Dia de Doar tem como intencionalidade o fomento à cultura de doação e o fortalecimento das organizações da sociedade civil

Neste ano, o Dia de Doar acontece em 27 de novembro. A expectativa é que nesse dia milhares de organizações da sociedade da civil (OSCs) estejam preparadas para receber doações e milhões de brasileiros se mobilizem para apoiá-las.

A ação, que começou nos Estados Unidos em 2012, foi realizada no Brasil pela primeira vez em 2013 e hoje é uma campanha mundial com mais de 35 países participantes.

Nos outros países, a iniciativa tem o nome de Giving Tuesday (Terça-feira da Doação, em português) e ocorre após o Thanks Giving (Dia de Ação de Graças) dos Estados Unidos, em resposta ao alto grau de consumo incrementado por datas como Black Friday e Cyber Monday. Trata-se uma terça-feira de mobilização por um mundo mais generoso e solidário.

João Paulo Vergueiro, diretor executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), uma das organizações que constroem a campanha no Brasil, aponta a intenção do Dia de Doar com a promoção de uma cultura de doação no Brasil.

“O Dia de Doar existe dentro de uma expectativa de que a sociedade se mobilize para financiar as causas que defende, que o apoio vá além das redes sociais e se efetive com a doação para as organizações que representam aquilo que nós defendemos. Por isso, nós queremos convocar as pessoas a identificarem essas causas e organizações. Precisamos que essa ação de doar para as organizações da sociedade civil se torne um hábito. É um grande movimento para desenvolver uma doação rotineira.”

O Dia de Doar tem estimulado a participação de pessoas, organizações e empresas, que têm criado suas próprias campanhas de captação de recursos sob o mote da ação. Só no ano passado, a versão brasileira impactou 16,8 milhões de pessoas e teve mais de 200 ações cadastradas por organizações da sociedade civil. Este ano, a meta é impactar ainda mais pessoas.

João Paulo observa que um movimento que tem crescido muito nos últimos anos são as campanhas comunitárias realizadas pelas cidades. “Começou com Limeira e Sorocaba e já se espalhou para o país inteiro, chegando em Mogi, Gramado, Maringá, Curitiba, Caicó, Natal, Piracicaba, São José dos Campos e outras cidades. Várias delas, inclusive, já aprovaram lei formalizando a realização municipal do Dia de Doar”, conta.

O Dia de Doar no Brasil é marcado pelo protagonismo das organizações da sociedade civil. A ideia é que toda a mobilização envolvendo os diferentes atores da sociedade seja direcionada ao fortalecimento dessas organizações, que assumem o papel de principais catalisadoras da ação.

Em 2016, havia 820 mil organizações da sociedade civil ativas no Brasil. Todos os 5.570 municípios do país possuíam pelo menos uma organização. Os dados são do “Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil”.

 

Cultura de doação e sustentabilidade das OSCs

De acordo com a “Pesquisa Doação Brasil”, realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), a destinação de recursos de pessoas físicas a organizações da sociedade civil totalizou R$ 13,7 bilhões em 2015, apenas 0,23% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. O número é relevante, porém discreto se comparado a outros países, como os Estados Unidos, onde os cidadãos doaram, no mesmo ano, R$ 1 trilhão a organizações do campo.

O estudo identificou que os brasileiros são motivados a doar por um sentimento de solidariedade, ou seja, veem a doação como uma forma de contribuir com o próximo. Ao contrário do que ocorre em outros países, em que as pessoas acreditam em determinadas causas ou transformações que querem produzir na sociedade e enxergam a doação como instrumento de cidadania.

Na última edição do “World Giving Index, recém lançada, o Brasil teve o pior desempenho já registrado. O país saiu da posição de número 75 e foi para o 122º lugar no ranking geral. Foram entrevistadas mais de 150 mil pessoas em 146 países.

Conhecido como ranking global de solidariedade, o estudo é produzido pela Charities Aid Foundation (CAF) – instituição com sede no Reino Unido representada no Brasil pelo IDIS. O levantamento registra o número de pessoas que, no mês anterior à consulta, doaram dinheiro para uma organização da sociedade civil, ajudaram um estranho ou fizeram trabalho voluntário. No Brasil, houve queda nos três comportamentos.

Para a diretora presidente do IDIS, Paula Fabiani, a recessão econômica dos últimos anos fortaleceu o individualismo na sociedade, fazendo com que as pessoas se preocupem mais em se proteger, deixando um pouco de lado os comportamentos solidários. “O relatório mostra que voltamos a níveis muito baixos de solidariedade, ao contrário dos últimos dois anos, quando cresceu a proporção de pessoas que ajudaram um estranho, fizeram trabalho voluntário ou doaram dinheiro. Isso indica que ainda não temos uma cultura de doação madura e estabelecida”, observa.

A pesquisa Perfil das Organizações da Sociedade Civil no Brasil revela que a transferência de recursos da União para as OSCs entre 2014 e 2016 passou de R$ 12,1 bilhões para R$ 2,3 bilhões, uma queda de mais de 80%.

O financiamento estrangeiro também diminuiu. Dados do Banco Central obtidos pela Coordenadoria de Pesquisa Jurídica e Aplicada (CPJA) da FGV DIREITO SP com base na Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam que as operações de câmbio para remessa de doações a instituições privadas sem fins lucrativos somaram US$ 82,9 milhões em 2013. Esse número começou a cair em 2014, quando foi de US$ 67,1 milhões – queda de quase 20% -, até chegar, em 2016, a US$ 50,8 milhões – queda de quase 40% em relação a 2014.

Nem mesmo o Investimento Social Privado (IPS) passou imune a esse cenário de retrocesso. O total de recursos doados pelos institutos, fundações e empresas associados ao GIFE para terceiros passou de R$ 895 milhões, em 2014, para R$ 595 milhões, em 2016, uma redução de mais de 30%. O investimento total do setor, incluindo programas e ações próprias, caiu 16% em 2016 em comparação com o ano anterior. O dado de 2016, de R$ 2,9 bilhões, é o menor da série desde 2009. Os números são do “Censo GIFE 2016”.

Eduardo afirma que três quartos da população declara que faz doações com algum tipo de regularidade, mas na maioria das vezes, essa doação não é institucionalizada e, sobretudo, não é estratégica, ou seja, não está necessariamente vinculada aos problemas da comunidade em que está inserido o doador. “Talvez esse recurso possa ser melhor otimizado à medida que a gente crie uma cultura de doação mais estratégica entre nós”, defende.

Reflexos do Dia de Doar

Diversas instituições e coletivos têm se juntado ao Dia de Doar por meio de ações próprias.

Uma dessas ações é a Campanha Abrace o Programa de Bolsas Insper, uma parceria entre o Programa de Bolsas do Insper e a campanha Abrace o Brasil, promovida pela BrazilFoundation. Criado em 2004, o programa já apoiou mais de 500 alunos, permitindo que jovens com potencial acadêmico consigam estudar no Insper independentemente de sua condição econômica.

As doações não têm restrição de valor e podem ser feitas pelo site da campanha até dia 27 de novembro. A expectativa é arrecadar 300 mil reais.

“Estamos conseguindo levar a importância da cultura de doação para dentro da escola, mostrando que todos podem fazer parte dessa transformação de dar a jovens talentos acesso ao ensino superior. Não importa o valor, um pequeno gesto pode fazer a diferença”, destaca Carolina Velasco, gerente de relacionamento institucional do Insper.

Campanha “Se liga, ONGs!”

Também pensando em contribuir com a grande mobilização em torno do Dia de Doar conectando doadores a organizações da sociedade civil e suas causas, no dia 15 de junho deste ano, o IDIS lançou a mobilização ‘Se Liga!’, convocando as organizações da sociedade civil para atualizarem suas informações no Mapa das Organizações da Sociedade Civil.

A ferramenta foi escolhida por ser referência para quem busca conhecer melhor as 820 mil OSCs espalhadas pelo Brasil. A plataforma deve ser atualizada pelas próprias organizações com informações sobre projetos, certificações, ano de criação, formas de contato e áreas em que atuam.

Desde o dia em que a mobilização começou, os acessos ao cadastro no Mapa aumentaram em 58%.

Como parte da ação, o IDIS também orienta que as OSCs atualizem seus sites da maneira mais objetiva possível com informações sobre suas causas, o que fazem, que resultados alcançaram até o momento e orientações para interessados em doar.

Como participar

Qualquer pessoa, grupo, empresa ou coletivo pode participar do Dia de Doar. No site da campanha, é possível encontrar orientações detalhadas de como cada um pode se envolver.

“O Dia de Doar é um grande movimento, não é uma campanha centralizada. A gente faz uma proposta de identidade, logo, materiais, etc., mas cada um usa a campanha à sua maneira, desde que promovendo a solidariedade e, de preferência, tornando público um gesto de doação no dia 27 de novembro e usando a hashtag #diadedoar nas mídias sociais para inspirar outras pessoas”, explica João Paulo.

Às pessoas físicas, recomenda-se buscar alguma organização participante da iniciativa cadastrada no site da campanha. Os cidadãos também podem apoiar a divulgação da ação compartilhando a hashtag #diadedoar em suas redes sociais.

Às empresas, a campanha orienta que se cadastrem no site do movimento e potencializem suas ações direcionando doações de funcionários a alguma organização. Outra ideia é liberar os colaboradores de algumas horas da jornada de trabalho para ações de voluntariado.

Para quem deseja apoiar a divulgação da iniciativa, a campanha oferece uma série de materiais (vídeos, cartazes, imagens, posts para redes sociais) que podem ser baixados no site. Os materiais são todos gratuitos e a ideia é estimular o maior número possível de pessoas e organizações a promoverem ações próprias.

No sentido de inspirar pessoas a participarem da campanha, a ABCR está lançando hoje a campanha “Minha História de Doação”. O objetivo da iniciativa é estimular as pessoas a contarem suas histórias e inspirarem outras a doar. Mais informações podem ser encontradas no link da ação.

“Em um momento como o atual de forte polarização, o Dia de Doar se torna ainda mais importante porque é muito comum as pessoas reclamarem, estarem desgostosas, e uma forma de se manifestar quanto a isso é apoiar as organizações que defendem o que elas acreditam, de preferência financiando-as para que sejam capazes de gerar mais impacto e transformação social”, defende João Paulo.

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