EDGE Annual Conference 2019 aponta necessidade de uma filantropia mais conectada com mudanças sistêmicas

A cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para a realização da EDGE (Engaged Donors for Global Equity) Annual Conference 2019. Entre os dias 9 e 12 de abril, diversos atores da filantropia global, especialmente dos Estados Unidos, estiveram reunidos com lideranças de movimentos sociais de base para debater os mais complexos desafios globais e o papel do setor para uma transformação sistêmica. Entre as instituições brasileiras parcerias do GIFE, estiveram presentes Sitawi Finanças do Bem, Ibirapitanga, Ford Foundation, Open Society, Instituto Betty e Jacob Laffer, Rede de Filantropia para Justiça Social, Fundo Socioambiental CASA, Fundo Baobá e Fundo Elas.

Com o tema Organizing Philanthropy for Systemic Change, o encontro foi norteado por dois objetivos: 1) Apoiar as organizações e redes da sociedade civil e do movimento social global em seus esforços para avançar e consolidar seu próprio trabalho de resistência à destruição planetária e violação de direitos e o desenvolvimento de alternativas sistêmicas; 2) Identificar e desenvolver estratégias destinadas a mover mais recursos para essas ações e alternativas de construções de novas agendas, promovendo uma “filantropia de mudança sistêmica” baseada no envolvimento com os mais importantes líderes das causas sociais do mundo.

A EDGE Funders Alliance se constitui como uma comunidade de cem doadores, diretores de fundações, curadores e conselheiros de 19 países engajados com a doação local, nacional e internacional por meio de 90 instituições diferentes com prioridades e estratégias diversas, mas com a crença comum de que equidade e justiça são essenciais para promover o desenvolvimento sustentável e o bem-estar global.

A associação é aberta a fundações e programas de doações, bem como a doadores individuais e funcionários, curadores e assessores de instituições filantrópicas e outras, cujo objetivo seja fornecer fundos para promover o bem público. A comunidade financia uma maior equidade e práticas sustentáveis, explorando e apoiando estratégias que abordam desafios sistêmicos e contribuem para mudanças transformadoras de longo prazo.

“No contexto de nossos esforços para construir o apoio fundamental para a transição e a mudança sistêmica, realizar a conferência fora da Europa e dos Estados Unidos oferece à EDGE e aos nossos membros uma oportunidade importante para situar esse trabalho dentro das políticas sociais, econômicas e políticas no contexto do Brasil, América Latina e no Sul global. O objetivo é ampliar as perspectivas e aumentar a conscientização sobre a natureza sistêmica e global dos desafios atuais entre todos os membros, mesmo aqueles que não financiam fora de seus próprios países”, afirma a entidade no site do evento.

Espaço para trocas e construção colaborativa

A programação do evento contou com espaços de diálogo entre os grantmakers membros da EDGE e não membros e interação entre atores da filantropia e representantes de movimentos sociais que estão liderando processos de resistência e proposição de alternativas sistêmicas.

Camila Aloi, assessora de relacionamento do GIFE, observa a preocupação da organização do evento com o caráter dialógico da programação. A partir de falas inspiradoras, a proposta era que os participantes se dividissem em grupos temáticos. No jantar do primeiro dia, por exemplo, os participantes foram convidados a agruparem-se em mesas norteadas por temas diversos.

“A programação do encontro foi toda construída na lógica das trocas. Essa estrutura foi evidenciada o tempo inteiro sob a ênfase da necessidade de construção de conexões entre as estratégias das instituições para a resolução de problemas e desafios que são globais. Ressoou bastante a ideia de que a filantropia que vem sendo feita há 40 anos não está dando conta de resolver os problemas, as respostas têm sido muito lentas frente a todo esse movimento retrógrado onde as políticas são feitas para diminuição do fortalecimento dos movimentos de base. Então, o encontro evidenciou um pedido para que os doadores comecem a imaginar como seria a cara de uma nova filantropia que efetivamente traga uma transformação sistêmica para o mundo”, ressalta.

Diálogos entre doadores e movimentos sociais

A programação do segundo dia do evento foi dedicada ao diálogo entre grantmakers e líderes de movimentos sociais de base. A convite da EDGE Funders Alliance, essas lideranças participaram da conferência depois de três dias reunidas no Systemic Alternatives Symposium para discutir sobre seu papel e como renovar sua atuação.

Camila conta que a agenda abriu amplo espaço para os movimentos, que puderam pontuar ao longo do dia suas necessidades e proposições. “As falas foram muito na direção da importância de os grantmakers patrocinarem as causas dos direitos humanos, que são fundamentais para a transformação sistêmica de que precisamos. Então, olhar para os povos em vulnerabilidade, para as questões de gênero e raça, enfim, fomentar um trabalho de base para criar uma força social que seja capaz de promover um projeto popular de Brasil. Como usar o capital filantrópico para fortalecer esses movimentos sem que eles substituam o papel do governo, mas formando novos atores políticos? Como construir maior colaboração para uma solidariedade global? Essas foram algumas das reflexões propostas pelos movimentos”, conta.

Uma nova filantropia

A etapa final da programação oportunizou trocas e debates entre os atores do setor filantrópico presentes na conferência no sentido de pensar novas estratégias e rotas para sua atuação frente às reflexões construídas ao longo do evento.

“Nós desaprendemos a viver em coletividade. Precisamos refletir sobre como transformar as agendas individuais das instituições filantrópicas em agendas comuns para enfrentar os problemas complexos de forma coletiva”, observa Camila.

Para a assessora, o evento trouxe muita ressonância sobre a necessidade de uma atuação local mais conectada com o âmbito global. “Como nos conectar de forma global atuando de forma local, fortalecendo as redes, nossa capacidade de articulação, de disseminação, enfim, de forma mais unificada globalmente? Para isso, precisamos construir outro tipo de relação entre nós e com a diferença. Como a gente traz para o ‘mesmo barco’ a diversidade como capacidade de buscar respostas a partir de novos olhares?”, questiona.

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