Comunicação, inovação e conexão com o contexto de país devem estar no foco do investimento social privado, aponta Neca Setubal

De que modo preservar conquistas acumuladas e valores tais como democracia e liberdades; equidade e diversidade; e sustentabilidade e bem-estar coletivo, renovando pautas e práticas para superar limites e produzir novos avanços em cada um deles? Como extrair o máximo das novas tecnologias e inovações organizacionais possíveis nos governos, na sociedade e no setor privado, de maneira a caminhar na direção desses objetivos, promovendo transparência e participação em lugar de controle e centralização, prosperidade compartilhada em lugar de novas desigualdades, ampliação de oportunidades em lugar de crise do trabalho, sustentabilidade ambiental e econômica em lugar de degradação e frustração? E quais são os papéis, chamados e oportunidades para a filantropia e o investimento social privado diante dessas questões?

No ano em que o GIFE completa 25 anos, o 11º Congresso GIFE buscará somar respostas para essas perguntas. O evento acontece de 20 a 22 de maio, em São Paulo. O tema dessa edição, “Fronteiras da Ação Coletiva”, visa colocar no centro do debate as agendas e horizontes para a produção de inovação positiva na filantropia e na construção pública no Brasil, que fronteiras devem ser ultrapassadas e os desafios envolvidos nesse processo. 

Para dar início a algumas dessas reflexões, o redeGIFE conversou com Neca Setubal, presidente do Conselho de Governança do GIFE. Confira a seguir a entrevista na íntegra.

 

redeGIFE: O 11º Congresso acontece no contexto dos 25 anos do GIFE. Em sua avaliação, o que avançou e quais foram os principais desafios enfrentados ao longo desse período? E que oportunidades estão projetadas para o próximo?

Neca Setubal: Houve uma série de iniciativas ao longo dos últimos anos que ampliaram o escopo do investimento social privado. Por exemplo, o Censo GIFE já mostrou que houve um aumento de grantmaking, o que eu vejo como muito positivo. Estamos vendo também um interesse, ainda que inicial, por novas temáticas, como questões de raça e gênero, mudanças climáticas, entre outras.

redeGIFE: José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE, reflete sobre a necessidade de um reposicionamento do setor com o objetivo de preservar a trajetória do país de prática democrática e adensamento do espaço cidadão. Como você vê esse reposicionamento e a conexão disso com modos de atuação, diversificação e ganho de capacidades para enfrentar os problemas complexos pautados, por exemplo, pela agenda de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, os ODS?

Neca: Existe um grupo de fundações bastante preocupado com as questões ligadas a democracia e outros diversos grupos em avaliar o próprio processo, tanto na área da educação, que ainda é a principal do setor, quanto em outros temas. São instituições interessadas em entender o que fizemos e para onde vamos com a expectativa de mapear outras oportunidades e conversar com um público mais amplo. Em relação aos ODS, me parece que essa é uma agenda com a qual precisamos ampliar uma conexão, que ainda é maior com o setor empresarial.

redeGIFE: Vivemos um cenário de desafios globais e complexos. Um deles diz respeito à crise climática, um tema urgente que tem sido amplamente pautado pelos principais organismos internacionais e organizações do mundo todo. Pensando no tema geral do 11º Congresso GIFE, – Fronteiras da Ação Coletiva, e também em iniciativas do GIFE como a série “O que o ISP pode fazer por…?”, como você avalia as oportunidades e desafios para o setor do investimento social privado e da filantropia no próximo período? Que medidas precisam ser adotadas e que recomendações você apontaria aos institutos, fundações e empresas?

Neca: Nesse processo de autoavaliação que muitos institutos e fundações estão empreendendo precisa entrar a questão contextual. Eu tenho falado que ao lado das causas, que, é claro, são importantes, é cada vez mais fundamental olhar para o contexto e ver as reais prioridades, buscando aliados e parceiros. Com um recurso restrito, o impacto de ações isoladas é muito menor, o que torna cada vez mais fundamental pensarmos nessa ação coletiva conectada com os desafios reais da nossa atualidade.

redeGIFE: Falando especificamente sobre desigualdades, o mais recente relatório da Oxfam aponta para dados como: os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas (60% da população mundial). Os 22 homens mais ricos do mundo têm mais riqueza do que todas as mulheres da África. Mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado – uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global – mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo. Como o tema do Congresso conversa com essa realidade?

Neca: Esse é o tema da Fundação Tide Setubal e eu, pessoalmente, o tenho enfatizado muito. A boa notícia é que esse assunto entrou na agenda de muitos economistas que antes lidavam apenas com a questão da pobreza, que, obviamente, é fundamental também, mas, em um país como o Brasil, vem acendendo as luzes vermelhas de todos os lados. E o investimento social privado tem um papel fundamental de trazer esse olhar porque a desigualdade do país tem levado ao esgarçamento do tecido social e a um cenário de falta de confiança nas instituições e a níveis extremos de insatisfação, ressentimentos e respostas violentas como a que vimos no Chile recentemente. Trata-se de uma questão urgente.

redeGIFE: O tema da inovação, muito presente na construção da 11ª edição do Congresso GIFE, traz uma perspectiva de debates em torno das agendas e horizontes para a produção de inovação positiva na filantropia e na construção pública no Brasil. Em sua opinião, como essa pauta deve se relacionar com temas como comunicação, engajamento e mobilização?

Neca: O setor do investimento social privado começou tardiamente a entender a importância da comunicação. No último Congresso GIFE houve um espaço grande para esse debate, quando, inclusive, nasceu a Narrativas, uma rede de comunicadores de instituições do setor, com a qual recentemente realizamos um debate na Fundação Tide Setubal. Foi uma manhã de conversas muito interessantes com várias organizações de diferentes perfis e espectros políticos para pensar as nossas comunicações olhando para a atual realidade e em como ampliar esse grupo e furar nossas bolhas. Esse é um tema fundamental no qual estamos muito atrasados e precisamos avançar. Inovação é outro tema fundamental e, de alguma forma, nos últimos anos, o ISP deixou de ser tão inovador. Talvez porque se acomodou ou ficou muito conectado com algumas políticas públicas e deixou de lado esse papel. Outro motivo pode ser o fato de as grandes fundações terem se distanciado das organizações de base porque passaram a ter equipes cada vez maiores e a desenvolver seus próprios projetos. Quem está na ponta é quem pode trazer muito mais inovação por estarem mais próximas da realidade dos problemas e, assim, pensar em  soluções mais adequadas e inovadoras.

As inscrições para o 11º Congresso GIFE podem ser realizadas no site do evento, que conta com valores diferenciados para associados GIFE. Todos os valores estão disponíveis neste link, com informações referentes a descontos para grupos e credenciamento de imprensa.

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