Como a pandemia do novo coronavírus influencia outras enfermidades

Segundo o Monitor das Doações, da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), 78% dos mais de R$ 6 bilhões doados para combater os efeitos da pandemia de Covid-19 no Brasil vão diretamente para o setor da saúde. A crise sanitária acendeu e intensificou um alerta sobre a necessidade de voltar os olhares para o sistema de saúde brasileiro, sobretudo o Sistema Único de Saúde (SUS), responsável por grande parte da atenção à saúde no país. 

Entretanto, a falta de orientações claras por parte do poder público e de condições para um efetivo distanciamento social e a insistência do governo federal em negar ou minimizar a doença, sugerindo o uso de um medicamento cuja ineficácia já foi cientificamente comprovada são algumas das razões para que o país ainda apresente um elevado número diário de novos casos e média de mais de mil óbitos por dia. 

Com a persistência de contaminação e de óbitos pela doença, se mantém também a demanda por recursos para financiar a compra de aparelhos hospitalares e equipamentos de proteção individual, o recrutamento de mais médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde, assim como para outras ações de combate às consequências da doença, que extrapolam a área da saúde. 

Por isso, muitos especialistas, atores e investidores da área estão discutindo qual será o futuro do sistema de saúde brasileiro no pós-pandemia. Muitas questões se colocam nessa reflexão, como se existirá um legado das articulações realizadas pelo investimento social privado, organizações da sociedade civil, poder público e empresas para combater a pandemia. O alto engajamento registrado pelo Monitor das Doações pode deixar frutos no sentido de fortalecer a cultura de doação no Brasil, sobretudo na área sanitária? Quais serão os desafios daqui para frente? 

A influência da Covid-19 sobre a saúde e como serão os desdobramentos sociais da crise sanitária foram temas debatidos durante um encontro virtual da Rede Temática de Saúde, do GIFE, realizado no dia 21 de julho. Thais Junqueira, superintendente de projetos da Associação Samaritano, uma das organizações que integra a coordenação da RT, afirma que o diálogo e a articulação intensa durante a pandemia são conquistas a serem mantidas, uma vez que foram esses movimentos que garantiram soluções imediatas a inúmeros desafios que não seriam solucionados de forma eficiente por nenhuma das partes atuando de forma isolada. 

“O aperfeiçoamento dessa atuação é promissor, mas depende muito do entendimento de novos caminhos comuns, além do fortalecimento da cultura de doação, de fomento e de valorização do sistema de saúde pública para além dos momentos de crise”, reforça. 

Articulações: possível legado da pandemia 

É inegável que a pandemia do novo coronavírus representa uma tragédia. Segundo o monitor da Johns Hopkins University, mais de 630 mil vidas foram perdidas por conta do novo vírus, sem contar um amplo leque de consequências trazidas por essa crise global. 

Com a comunidade científica mobilizada na corrida por uma vacina – atualmente são 136 em estudo -, outros especialistas ligados à área da saúde discutem como o novo vírus e todos os seus desdobramentos, como os próprios avanços na ciência, obtidos em tempo recorde na história da humanidade, contribuirão para moldar o mundo daqui para frente. 

Para Marcia Kalvon Woods, da Fundação José Luiz Egydio Setubal e do conselho da ABCR, as articulações realizadas em torno da resposta à emergência são ativos muito importantes que não podem se perder nos meses que virão. Além disso, a especialista mencionou que as articulações recém-criadas em resposta à crise podem, no futuro, endereçar o desafio do subfinanciamento do SUS, uma vez que os recursos doados para a emergência estão indo, em grande parte, para o combate imediato à doença, como compra de equipamentos, e não tanto para melhoria de infraestrutura, que ainda continuará a apresentar problemas. 

“Dentro desses espaços de articulação, estamos olhando para a possibilidade de, no futuro, transferir toda essa competência e capacidade construída em face da Covid para olhar para questões mais estruturais ou outras demandas que vão surgir da sociedade?”, questionou Marcia durante o evento. 

Para Thais, foi interessante notar como cada tipo de organização utilizou de suas potencialidades e expertises prévias para atuar no combate à pandemia. Segundo a superintendente, a grande concentração e destinação do recurso doado para insumos e equipamentos decorreu tanto das demandas mais imediatas impostas pela pandemia, quanto pela presença de muitas instituições reconhecidas na área hospitalar. 

Entretanto, para reforçar o investimento em infraestrutura de saúde, explica, é necessário planejar formas de aproveitar os ‘legados’ da pandemia, além de reconhecer que a infraestrutura de saúde vai além dos hospitais, respiradores e ambulâncias. 

“O sistema sofrerá mudanças daqui em diante que são inerentes a um momento pós-pandemia. Apesar de todas as disputas políticas, o SUS – referência como sistema público de saúde e um marco civilizatório para nós brasileiros – teve sua fortaleza evidenciada. Nesse contexto, a atenção primária e secundária em saúde precisam ser fortalecidas e utilizadas de forma mais estratégica. A abrangência territorial do sistema e a disponibilidade de recursos humanos representam potencial para evitar riscos de colapso no sistema de saúde e para uma boa reorganização do sistema daqui em diante para lidar com o pós-pandemia.” 

O impacto da Covid-19 em outros temas da saúde 

Durante o evento online, o Dr. Lucas Machado, da Beneficência Portuguesa, fez uma apresentação sobre os impactos adjacentes para o setor causados pelo novo coronavírus. Segundo o especialista, são quatro as ondas de impacto. A primeira delas corresponde à mortalidade e morbidade da própria Covid-19. A segunda são os impactos das outras condições clínicas que ficaram mal acompanhadas em função do novo vírus. A terceira corresponde à introdução de cuidado com doenças crônicas e, finalmente, a quarta onda são os traumas psiquiátricos, doenças mentais, impactos econômicos e a síndrome de burnout – esgotamento físico e psicológico devido ao trabalho excessivo – ocasionados pela crise. 

Sobre as doenças que ficaram desacompanhadas em razão da Covid. Lucas cita um artigo do New England Journal of Medicine, que nomeia as doenças “escondidas” e “deferidas”, nomenclaturas que demonstram, em linhas gerais, que em razão da circulação do vírus, ocorre uma predisposição à piora do quadro clínico de pacientes com, por exemplo, doença renal crônica, diabetes, hipertensão, além de pessoas com condições sérias que necessitam de acompanhamento médico regular não procurarem consultórios por medo de sair de casa e se infectar. 

Segundo Thais, diversas pesquisas sobre Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs) indicam acúmulo de impactos negativos ao longo do tempo, o que afeta a qualidade de vida da população com esse tipo de enfermidade, assim como sobrecarrega o sistema de saúde. Nesse sentido, a superintendente afirma que uma das discussões que têm sido realizadas é sobre como utilizar o potencial de tecnologias para o atendimento e acompanhamento de pacientes remotamente, sem exacerbar desigualdades de acesso já existentes no sistema de saúde.

O efeito do novo coronavírus em territórios vulneráveis 

Vale ressaltar, entretanto, que essa não é uma realidade para grande parte da população brasileira. Em muitos casos, pessoas em situação de alta vulnerabilidade social não têm acesso ao sistema de telemedicina que, segundo Lucas, ajuda alguns encaminhamentos, mas não substitui o contato presencial no consultório. A esse cenário, somam-se pessoas em situações ainda mais precarizadas, como aquelas que devem procurar abrigos. Como incentivar o distanciamento social nesses casos?, questiona o médico. 

Ana Leite, da organização Parceiros da Educação, endereçou a temática da Covid-19 em territórios periféricos ao abordar um projeto social desenvolvido em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, criado a partir da motivação de um líder comunitário. Ana comentou sobre a parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, inclusive com apoio do secretário Rossieli Soares da Silva, para mobilização de duas escolas para servirem como alojamentos para moradores da comunidade. 

Além disso, o projeto recebeu doação de R$ 3 milhões por pessoas que já eram apoiadoras da organização, além do apoio de associações e hospitais privados. Para a especialista, vários agravantes contribuíram para que o vírus se espalhasse rapidamente na comunidade, como a maior incidência de comorbidades, devido à falta de saneamento básico na região, por exemplo, e a falta de educação formal, que ocasiona situações como aquela em que a pessoa sabe que tem diabetes e tem o medicamento disponível no SUS, mas não toma por falta de instrução. 

Entretanto, ela pontua que essa iniciativa e uma série de outras ações ajudaram a conter o vírus na comunidade. “Os agentes comunitários de saúde se replicaram e formaram ‘chefes’ de cada viela, que são pessoas moradoras da região e com a linguagem local. Cada um ficou responsável por coisa de 50 famílias. Cada família tinha que se cadastrar e, caso o fizesse, recebia uma cesta básica. Então, nesses lugares onde as pessoas são invisíveis para o Estado e para o SUS, se conseguiu chegar nelas”, exemplifica.  

A íntegra do encontro está disponível neste link

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