Emergência Covid-19: Educação articula investidores sociais privados em torno do apoio às redes de ensino

Mais de 1,5 bilhão de alunos e 60,3 milhões de professores de 165 países foram afetados pelo fechamento de escolas devido à pandemia do novo coronavírus. Frente a uma crise sem precedentes e de proporção global, educadores e famílias inteiras estão tendo que lidar com a imprevisibilidade e aprender uma nova maneira de ensino: o remoto.

O uso das tecnologias como forma de contenção dos danos ao ensino e aprendizagem tem sido alvo de amplo debate entre diversos setores, em especial o da própria educação.

Escolas e profissionais despreparados, limites de acesso a equipamentos e internet e necessidade de tutoria – especialmente nos casos da Educação  Infantil e primeiros anos do Ensino Fundamental – são alguns dos desafios que o setor do investimento social privado tem apoiado com desenvolvimento de ferramentas e soluções para apoio às redes de educação.

“Vivemos em um país muito desigual. Serviços e equipamentos básicos não estão garantidos para todas as escolas brasileiras e é claro que as escolas em piores condições encontram-se nas regiões que atendem populações mais pobres”, observa Mônica Pinto, gerente de desenvolvimento institucional da Fundação Roberto Marinho (FRM).

Levando em conta esse cenário, o tema é um dos eixos prioritários da Emergência Covid-19 – Coordenação de ações da filantropia e do investimento social em resposta à crise. Uma iniciativa do GIFE junto a associados e parceiros, a ação tem como objetivo facilitar e coordenar a atuação da filantropia e do investimento social privado (ISP) para responder à situação de emergência vivida no país.

Além da elaboração de um documento que reúne diretrizes para a atuação do setor, um grupo de trabalho composto por representantes de fundações, institutos, empresas e outros investidores sociais tem se reunido para mapear e debater as ações possíveis para o enfrentamento da pandemia.

Já foram mapeadas mais de 50 iniciativas e 170 fundos e campanhas de emergência promovidas e/ou fortalecidas pelo setor. Com base nesse mapeamento, o GIFE identificou os principais eixos de atuação dos investidores, que se dividem entre trilhas imediatas e de médio e longo prazo para responder aos impactos da crise em áreas e públicos diversos.

Educação

O terceiro eixo da iniciativa, “Educação”, tem como objetivo apoiar as redes de educação na adoção de práticas de ensino à distância e com suporte aos estudantes e suas famílias durante o isolamento social imposto pela pandemia.

O Itaú Social, por exemplo, junto com vários parceiros, está desenvolvendo materiais para apoiar os profissionais da educação. A partir do diálogo com equipes que atuam na gestão pedagógica e administrativa dos municípios, por meio do Programa Melhoria da Educação, a instituição disponibilizou uma série de conteúdos com recomendações para os processos relativos ao calendário letivo, alimentação escolar, prestação de contas e gestão financeira e de pessoas. Todo o material está disponível no Polo, ambiente de formação continuada da instituição.

O site Vivendo e Aprendendo reúne materiais referentes ao desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens. Além do conceito de Educação Integral, a iniciativa apresenta as oportunidades e limites das tecnologias em tempos de quarentena, a importância da família, a relação entre o desenvolvimento integral e a neurociência, assim como práticas educativas.

Mapas de foco, por sua vez – desenvolvidos em parceria com Instituto Reúna e Fundação Roberto Marinho -, apoiam os professores na priorização das aprendizagens mais relevantes para o desenvolvimento das habilidades determinadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A instituição tem atuado ainda no apoio e na elaboração de orientações e instrumentos de avaliação formativa e diagnóstico de aprendizagem dos estudantes pensando no retorno às escolas.

“É preciso entender as dificuldades que as redes estão enfrentando neste momento e que enfrentarão no retorno às aulas. Existia um planejamento para o ano em termos de aprendizagem e gestão que perdeu o sentido e está sendo totalmente revisto. Os estados e municípios precisam de auxílio com processos e normativas não apenas em relação ao ensino remoto, mas também à merenda, ao número de dias letivos, à gestão financeira e de pessoal e às práticas pedagógicas”, observa Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social.

Conteúdo é uma das principais ferramentas

A Fundação Roberto Marinho foi outra instituição associada ao GIFE que acelerou a disponibilização gratuita de seus conteúdos por meio de distintas plataformas. Estude em Casa é uma dessas iniciativas. A faixa de programação está sendo exibida por várias emissoras de televisão locais, públicas ou ligadas a universidades. Vinculada à faixa, a FRM criou as Classes Abertas, no Google Classroom, que já estão atendendo mais de quatro mil estudantes de todo o Brasil.

A Fundação também acelerou a implementação de serviços, como o Guia de Produção Audiovisual, para que os professores tenham orientações sobre como gravar vídeos educacionais. Mini-cursos no site do Canal Futura, podcasts e uma nova funcionalidade no Clube Desafio Futura (CDF), pela qual os professores podem criar suas próprias salas e fazer desafios e jogos de conhecimento com seus estudantes, além do projeto Telas Abertas, que oferece conteúdos via WhatsApp e Facebook para famílias e educadores, como foco em dicas de como estudar no atual contexto, cuidados com saúde e sugestões de atividades lúdicas para serem feitas no ambiente doméstico, são outras soluções desenvolvidas pela Fundação.

Junto a outras 20 fundações, a Fundação é uma das idealizadoras da plataforma Aprendendo Sempre, na qual gestores, professores e famílias podem navegar e encontrar mais de 150 recursos educacionais, selecionados a partir de uma criteriosa curadoria feita pelo Instituto Porvir – alinhados à BNCC.

Pós-crise

Mônica conta que outra preocupação da instituição está no retorno às aulas. Para esse período, e parceria com o Instituto Reúna, a FRM está desenvolvendo Matrizes Curriculares para Ensino Fundamental II e Ensino Médio com foco em Aceleração Escolar e Educação de Jovens e Adultos. “Essas matrizes ficarão disponíveis em nossos sites e poderão ser usadas durante o processo de readequação do planejamento pedagógico que as Secretarias de Educação terão que fazer nos próximos meses”, explica.

Nessa mesma linha, no médio prazo, a instituição ofertará serviços com foco na formação de professores para a aplicação de novas metodologias e recursos didáticos com base em avaliação diagnóstica e em estratégias de acolhimento de estudantes com o objetivo de dar apoio às redes educacionais no retorno às aulas.

“Em parceria com outras fundações e institutos e com o CONSED [Conselho Nacional de Secretários de Educação] e UNDIME [União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação] e outros atores como o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], temos buscado apoiar as redes na superação de muitos desafios, dentre eles acesso e implantação de tecnologias e inovação, financiamento para infraestrutura e conectividade, formação de professores, disponibilização de objetos de aprendizagem e orientações técnicas para gestores educacionais. O Brasil é muito grande. Temos cerca de 48 milhões de estudantes. Precisamos de uma aliança forte e de longo prazo, para superar todos os desafios que não foram equacionados no século 20”, afirma Mônica.

Desafios escancaram as desigualdades

Mesmo com todo empenho em manter o ensino ativo, Angela afirma que as redes têm dúvidas em relação a questões como: o quanto os pais conseguem apoiar seus filhos em casa, o tempo dedicado por crianças e adolescentes ao receberem as atividades, se conseguem de fato realizá-las com autonomia. Outro ponto de preocupação é a estrutura disponível em casa, como o acesso à internet e um local adequado para as crianças se dedicarem a essa aprendizagem remota.

“Várias redes têm unido esforços para atuar por meio de ferramentas digitais, porém, como nem todos os alunos têm acesso à internet, materiais impressos são enviados para as famílias. Todos estes conteúdos precisam dar conta de apoiar as famílias na mediação das atividades realizadas com as crianças em casa, principalmente nas etapas da Educação Infantil e primeiros anos do Ensino Fundamental. A pandemia de Covid-19 trouxe desafios novos, ainda maiores. Justamente por isso é urgente reforçarmos a articulação de esforços coletivos por uma educação de qualidade, com equidade.”

Importância da atuação coordenada

Angela conta como o grupo de trabalho promovido pelo GIFE tem proporcionado o compartilhamento de ações desenvolvidas com outras instituições que têm visão, trabalho e atuação semelhantes.

“As experiências da rede nos trazem aprendizado, direcionamento e ideias inspiradoras. Assim como o Itaú Social, várias entidades têm feito escutas com parceiros, representantes de municípios e organizações da sociedade civil para saberem quais ações estão sendo tomadas a fim de minimizar os impactos da pandemia. Essa troca de experiências resulta em um panorama geral do contexto, além de incentivos, motivações, reflexões e orientações de como podemos melhorar nossa atuação.”

Mônica, por sua vez, conta que uma das editoras que por muito tempo produziu os livros do Telecurso está doando milhares de livros didáticos, por meio de outros associados ao GIFE, para instituições que atuam nas periferias, onde jovens têm acesso limitado às plataformas digitais. “Essa sinergia resultante da articulação com outros associados ao GIFE nos possibilitou mapear territórios e públicos que realmente necessitam de material didático impresso, garantindo que esses recursos cheguem aos jovens e bibliotecas comunitárias que efetivamente precisam dessa doação.”

Diante de uma grave crise econômica e graças a um poder de mobilização construído ao longo de décadas, Angela acredita que o papel do investimento social privado no fortalecimento da sociedade civil e na agenda pública de desenvolvimento foi reafirmado com êxito ao oferecer a possibilidade de alcançar os territórios mais esquecidos.

“A questão não é ocupar um espaço que deveria ser do governo, mas complementar os esforços de desenvolvimento. Quanto mais participativa for a sociedade civil, melhor será para a economia do país e para a consolidação da democracia.”

Para Mônica, diante de uma crise global com efeitos econômicos e humanitários, o foco deve ser a sobrevivência no curto prazo e a reorganização social no médio prazo que garanta a todos um futuro melhor.

“A crise que vivemos escancara que o ser humano é, eminentemente, social, gregário e que saúde, educação de qualidade, condições sociais e econômicas básicas e dignas para todos é que podem gerar bem-estar social para todas as camadas da sociedade. Talvez, essa pandemia seja o ‘freio de arrumação’ que precisávamos para resolver definitivamente mazelas que o Brasil ainda carrega, oriundas dos séculos 19 e 20. Oxalá aprendamos, na marra, que um projeto de nação próspera e justa é produto da ação responsável e articulada de governos, iniciativa privada e sociedade civil organizada.”

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