Com cortes orçamentários e desvalorização profissional, Brasil vê cientistas partirem

As áreas de ciência e tecnologia têm sofrido com a redução de investimentos no Brasil, o que resultou em um fenômeno chamado de “fuga de cérebros”, que se refere à saída de cientistas e pesquisadores do país rumo a nações em que encontrem apoio a seus trabalhos. Essa perda intelectual coincide com o encolhimento do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, que reduziu quase metade dos recursos de 2015 até os dias atuais.

Em abril, o ministro Marcos Pontes, durante uma live no Instagram, chegou a utilizar a palavra “estrago” para se referir ao corte orçamentário de 2021. “É chato falar isso, mas é fato porque tem certos tipos de projeto que, sem orçamento, eles têm um hiato e esse hiato mata o projeto. Pesquisa não é uma coisa que você pode ligar e desligar a chave assim, de uma hora para a outra. Isso não existe”, expressou. Neste ano, R$ 371 milhões foram cortados da pasta.

No mais recente Índice Global de Competitividade de Talentos, o Brasil perdeu 25 posições de 2019 para 2020, passando do 45º lugar para o 70º. Entre as localidades que mais atraem talentos, o país caiu 28 posições nos últimos quatro anos, indo de  77º para 105º. Suíça, Estados Unidos e Singapura ocupam o pódio no quesito competitividade. A edição 2020 do ranking analisou 133 nações.

Já o relatório A corrida contra o tempo por um desenvolvimento mais inteligente, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), publicado a cada cinco anos, apresenta um capítulo específico sobre o Brasil e elenca alguns dos desafios e tendências em investimento em pesquisa e desenvolvimento nos últimos anos. No mundo, os investimentos com ciência aumentaram 19% entre os anos de 2014 e 2018, assim como o número de profissionais da área, 13,7%. 

Salta aos olhos, no levantamento, que EUA e China concentram quase dois terços dos investimentos na ciência, com 63%, enquanto quatro em cada cinco países destinam menos de 1% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para pesquisas. No caso do Brasil, apenas 1,15% do PIB é reservado para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

O desengajamento do Governo federal com a ciência 

Primeira instituição privada e sem fins lucrativos de fomento à ciência no Brasil, o Instituto Serrapilheira já apoiou mais de 120 projetos de pesquisa e 55 de divulgação científica. Hugo Aguilaniu, diretor-presidente da organização, avalia que a política do governo atual é extremamente deletéria em relação à produção de conhecimento e a ciência não é exceção.

“O desengajamento do governo com a ciência é trágico e acabou aumentando a nossa visibilidade [dos cientistas] de uma forma ruim. Queríamos ser visíveis junto com a ciência de qualidade, não com um governo negacionista. A pandemia levou a ciência ao centro do debate público e resta ver quanto tempo isso vai durar.” 

O estudo da UNESCO reconhece que a comunidade científica nacional registrou uma série de conquistas nos últimos cinco anos. Por exemplo, se mobilizou rapidamente durante o surto do vírus Zika, entre 2015 e 2018, e durante a pandemia da Covid-19. “Os centros de inovação tecnológica dentro das universidades têm prosperado, principalmente no que diz respeito ao depósito de patentes, à colaboração com a indústria e à incubação de startups inovadoras”, contextualiza.

Apesar do esforço da classe, a agência das Nações Unidas aponta que vários indicadores colocam, em alerta, o sistema nacional de inovação: o investimento empresarial caiu, assim como a parcela dedicada a P&D e empresas têm registrado um menor número de patentes. “Paralelamente, os órgãos federais de pesquisa registraram uma queda acentuada em seus gastos orçamentários”, destaca Hugo.

Em análise para a Agência Bori, Vanderlan S. Bolzani, assessora do Conselho Administrativo do Instituto Serrapilheira, diz que é essencial ampliar os canais de diálogo entre governo, empresas, instituições de pesquisa e agências operacionais, na busca de uma visão comum que assegure a ciência, tecnologia e inovação como instrumentos vitais para o desenvolvimento humano.

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