Dia Internacional da Mulher dá luz a múltiplas iniciativas pela equidade e contra a violência

Há décadas o Dia Internacional da Mulher é o mote de ações diversas de combate à violência, luta por direitos e equidade e empoderamento feminino. Poder público, institutos, fundações, empresas e organizações da sociedade civil aproveitam a data para lançar campanhas e realizar ações e projetos.

O tema da ONU Mulheres para este ano é “Pensemos em igualdade, construção com inteligência e inovação para a mudança”. O foco nas formas inovadoras para a defesa da igualdade de gênero e empoderamento das mulheres também pautará a 63ª Sessão da Comissão da ONU sobre a Situação das Mulheres (CSW63), que acontecerá de 11 a 22 de março, em Nova Iorque e tem como tema prioritário acesso aos serviços públicos, sistemas de proteção e infraestrutura sustentável, chamando atenção para a situação de mulheres e meninas nessas áreas e o que precisa mudar para que elas tenham seus direitos humanos assegurados e sejam beneficiadas pelos esforços do desenvolvimento sustentável.

Segundo Ana Carolina Querino, representante interina da ONU Mulheres, o tema está alinhado ainda à implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e à Plataforma de Ação de Pequim, que em 2020 completará 25 anos de adoção e cujo processo de revisão e celebração já se iniciou no final do ano passado. “A motivação da ONU Mulheres é compartilhar com governos, movimento de mulheres e feministas, especialistas, empresas e sociedade em geral que é preciso pensar e estabelecer estratégias para a igualdade de gênero e empoderamento das mulheres numa lógica inovadora em que as diferentes inteligências estejam voltadas para transformações nas condições de vida de mulheres e meninas que precisam acontecer com base na sustentabilidade. Isso significa inovar e fazer diferente.”

Ao longo do mês de março, a ONU Mulheres tem em sua agenda uma série de eventos nacionais e internacionais. A programação no Brasil pode ser acompanhada nas redes sociais e no site da ONU Mulheres Brasil. Serão divulgadas também as movimentações na CSW63, que reunirá delegações do mundo todo em torno dos debates sobre a situação das mulheres.

Em relação à Agenda 2030, as atividades são contínuas. Ana Carolina explica que uma das formas de participação é o engajamento em campanhas, mobilizações e movimentos como a UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres ou o ElesPorElas. “Outra forma de se engajar é implementar e/ou apoiar a disseminação de atividades e campanhas desenhadas a partir da reflexão de como cada setor pode contribuir de forma inovadora para a construção de um mundo com igualdade de oportunidades entre homens e mulheres em sua diversidade”, afirma.

Empreendedorismo, saúde e segurança

Outro aspecto explorado por organizações, movimentos e coletivos na busca por equidade de gênero passa pela perspectiva econômica. Pesquisa realizada pelo Instituto Avon junto à Oxford Economics demonstra que metade das mulheres ainda não se sentem encorajadas a empreender. Esse dado sustenta as projeções de que o potencial econômico das mulheres está sendo limitado em até 50%, criando uma perda potencial para o Produto Interno Bruto (PIB) global anual de 12 a 18 trilhões de dólares por ano.

Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon, defende que os benefícios da inclusão da mulher no mercado de trabalho e renda em bases equitativas vão além dos econômicos. “77% das mulheres afirmam que trabalhar aumenta sua confiança, por exemplo. Além disso, 65% das mulheres dizem que o trabalho melhorou a forma como são tratadas pelos outros e 74% delas dizem que o trabalho aumentou sua capacidade de ser um modelo para os filhos.”

Frente a esse cenário, o Instituto Avon lança no Dia Internacional da Mulher uma ação global para enfrentar algumas das maiores barreiras que impedem as mulheres de atingir seu pleno potencial. O #Stand4Her, ou #PorEla, tem como motivação transformar a vida de cem milhões de mulheres por ano no mundo para que conquistem seu próprio caminho com saúde e segurança. A ação atuará em três pilares: defender que as mulheres tenham liberdade para trabalhar em seus próprios termos e do seu jeito, defender o poder da beleza como impulsionador da liberdade de expressão e defender o direito a uma vida segura e saudável.

Daniela ressalta que a ampliação do trabalho do Instituto no enfrentamento das violências contra as mulheres e meninas e também no combate ao câncer de mama dialoga especialmente com esse último. “A violência é uma epidemia que impede o desenvolvimento de mulheres e gera um custo para a economia estimado em 4,4 trilhões de dólares por ano, correspondendo a 5,2% do PIB global”, observa a diretora.

Novos feminismos

O elemento da inovação tem feito com que a pauta da defesa de direitos das mulheres ganhe novos contornos na atualidade. Novos coletivos e movimentos surgem todos os dias em formatos e ações diversas.

É o caso do Girlup, movimento da Fundação ONU que nasceu nos Estados Unidos há oito anos, cuja atuação está focada atualmente no ODS 5: alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.

Letícia Bahia, representante da Fundação ONU no Brasil, explica que o movimento é um guarda-chuva de projetos que têm especial atenção às meninas. “A gente inspira, treina e conecta meninas globalmente com o objetivo de colocá-las na vanguarda da luta pela diversidade de gênero.”

A porta de entrada para participar do Girlup são os clubes, coletivos feministas com foco em questões de gênero. O movimento apoia esses coletivos oferecendo metodologias, recursos financeiros e conexão com uma rede global que já reúne mais de dois mil clubes, a maioria nos Estados Unidos. A partir de 2018, o movimento passou a se expandir e hoje conta com atuação na América Latina, Ásia, África e Oceania. No Brasil, são 21 clubes atualmente. “Nós não somos uma organização sobre meninas, mas de meninas. Os clubes dão a elas esse protagonismo. Elas são nossa linha de frente. Qualquer menina com acesso a internet pode acessar nossa plataforma, criar seu clube e sair fazendo. É uma troca riquíssima entre realidades muito diversas em torno desse feminismo global”, afirma a representante do movimento no Brasil.

Diferente dos movimentos feministas tradicionais, o foco do Girlup não está no 8 de março, mas sim no 11 de outubro, Dia Internacional da Menina. “Existe muita política pública e produção acadêmica com olhar para a primeira infância e para as mulheres adultas. E nós temos esse público adolescente que não se sente em nenhum dos dois grupos. Trata-se de uma faixa etária muito importante. É um período de muita vulnerabilidade, o momento da iniciação sexual, da descoberta da orientação sexual, o problema do casamento infantil acontece nessa faixa etária, ou seja, tem muitas coisas acontecendo com as meninas e elas precisam de uma atenção especial”, ressalta Letícia.

O principal evento do movimento acontecerá em julho, em Washington. Na edição de 2015, o congresso contou com a participação de Michelle Obama. Letícia afirma que para a edição deste ano estão sendo cogitados nomes de brasileiras relevantes para o tema e a participação de meninas brasileiras na plateia.

Comunicação e empoderamento

Ainda na linha da inovação, a Revista AzMina, fundada em 2015 por meio de uma campanha de financiamento coletivo, produz conteúdo jornalístico e oferece formações para o enfrentamento dos diversos tipos de violência contra as mulheres.

“Quando começamos a sonhar em fazer uma revista feminista, independente, que respeita e valoriza a mulher em toda a sua diversidade, feminismo ainda era palavrão, sexo vinha com manual de instrução para ´satisfazer seu homem´, gordura era crime e mulheres negras, indígenas, trans e lésbicas eram invisíveis para a grande mídia. Com a ajuda dos nossos leitores, financiadores e de tantas profissionais freelancers ou voluntárias incríveis, já produzimos conteúdo sobre como o estado falha em oferecer o aborto legal a mulheres que foram estupradas, podemos falar constantemente das desigualdade no mercado de trabalho e na política, das opressões e das conquistas das mulheres negras, falar de sexo sem tabu e sem obrigação, entre tantos outros assuntos”, conta Carolina Oms, diretora executiva e cofundadora da AzMina.

A Revista, que é uma organização sem fins lucrativos, também oferece palestras, oficinas, workshops e cursos presenciais e online sobre temas como violência contra a mulher, abuso sexual de crianças e equidade de gênero no mercado de trabalho. Sempre que possível, uma porcentagem dos valores recebidos por palestras realizadas pelo braço educacional da AzMina é revertido para financiar reportagens independentes. Ao longo de sua trajetória, a Revista lançou diversas campanhas de conscientização e luta contra o machismo, como #MachismoNãoÉBrincadeira, Carnaval Sem Assédio, #VamosMudarOsNúmeros e tantas outras. “A gente se orgulha de fazer parte da mudança que vem tornando todo o país um pouco menos machista”, afirma Carolina.

A diretora conta que para este 8 de março a organização realiza uma campanha pelo enfrentamento à violência contra a mulher que tem como objetivo conscientizar a sociedade de que essa é uma responsabilidade de todos. A iniciativa contempla o lançamento de um app. “O aplicativo inova ao reunir, em um só ambiente, informação que empodera, ferramenta para o reconhecimento de situações de violência, uma rede de apoio para que as mulheres consigam sair de relacionamentos abusivos e a ação do estado por meio de mapeamento de locais de apoio, produção de provas da violência e ligação para a polícia”, observa.

Trabalho em rede

Um elemento é comum e central em todos os formatos de organização na luta pelos direitos das mulheres e pela equidade de gênero: o trabalho em rede.

Nesse sentido, Ana Carolina salienta a importância da participação de todos os setores no enfrentamento das desigualdades de gênero. “Como o tema está alinhado à implementação da Agenda 2030, principalmente no que se refere à concretização do princípio de não deixar ninguém para trás, é importante ressaltar que cada pessoa e cada setor da sociedade – setor privado, governos, sociedade civil, academia, organismos internacionais – têm um papel importante a desempenhar para que esta seja uma agenda bem-sucedida, seja revisitando suas próprias estratégias e projetos, seja atuando em rede e promovendo parcerias.”

Para a representante interina da ONU Mulheres, no caso do setor do investimento social privado, há um papel relevante a ser desempenhado de agente ativo no que se refere ao financiamento de ações e soluções inovadoras para promover a equidade, com especial atenção às questões de gênero e raça. “Na experiência da ONU Mulheres, os diálogos e a participação da sociedade civil estão bastante ativos em torno da Agenda 2030 e dos ODS, a exemplo da iniciativa Mulheres Negras Rumo a um Planeta 50-50 em 2030, para priorização das mulheres negras como um dos grupos vulneráveis a serem atendidos e das medidas a serem adotadas para incorporar gênero e raça na resposta do Brasil aos ODS. Duas iniciativas estão voltadas aos poderes executivo e legislativo: Brasil 50-50, nos âmbitos federal e estadual, e Cidade 50-50, destinada às municipalidades.”

Daniela, do Instituto Avon, acredita que é preciso, cada vez mais, construir conjuntamente uma visão de futuro desejável que represente alguns consensos mínimos sobre o que seria o Brasil que se quer. “Como parte desse ecossistema social, acreditamos que um país em que as mulheres possam empreender, ter uma vida saudável e livre de qualquer violência seja uma visão com a qual todos possamos concordar.”

Amalia Fischer, coordenadora geral e cofundadora do Fundo ELAS, defende que o trabalho em rede é fundamental ainda no que se refere ao alcance do ODS 5. “Nós estamos colocando nosso grão de areia porque cumprir com o ODS 5 implica que toda a sociedade realmente se comprometa com os direitos das mulheres e com a construção de uma sociedade 50/50. Além da sociedade civil, temos que ter também o primeiro e o segundo setor trabalhando para alcançar a equidade entre mulheres e homens. Nosso grão de areia é fortalecer a iniciativa das mulheres em parceria com organizações da sociedade civil, mas trabalhando cada vez mais com empresas e fundações para que juntos possamos transformar essa realidade adversa em que vivem meninas e mulheres.”

A coordenadora observa ainda que uma sociedade equitativa passa também pela questão racial. “Se não existe equidade racial, não pode existir também equidade de gênero. A pobreza tem cor e é negra e indígena. Por isso, temos que pensar essas questões interseccionalmente.”

Único fundo independente dedicado às mulheres no Brasil, o Fundo ELAS tem se dedicado, desde seu lançamento em 2000, a promover e fortalecer o protagonismo, a liderança e os direitos das mulheres, mobilizando e investindo recursos em suas iniciativas. A organização acaba de selecionar os projetos inscritos no edital “ELAS nos Esportes – Uma Vitória Leva à Outra”, uma parceria com ONU Mulheres e ONG Empodera para expandir o programa-conjunto entre ONU Mulheres e Comitê Olímpico Internacional, que oferece formação interdisciplinar para meninas e jovens mulheres do Rio de Janeiro com uma série de oficinas temáticas e esportivas. Serão investidos 575 mil reais em até dez projetos.

Além disso, o Fundo ELAS está expandindo cada vez mais sua articulação para mobilização de recursos junto a mais parceiros como ONU Mulheres, British Council, Open Society Foundations e outros. “A ideia é justamente mobilizar todo apoio possível para que os diferentes movimentos feministas possam crescer e atuar pelos direitos das mulheres. Nós já fazemos isso há 40 anos, mas agora temos muito mais consciência e massa crítica na sociedade e diferentes maneiras de expressar a luta pelos direitos das mulheres como as redes sociais e toda a luta digital promovida por mulheres jovens até o mais tradicional que é sair às ruas”, observa Amalia.

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