Do Fundacentrismo ao Impactocentrismo: a filantropia na antessala do século 21

Fábio Deboni[1]

Neste texto procuro refletir sobre as controvérsias que o setor filantrópico vem se deparando e o quanto há um anseio pelo seu avanço em direção a modelos mais ágeis, inovadores e colaborativos. Provocações e estímulos têm vindo de diversas direções, notadamente das iniciativas de ‘mercado’ de um lado, e de comunidades, coletivos e OSCs, de outro. Todas essas provocações têm procurado sinalizar que o modelo vigente de setor fundacional parece não agradar nem ‘gregos’ nem ‘troianos’, ainda que sigam sendo um porto seguro aos profissionais aí inseridos.

Filantropia na berlinda

É crescente o incômodo expressado em eventos, publicações e conversas do setor de ‘impacto[2]’ de que o termo ‘filantropia’ não é o mais bem quisto para nominar um conjunto de atores e de práticas de transformação socioambiental, além dele carregar consigo uma carga pejorativa de difícil separação, sobretudo na América Latina. Ainda assim, parece ser o termo que ‘temos para hoje’ ao nos plugar a vínculos identitários globais neste setor.

No Brasil o termo sofre fluxos e refluxos, mas parece seguir em baixa há tempos. A constituição e avanço da agenda do investimento social privado (ISP) emerge como uma expressão do campo da filantropia, ainda que muitos destes atores não assumam claramente esta inter-relação – seja por conveniência, seja por divergência, seja por não considerar isso relevante.

Fundações no centro do ‘universo’

A provocação no título do texto ‘Fundacentrismo’ remete a essa característica do nosso setor do ISP. Nos colocamos no centro deste contexto – temos certa retaguarda institucional, dispomos de um certo lastro orçamentário e de uma carteira de projetos, além de termos certa condição de ‘dar as cartas’ em alguns contextos e situações. Notem que o uso do ‘certo’ é explícito por demarcar ampla diversidade que existe dentre deste setor, além de explicitar que, embora haja certo ‘porto seguro’, o mar já não segue em calmaria para boa parte do setor como era tempos atrás.

O lado ‘grantmaker’ confere esse bônus aos atores institucionais do ISP e os coloca numa situação bastante confortável na comparação com outras organizações da sociedade civil (as ‘grantseekers’ ou, captadoras de recursos). Se o mar já não está tão calmo para o ISP, o que diremos sobre as OSCs (captadoras de recursos).

Há porém, alguns ônus nesta discussão.

Há um crescente questionamento sobre o modelo de operação do ISP no Brasil[3] – mais centrado na execução de projetos próprios e em ‘parcerias’ com OSCs para apoiar essa execução, e menos orientado a destinação de recursos a OSCs (para suporte institucional, parcerias diversas, etc).

Com a emergência de novas agendas – de investimento de impacto, de venture philanthropy e o avanço de agendas mais ‘de base’ e colaborativas – filantropia comunitária, co-investimento, atuação em rede – parece engrossar o ‘coro dos descontentes’ sobre esse modelo ‘fundacentrismo’ em nosso setor.

Em outras palavras, parece que os dias de ‘dar as cartas’ e de ‘certa blindagem institucional’ estão contados para o ISP.

Se isso vem sendo mais percebido nas conversas, eventos e reflexões do setor, emergem então dúvidas sobre quais seriam os caminhos possíveis de serem trilhados, neste novo contexto.

Novos caminhos a seguir

Se o ponto de partida é o ‘fundacentrismo’, quais seriam as possíveis trilhas a seguir? Quais os outros ‘centros de gravidade’ que o ISP pode identificar?

Vejo três trilhas possíveis como tendências já atuais, ainda que não amplamente incorporadas na agenda do ISP.

  1. Instrumentos e métodos no centro
  2. Mercado no centro
  3. Comunidade no centro

 

  1. Instrumentos e métodos no centro

Nesta trilha o centro de gravidade está nos métodos, ferramentas, métricas e compliance. Há um evidente clamor atual por esta dimensão, reforçada continuamente pelo discurso de métricas e indicadores de um lado e, de outro, pela transparência e compliance de outro. Inúmeras boas práticas já estão disponíveis no setor e parece que essas questões vieram pra ficar.

O risco de pesarmos demais a mão neste caminho é diluirmos nossa missão e nosso propósito organizacional nos ‘perdendo’ mais nos ‘meios’ e ferramentas do que em nossas respectivas missões e razões de existirmos.

  1. Mercado no centro

Nesta trilha, reforçada pelo investimento de impacto / negócios de impacto e soluções, há uma clara preferência pela lógica de mercado (suas ferramentas e materializações) na lógica de endereçar questões socioambientais.

No final das contas, passamos a seguir o ‘mercado’ inspirados na tese de que ele traz consigo as ‘melhores’ maneiras de escalar os problemas socioambientais atuais.

O risco de pesarmos demais a mão neste caminho é nos distanciarmos de posições mais na linha da justiça social, do combate à desigualdade e de nos esquecermos do papel do capital filantrópico no enfrentamento de problemas socioambientais que nunca serão endereçados pelo mercado.

  1. Comunidade no centro

Nesta trilha nota-se uma certa tentativa de anular as duas anteriores ao colocar o centro de gravidade do ISP nas comunidades, na ‘base’, em lideranças e organizações locais e na agenda de desenvolvimento local.

Nesta lógica, os instrumentos de mercado tendem a ser renegados (ou deixados em segundo plano) e os métodos como algo desejável, porém de adoção mais flexível. O que importante nesta trilha é que a própria comunidade tenha seu ‘timing’ para decidir sobre seu destino, suas formas de organização e seus próprios projetos.

O risco desta trilha passa pelo desafio de obter resultados de curto prazo, de estruturar uma estratégia de atuação de longo prazo (e sustentá-la ao longo do tempo) e o de desconexão face ao alinhamento ao negócio (para institutos e fundações corporativas).

E por qual trilha seguir?

Considerando que há relevância e pontos fortes em cada uma das três trilhas e que não necessariamente uma anula as outras fica a dúvida: por qual caminho seguir? Por quais combinações de caminhos seguir?

A conjuntura atual que o mundo atravessa – de problemas complexos e urgentes, de crises de diversas ordens e de incertezas frente à real capacidade dos diversos atores (Estados, sociedade civil, empresas, etc) de enfrentar de forma articulada estas questões – e de outro – do momento de crise e incerteza que nosso país atravessa – nos leva a recalibrar em nosso radar, do ISP, qual seria a estratégia mais necessária de atuação frente a tempos incertos, acelerados, voláteis e inter-conectados.

No radar há também aspectos positivos que nos impulsionam a seguir – a agenda global de ODS, o avanço da agenda de ‘impacto’, aspectos geracionais, novos players e novos bolsos para financiar essa agenda.

Sem dúvida fica evidente que o foco ‘fundacentrismo’ é o que menos se mostra aderente a este novo contexto. Ao mesmo tempo, as outras três trilhas trazem ônus e bônus que podem ser bricolados a nosso favor.

Em síntese, vejo uma trilha a seguir que pressuponha um foco no ‘impacto’ em seu sentido mais puro. Ou seja, de Institutos e Fundações se colocarem no papel estratégico (missão/razão de existir) em fomentar transformações estruturais e mudanças sistêmicas que contemplem variáveis políticas, que reative utopias revolucionárias, que dialogue com questões estruturantes (desigualdade, questões étnico-raciais, de gênero, diversidade, de injustiça socioambiental, etc).

Com esse ‘rumo’, ficará mais claro qual ferramenta escolher, qual o mix de instrumentos financeiros/de mercado a adotar e a serviço de quais comunidades esse impacto estará.

Como ne observa, o repertório de aspectos e dimensões a serem incorporadas na agenda estratégia do ISP é bastante mais complexa e ‘delicada’ que a que temos trazido em nossa bagagem até então. Sabemos lidar com ‘bolas divididas’ vai exigir de nós uma maior profundidade na compreensão destas agendas e seus reflexos e constituições históricas, além de nos ‘obrigar’ a sairmos de cima do muro e assumirmos posições mais explícitas sobre estas questões.

Por isso retorno ao título do artigo: ainda estamos na antessala desta agenda. Resta saber se esperando para sermos chamados a entrar em cena ou para sermos descartados para a reciclagem.

[1] Gerente Executivo do Instituto Sabin (www.institutosabin.org.br). Atualmente coordena a Rede Temática de Negócios de Impacto do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) em conjunto com o ICE. Membro do Conselho do GIFE. É escritor e está lançando novo livro “Impacto na encruzilhada: inovação social, negócios de impacto e investimento social privado: caminhos e descaminhos. [email protected]

[2] Em referências às áreas de investimento social privado, filantropia, negócios de impacto, inovação social e afins.

[3] Já discuti anteriormente essa questão: https://gife.org.br/por-que-executar-os-proprios-programas/

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