Em fase de constituição, Instituto Ibirapitanga chega ao GIFE

Apoiar Organizações da Sociedade Civil (OSCs) em ações que contribuam para a garantia de liberdades e para o aprofundamento da democracia no Brasil é a missão do Instituto Ibirapitanga, recém associado ao GIFE.

O Instituto foi criado em 2017 pelo cineasta Walter Salles após um intenso trabalho de pesquisa do próprio instituidor em organizações dentro e fora do Brasil. O fundo patrimonial a partir do qual o Instituto foi criado define o orçamento disponível para as ações. Fundado como grantmaker, ou seja, uma organização doadora, o Instituto tem como objetivo investir em projetos de organizações da sociedade civil para promover e garantir direitos e fortalecer a democracia no Brasil.

De acordo com Andre Degenszajn, diretor presidente do Instituto, “uma visão fundante do Ibirapitanga é que uma democracia forte, capaz de garantir direitos e liberdades, depende de instituições fortes, com autonomia e capacidade de atuação”, explica.

O diretor conta que a constituição das áreas de atuação do Ibirapitanga foi um processo interessante que caminhou na contramão de processos similares. A vontade de Walter Salles era que o Instituto encontrasse seu próprio caminho durante o processo de constituição e não que as áreas fossem um espelhamento de seus desejos. Por isso, a equipe do Instituto realizou ciclos de discussão a partir da metade de 2017 para definir quais seriam os projetos e ações prioritárias para receber apoio.

“O nosso primeiro ciclo de discussão foi um trabalho interno: um processo de imersão e conversas, partindo de interesses e inquietações que o fundador trazia, mas também com uma leitura da equipe sobre prioridades e temas que produziriam um campo mais fértil de atuação.” O processo de pesquisa confirmou e validou as áreas escolhidas: alimentação e equidade racial. No caso da equidade racial, a pesquisa só ratificou a afirmação de atuação nesse campo, que já era clara desde o início do primeiro embrião do Instituto.

Áreas temáticas

A ideia é que as duas áreas de atuação do Ibirapitanga tenham, a grosso modo, o mesmo volume de recursos alocados.

Em equidade racial, Andre ressalta que a organização já está há quase um ano em um processo de conversa com atores do campo (pesquisadores, ativistas, representantes políticos, artistas) com o objetivo de iniciar a construção de uma base de relacionamento e um espaço de legitimidade do Instituto para modelar as prioridades e oportunidades de atuação.

A principal ação já realizada nessa área foi o apoio ao Fundo Baobá para criar um programa em homenagem à vereadora Marielle Franco, anunciado durante o Congresso GIFE. Criado pelo Baobá com o apoio da Fundação Ford, Open Society Foundations e Instituto Ibirapitanga , o programa tem como objetivo incentivar e fortalecer o protagonismo político de mulheres negras. Além dessa doação bastante significativa, que gerou um montante de quase U$10 milhões com o match da Fundação Kellog (instituidora do Fundo Baobá), o  Instituto ainda tem realizado doações pontuais ao longo desse ano, considerando que a estratégia ainda está em constituição e, segundo o diretor, em 2019 o programa passa a operar com mais propriedade.

“Se o Brasil não lidar com a questão da equidade racial, não resolvê-la e não mudar de patamar, não vamos avançar, não vamos ter uma democracia de verdade. A educação também não vai avançar e a desigualdade não reduzirá. Desde o começo tínhamos uma leitura muito clara e afirmativa de que esse seria um papel importante para o Instituto”, defende Andre.

De outro lado está a área de alimentação. O objetivo do Ibirapitanga nesse campo é se situar na relação entre alimentação e as diversas dimensões que conformam o sistema alimentar tais como os aspectos ambientais, sociais, culturais e da saúde. “Há organizações e pessoas com atuações consolidadas em uma variedade de campos que se conectam ao tema da alimentação como segurança alimentar, direito à alimentação, relação entre saúde e alimentação, nutrição, a questão da biodiversidade a partir de culturas tradicionais, mas poucas instituições com uma visão integradora dessas múltiplas áreas. A intenção do Ibirapitanga é trabalhar nesse sentido a partir da visão de sistemas alimentares.”

“Hoje, a alimentação é a maior causa de mortes ‘evitáveis’, relacionada diretamente com doenças não transmissíveis. Mas também está ligada à questão ambiental: a produção de alimentos é o principal vetor de contribuição para mudanças climáticas. Se nós queremos incidir sobre isso, precisamos pensar sobre a base da agricultura e pecuária. Da mesma forma, o fortalecimento de culturas tradicionais depende de um olhar sobre alimentação porque muitas delas são comunidades que têm como base a agricultura, seja de subsistência ou como fonte de renda. Nosso objetivo é olhar para esse campo a partir desse conjunto de questões e apoiar organizações e iniciativas dessas diversas áreas.”

Para definir cinco eixos de trabalho no programa alimentação, Andre conta que foi realizado um mapeamento do campo com conversas e imersões com as principais organizações e pesquisadores da área no Brasil: 1. Redução no consumo de produtos ultraprocessados; 2. Ampliação da alimentação livre de agrotóxicos; 3. Aumento da participação da agroecologia na economia brasileira; 4. Acesso amplo e equitativo a alimentos saudáveis e 5. Maior conhecimento, preservação e consumo de alimentos da sociobiodiversidade brasileira.

A atuação nesta área se dará por meio de três estratégias principais de trabalho: fortalecimento e articulação entre organizações que fazem parte do ecossistema alimentar, fomento a pesquisa de excelência e divulgação científica e influência para mudança regulatória e legislativa (advocacy).

Associação ao GIFE

Como ex-secretário geral do GIFE, Andre argumenta que a associação do Ibirapitanga era clara a partir do momento que o Instituto estivesse minimamente estruturado. Ele destaca também a importância de fazer parte e fortalecer a comunidade filantrópica do Brasil,  sobretudo a Rede GIFE.

“O nosso trabalho, em grande medida, depende da construção de parcerias, de identificar o que outros estão fazendo, de entender quais movimentos estão acontecendo e acho que o papel de uma fundação, para além das áreas em que ela escolheu atuar, tem a ver com fortalecer esse campo fundacional. Eu acredito que as organizações precisam ter essa leitura de que ter um campo filantrópico mais forte é importante para o fortalecimento da sociedade civil como um todo, para além das causas específicas.”

Na opinião do diretor, um espaço onde as organizações possam discutir prioridades, se alinhar e debater leituras de contexto é fundamental, sobretudo com a recente alteração governamental brasileira.

“O GIFE é um espaço por excelência para isso. Existem questões que não serão resolvidas por uma instituição individualmente e é preciso ter associações fortes para atuar nesses momentos. A associação ao GIFE tem a ver com duas vias: o quanto nós nos beneficiamos em estar no GIFE com acesso ao conhecimento, à rede e a espaços de discussão e compartilhamento e o quanto nós investimos no fortalecimento do próprio GIFE como associação do campo do investimento social privado e da filantropia,” ressalta.

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