Democracia foi o tema da 2019 Global Philanthropy Forum Conference

Cerca de 300 pessoas de 25 países estiveram reunidas entre os dias 1 e 3 de abril, em São Francisco, nos Estados Unidos, para a 2019 Global Philanthropy Forum Conference. Sob o tema “Reclaiming Democracy” (Reivindicando Democracia, em português), a conferência pautou os desafios atuais da democracia no mundo e o papel da filantropia frente a esse cenário junto a uma diversidade de atores, filantropos e lideranças e ativistas de organizações da sociedade civil.

Constituído em 2001 como uma rede de filantropos e investidores sociais comprometidos com o avanço de causas globais, o Global Philanthropy Forum (GPF) busca informar, capacitar e melhorar a natureza estratégica de doação e investimento social de seus membros. Atualmente, o Fórum possui afiliados em 98 países.

Desigualdades, migrações, mudanças climáticas e questões raciais foram alguns dos debates fomentados no âmbito da conferência situados a partir de três arcos temáticos: desenvolvimento territorial, ambiente digital e sociedade civil.

Para José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE, o mundo está passando por uma espécie de “recessão democrática”. “Reclaiming Democracy dá para traduzir como reivindicando, recuperando, reformando, regenerando a democracia. Acho que todos esses sentidos cabem para o que foi o encontro e seus diálogos, antes de tudo no contexto dos Estados Unidos, mas também em outros contextos no mundo nos quais há um processo de erosão do espaço democrático. Ao contrário, há um crescimento de ambientes de tensionamento, fragmentação, desconfiança social e de estresse das instituições, tanto no espaço da sociedade civil, quanto no espaço das instituições públicas.”

O secretário explica que o sentido do evento foi debater como a filantropia pode aprofundar o diálogo com a promoção de um ambiente tanto de construção coletiva, quanto de novos modos de interface com as políticas e instituições públicas a fim de responder aos desafios colocados atualmente na sociedade.

Democracia: territórios, ambiente digital e sociedade civil

Ao longo do evento, painéis pautaram temas diversos. Diversidade, migrações, cidades, desigualdades, mídias, transparência e impacto foram alguns deles.

Os debates foram conduzidos a partir de três grandes eixos: desenvolvimento local, dados e democracia e filantropia e sociedade civil. O primeiro no que se refere a modos de ação comunitária capazes de refazer o sentido de desenvolvimento, de conectar as pessoas e grupos com a construção conjunta de soluções públicas, de refazer o sentido de ação social e coletiva no âmbito local e comunitário.

Já o segundo se ateve à discussão sobre os modos de requalificação do ambiente virtual de debate público no sentido de afastá-lo de um ambiente de ódio e fake news e de cuidar das questões de privacidade e segurança de dados, o reafirmando também como um espaço de ação coletiva. Por fim, o terceiro se referiu a debates sobre novos modos de se relacionar, a partir da filantropia e do investimento social privado, com atores diversos na sociedade, com dinâmicas mais contemporâneas de ação.

“Lucy Bernholz, pesquisadora sênior do Centro de Filantropia e Sociedade Civil da Universidade de Stanford, afirma que a sociedade civil é o ‘sistema imunológico’ da democracia, então é preciso nesse momento revigorá-la e apoiá-la para esse papel. Eu acrescentaria que ela é também o ‘sistema circulatório’ no sentido de reafirmar nossa capacidade de reconectar atores variados, entre si e com a agenda pública, e da possibilidade de gerar respostas consistentes e coletivas para os desafios que estão postos”, defende José Marcelo.

O secretário-geral do GIFE conta que além desses arcos temáticos, outra dimensão do evento deu conta de debates acerca de frentes da tarefa permanente do GIFE de qualificação e inovação de práticas no âmbito da filantropia e do investimento social privado, tais como mobilização de recursos, advocacy, investimento de impacto, ação em rede, grantmaking, ação coletiva entre fundações, transparência, avaliação, gestão e comunicação.

GIFE no debate sobre a filantropia no sul global

O secretário foi um dos painelistas da seção “Filantropia no Sul Global”, que, segundo ele, reafirmou justamente esse sentido de ação incremental que marca a missão do GIFE. “O debate enfatizou um chamado para a atualização dos modos de conexão com os desafios do nosso tempo como condição para o revigoramento da vida coletiva e a produção de respostas aos desafios presentes na sociedade.”

Para Handemba Mutana, coordenador de ação macropolítica da Fundação Tide Setubal – também presente no evento -, a conferência confirmou o lugar de vanguarda da Fundação no que se refere à sua atuação nos territórios, como forma de alcançar organizações e pessoas mais vulneráveis, bem como ao trabalho interno realizado pela instituição relacionado aos desafios de inclusão da diversidade.

No que se refere ao uso das tecnologias, o coordenador destaca a atuação estratégica da filantropia e do investimento social privado no atual contexto da globalização e o debate acerca da democracia 2.0, ou seja, novas formas de diálogo entre diversos atores da sociedade.

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