor maneira com os recursos que existem disponíveis. Eu respeito a condição e os recursos do projeto (equipe, orçamento, tempo) para responder àquela pergunta. Às vezes, temos que abrir mão de uma precisão técnica ou rigor metodológico. Isso permite que a avaliação se torne algo muito mais útil, próximo e viável a um conjunto de gestores e lideranças do investimento social. O que a experiência tem mostrado é que as avaliações viáveis não são as mais rigorosas”, revela.

Próximos passos

A sistematização dos aprendizados do Ciclo de Encontros de 2016-2017 está disponível para download, como referência para organizações que praticam o investimento social privado, tanto para as que estão em estágios iniciais de aproximação ao tema, quanto para aquelas com maior experiência. Os links podem ser acessados no final da matéria.

Trata-se de um registro detalhado das aprendizagens construídas nos quatro encontros realizados. O material foi estruturado em etapas cronológicas: o ANTES, que discute o que compete aos gestores do investimento social privado para criar condições para avaliar, o DURANTE, focado na definição dos caminhos metodológicos mais adequados, e o DEPOIS, que aborda os desafios de comunicar e utilizar a avaliação de maneira efetiva.

A etapa final do planejamento das próximas ações ainda não acabou, mas Ana Lima adianta algumas delas. “É uma agenda ambiciosa, mas certamente relevante e oportuna, para a qual contamos com o compromisso e o entusiasmo das organizações já envolvidas e de novos parceiros que se somem a estas iniciativas.”

São elas:

  • Sistematizar e refletir sobre as três oportunidades de debate do tema da avaliação no 10º Congresso GIFE: 1) A mesa ‘Avaliação’ que fez parte da programação aberta e contou com ampla diversidade de público e de experiências compartilhadas; 2) A mesa ‘Avaliação: por um investimento social mais transformador’, com Tessie Catsambas, presidente da Associação Americana de Avaliação; 3) Sessão reservada aos principais gestores das organizações associadas ao GIFE, na qual Catsambas contribuiu provocando reflexões sobre o cenário do ISP no Brasil e a importância de apoiar-se em evidências para orientar as tomadas de decisão diante da complexidade do atual contexto;
  • Realizar escuta com associados do GIFE e outros especialistas, buscando ampliar o entendimento de necessidades e oportunidades;
  • Integrar um conjunto de eventos: um seminário internacional, em agosto, e os encontros do Ciclo 2018-2019, assegurando um fio condutor entre eles;
  • Ampliar o grupo de organizações envolvidas na promoção da agenda de avaliação junto aos associados e manter constante diálogo com os especialistas no campo da avaliação e com as organizações da sociedade civil;
  • Promover maior aproximação dos associados ao que vem sendo debatido internacionalmente no campo da avaliação, estimulando a participação em congressos internacionais, e criar espaços de repercussão dos aprendizados e tendências que estão em debate no mundo;
  • Estabelecer um diálogo com as redes temáticas e regionais do GIFE para identificar demandas específicas de cada tema no campo da avaliação, apoiando as diferentes redes em seus desafios.

Conhecimento

Ao longo dos quatro encontros do Ciclo de Avaliação foram produzidos três materiais que sistematizam as discussões dos encontros:

Avaliação para o investimento social privado: criar condições antes de avaliar

Avaliação para o investimento social privado: definir o caminho metodológico mais adequado

Avaliação para o investimento social privado: comunicar e utilizar a avaliação de maneira efetiva

Além disso, o tema foi foco de duas mesas do 10º Congresso GIFE, disponíveis na íntegra no canal do Youtube do GIFE:

Avaliação – 10º Congresso GIFE

Avaliação: por um investimento social mais transformador

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