Clima e saúde: por que as informações não são suficientes para catalisar a tomada de decisão?

O Instituto Clima e Sociedade (iCS) é uma organização filantrópica que promove prosperidade, justiça e desenvolvimento de baixo carbono no Brasil. O Instituto atua como uma ponte entre financiadores internacionais e nacionais, fomentando projetos de parceiros locais. O iCS pertence a uma ampla rede de organizações filantrópicas dedicadas à construção de soluções para a crise climática.

A conscientização dos riscos das mudanças climáticas à saúde humana só nos mostra o quanto estamos vulneráveis – social e ambientalmente – em diversos contextos e áreas. Os alarmes ecoam como um giro de 360º, resultando em impactos diretos e indiretos em nossa vida cotidiana. Essa foi a pauta do Encontro Internacional sobre Clima e Saúde, realizado no último dia 13 de setembro, em Brasília. Organizado pela parceria entre o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e a Embaixada da Alemanha, o evento reuniu aproximadamente 80 pessoas – entre profissionais, especialistas e estudantes de diferentes agendas, mas sobretudo no que tange aos cruzamentos entre vitalidade e clima, que foram os temas-chave do debate.

Prevenção é o melhor remédio

George Witschel, embaixador da Alemanha no Brasil, abriu o encontro com uma breve análise sobre a relação positiva entre política climática e saúde. “Quanto mais ambiciosos formos na condução das nossas políticas climáticas, mais poderemos reduzir implicações e os riscos para a nossa saúde. Se conseguirmos reduzir nossas emissões, poderemos economizar custos elevados para os sistemas de saúde”, disse ele, pontuando que o Acordo de Paris talvez não se trate apenas de uma negociação climática, mas – sim – de um dos maiores acordos globais em prol da saúde pública.

Ainda sobre os desafios propostos na interseccionalidade das agendas de clima e saúde, Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), fez um alerta à gravidade do cenário que estamos vivendo. “Quantas novas doenças vão surgir, quantas vidas vamos perder, quantas pessoas terão problemas de pulmão, de locomoção por conta das mudanças climáticas? Há um lado de pessimismo, no qual podemos contar todos os horrores que vão acontecer devido às alterações do clima. Entretanto, acho que nesse evento podemos olhar de forma um pouco mais positiva e construtiva para o que essas duas comunidades têm em comum. A comunidade de saúde olha a prevenção como pilar mais importante. Já na comunidade de clima, a precaução é o pilar para precaver, mitigar e não chegarmos a 2°C ou 1,5°C”, destacou Ana, citando a poetiza Kathy Jetñil-Kijiner – autora do poema 2 Degrees.

Transformações climáticas com consequências (diretas e indiretas)

A programação do evento trouxe realidades da perspectiva internacional e brasileira sobre os impactos cada vez mais visíveis das mudanças climáticas na saúde. Entre as apresentações, destacamos o panorama da professora Helen Gurgel, coordenadora do Laboratório de Geografia, Ambiente e Saúde da Universidade de Brasília (UnB). Além de pontuar as consequências negativas – como as transformações nos padrões das chuvas, dos eventos extremos climáticos, do nível do mar e da acidificação dos oceanos, a palestrante trouxe a divisão do último Intergovernmntal Panel on Climate Change (IPCC), que dividiu os efeitos entre diretos (tempestades, secas, inundações e ondas de calor), indiretos (qualidade da água, poluição do ar e mudanças ecológicas) e as dinâmicas sociais como os três eixos que incidem diretamente na saúde humana.

É preciso, porém, ter uma visão sistêmica sobre os mecanismos de impactos das mudanças climáticas sobre a infraestrutura e bem-estar das populações. A complexidade envolve perturbações sociais e econômicas que se desdobram em inúmeras patologias – entre elas as doenças mentais. “Na sociedade na qual vivemos hoje, sentimos a necessidade de discutirmos sobre isso, as doenças mentais, e quando voltamos à questão dos eventos extremos, elas ficam cada vez mais exacerbadas, pois geram distúrbios psicológicos (além dos respiratórios, doenças infecciosas e atreladas ao calor e às catástrofes naturais).

Apesar de um dia extenso de debates, trocas e muitos dados para analisar, o teor do debate permanece inesgotável. Afinal, como bem argumentou a médica Tatiana Marrufo, coordenadora do Programa Estratégico de Saúde e Ambiente do Instituto Nacional de Saúde de Moçambique, esses conjuntos de reflexões englobam uma infinidade transformações socioeconômicas e demográficas, urbanização e movimentos migratórios. Entretanto, a pesquisadora pontuou que “a simples disponibilidade de informação não é suficiente para catalisar a tomada de decisões” diante da gravidade de tantos problemas apresentados. Precisamos  EXIGIR uma mudança de paradigma na promoção da saúde. O que só é possível por meio da construção coletiva de uma consciência política e social sobre cada um desses impactos alarmantes, independentemente da localização geográfica.

Para rever todas as apresentações na íntegra, assista aqui ao vídeo do Encontro Internacional sobre Clima e Saúde – o quinto da série Diálogos Futuro Sustentável. Em breve, também lançaremos uma websérie inédita com mais conteúdos produzidos com os palestrantes do evento, onde apresentaremos diferentes facetas e percepções dos diálogos entre clima e saúde. Aguardem!

Material produzido pelo Instituto Clima e Sociedade

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