O mês, a hora e a vez da equidade racial

Nos Estados Unidos, agosto marcou a 10ª edição do Black Philanthropy Month. Co-promovido pela primeira vez no Brasil pelo GIFE em conjunto com a Rede Temática de Equidade Racial, o evento pautou uma série de atividades e produções ao longo do mês, incluindo este Especial.

Nos últimos anos, o debate racial ganhou um novo destaque depois do assassinato do afro-americano George Floyd. E, apesar dos Estados Unidos e do Brasil terem processos históricos bastante diferentes, ambos os países viram o interesse e o entendimento racial mudaram neste período. 


A pandemia também alterou a compreensão da relação entre desigualdades e questões raciais. Os dados revelam impactos maiores da Covid-19 sobre a parcela negra da sociedade – o que compõe apenas mais um capítulo da história de desigualdades que marca o país.

A polícia que mais mata no mundo é também a que mais mata pretos. Em 2020, 78,9% das 6.416 pessoas mortas em intervenções policiais eram negras: 76,2% jovens e 98,4% do sexo masculino. A outra face dessa moeda é que policiais negros são também os que mais morrem: 62,7% contra 34,5% de profissionais brancos. Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021.

As disparidades também atingem a população negra quando o assunto é trabalho. Pretos e pardos representam 33% dos cerca de 15 milhões de desempregados (IBGE, 2021). Homens e mulheres negros/as ganham, respectivamente, 46% e 49% a menos do que brancos/as com formação educacional equivalente, segundo a Pesquisa Racismo no Brasil.

A pauta da equidade racial e seus desafios também não é exclusividade desses dois países. O assunto é transversal a alguns dos objetivos e metas que compõem a agenda de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), tais como educação de qualidade (ODS 4), trabalho decente e crescimento econômico (ODS 8) e redução das desigualdades (ODS 10).

Sem dúvida, o tema ganhou maior evidência frente aos abismos socioeconômicos escancarados pela pandemia e tem sido foco no âmbito do investimento social privado (ISP), refletido em um sem número de debates, publicações, estudos e ações afirmativas, muitas delas em parceria com organizações do movimento negro, que historicamente atuam nessa agenda.

Tais esforços são importantes frente ao baixo número de instituições do setor que manifestaram, no último Censo GIFE 2018, ter como pauta estratégica de seus programas e projetos a população negra (10%) ou ter como foco prioritário a temática da equidade racial ou combate ao racismo (2%).

Nos Estados Unidos, o mês de agosto marcou a 10ª edição do Black Philanthropy Month. Criada por Jacqueline Copeland, a iniciativa é uma celebração global da doação de ascendência africana e mobiliza cerca de 17 milhões de pessoas, em mais de 40 países.

Pela primeira vez, em 2021, o GIFE foi co-promotor do evento no Brasil em conjunto com sua Rede Temática de Equidade Racial. Aqui, contudo, o intuito é outro – haja vista o longo caminho a percorrer no enfrentamento aos abismos raciais que assolam o país -: reforçar o convite para que a filantropia e o investimento social brasileiros sigam se aprofundando no debate sobre seu papel e relevância no enfrentamento ao racismo e sobre as oportunidades para uma atuação mais estratégica na agenda da equidade racial.

Para marcar a participação brasileira, o Black Philanthropy Month reuniu lideranças do setor em um debate online realizado no dia 4 de agosto, que contou com a presença de Selma Moreira (Fundo Baobá), Marcio Black (Fundação Tide Setubal), Adriana Barbosa (PretaHub), Atila Roque (Fundação Ford Brasil), Gilberto Costa (JP Morgan), além das atual e ex-presidente do Conselho de Governança do GIFE, Inês Lafer (Instituto Betty e Jacob Lafer) e Neca Setubal (Fundação Tide Setubal), respectivamente.

A agenda também marcou o lançamento da plataforma ISP Pela Equidade Racial e do Mapa de Iniciativas da Filantropia pela Equidade Racial no Brasil, iniciativas lideradas pelo GIFE no intuito de incentivar e fortalecer a atuação do setor na pauta antirracista.

Todo esse caldeirão de discussões e ideias esteve presente nas edições do redeGIFE ao longo do mês de agosto (confira ao final desta reportagem).

Além de condensar tal acúmulo, esta edição do Especial redeGIFE traz um vídeo-webinar com a participação de duas lideranças femininas na agenda da equidade racial: Antonia Quintão, presidenta do Geledés – Instituto da Mulher Negra, e Márcia Lima, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap.

Confira a seguir os destaques desses debates e as oportunidades de ações apontadas por essas lideranças que podem inspirar outras organizações e setores a se somarem à causa.

Cultura da solidariedade

“Em um momento de tanta hostilidade e sofrimento [período escravocrata no Brasil], as irmandades negras foram protagonistas na doação de recursos que possibilitaram a compra de alforria para a libertação de seu povo. Olhando para isso, hoje, fica claro como a população negra sempre se organizou para construir uma sociedade mais justa”, contou Selma Moreira, diretora-executiva do Fundo Baobá para Equidade Racial, durante o evento brasileiro do Black Philanthropy Month.  

A cultura da solidariedade, construída pelas populações afrodescendentes no Brasil nos últimos séculos, foi fundamental na luta pela abolição da escravatura e por direitos no país. A Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), por exemplo, fundada em 1832 por um grupo de homens negros, teve como bjetivo de auxiliar a comunidade a conquistar sua liberdade promovendo a compra de cartas de alforria. A SPD existe até hoje e está prestes a completar 200 anos.


Para Selma, é importante reforçar a necessidade de investimentos estruturantes para desenvolver capacidades e a escuta ativa do movimento negro para a construção das soluções.

“Promover a equidade racial no Brasil é um trabalho que envolve toda a sociedade. Essa transformação se dará por um conjunto de pessoas extraordinárias com coração aberto e desejosas de mudanças.”

Limites e horizontes

O debate realizado durante o evento brasileiro do Black Philanthropy Month entre lideranças negras do investimento social privado foi especialmente marcado pelo reconhecimento de limites e oportunidades de avanço. Confira os destaques da conversa.

“É necessário descentralizar os recursos do investimento social privado para um impacto mais sistêmico e de pautas interseccionais, como gênero e raça. A filantropia e o ISP precisam ter uma amplitude de investimentos em relação ao que são os problemas estruturais do Brasil e que a pandemia colocou na nossa cara.”
Adriana Barbosa
(PretaHub)
“A tese da democracia racial ficou para trás, mas o racismo está mais vivo do que nunca. Precisamos diversificar o próprio campo da filantropia, testar caminhos, reconhecer os limites e colocar pessoas negras em lugares de liderança. Destinar dinheiro para fortalecer a voz e o protagonismo negro é uma decisão que está ao alcance de quem está em posição de poder. A filantropia tem que escolher seu lado e se colocar pelo fortalecimento da democracia.”
Atila Roque
(Fundação Ford Brasil)
“A tese da democracia racial começou a ser desconstruída. O fato de essa discussão estar na pauta, com mais organizações do movimento negro participando, é ótimo porque elas conseguem ter mais capilaridade. É muito importante a filantropia se aproximar das comunidades para entender suas demandas.”
Gilberto Costa
(JP Morgan)
“Quando falamos de filantropia institucionalizada, estamos falando de concentração de riquezas. Já passou da hora de a elite olhar para si como parte da mudança e da política na destinação de recursos. Levar o dinheiro e o poder de decisão sobre o seu uso ‘para a ponta’ é fundamental.”
Inês Lafer
(Instituto Betty e Jacob Lafer)
“Filantropia negra não é só sobre dinheiro, mas entregar amor em um mundo que não nos ama. Mais do que solidariedade, é intencionalidade e interseccionalidade porque não podemos marginalizar mais ninguém.”
Marcio Black
(Fundação Tide Setubal)
“Temos uma filantropia muito ligada a empresas que busca indicadores que possam traduzir resultados concretos aos conselhos administrativos. A pandemia tem nos mostrado a importância de mais flexibilidade para chegarmos ‘na ponta’ e termos maior impacto.”
Neca Setubal
(Fundação Tide Setubal)

O que o ISP tem feito pela equidade racial...

Conheça a seguir algumas das iniciativas lideradas pelo GIFE na direção de incentivar e chamar à ação o setor do investimento social privado na agenda da promoção da equidade racial no Brasil.

Guia - O que o ISP pode fazer por Equidade Racial

O segundo material da série aborda a temática da equidade racial e é direcionado a investidores sociais privados e organizações filantrópicas interessados em iniciar ou fortalecer sua atuação na causa. A publicação inclui conceitos, panorama, contexto e tendências, além de possibilidades de atuação. Os conteúdos foram produzidos a partir de entrevistas, pesquisa bibliográfica e contribuições de workshop sobre o tema realizado com especialistas. A iniciativa conta com a parceria do Instituto Unibanco, Fundo Baobá e Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Acesse.

Rede Temática de Equidade Racial

Lançada em 2020, a RT de Equidade Social nasceu a partir da iniciativa de institutos e fundações representantes da filantropia e do investimento social privado no Brasil com o propósito de desenvolver e qualificar seus espaços de atuação desde uma perspectiva afirmativa da equidade racial. Coordenam a iniciativa: Fundação Ford Brasil, Fundação Roberto Marinho, Fundação Tide Setubal, Instituto Ibirapitanga, Instituto Unibanco, Itaú Social e Open Society Foundations. Saiba mais.

Plataforma ISP Pela Equidade Racial

Visa reunir informações que possam ampliar o conhecimento, fomentar reflexões e apontar caminhos para aprofundar a atuação da filantropia e do investimento social privado na agenda de equidade racial no Brasil. A plataforma deriva da atuação da Rede Temática de Equidade Racial e ambas as iniciativas têm conexão com a série O que o Investimento Social Privado pode fazer por…?, cujo objetivo é destacar temas menos evidenciados na atuação do ISP. Acesse.

Mapa de Iniciativas da Filantropia pela Equidade Racial no Brasil

Iniciativas e alianças do campo do ISP reunidas na Plataforma ISP Pela Equidade Racial com o objetivo de irradiar o que está sendo feito na prática. Confira.

… e o que mais pode fazer

Em webinar produzido exclusivamente para esta edição do Especial redeGIFE, Antonia Quintão, presidenta do Geledés – Instituto da Mulher Negra, vice-presidenta do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e coordenadora de cursos de pós-graduação lato sensu da Universidade Presbiteriana Mackenzie; e Márcia Lima, professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e coordenadora do Afro-Núcleo de Pesquisa sobre Raça, Gênero e Justiça Racial, debatem os desafios e apontam oportunidades para uma atuação mais estratégica e relevante do investimento social privado e da filantropia na agenda da promoção da equidade racial. O debate contou com a mediação de Gustavo Bernardino, gerente de programas do GIFE.

Assista!

Vozes NEGRAS do campo

Convidamos lideranças negras da sociedade civil organizada para responder:

Quais contribuições aprofundadas podem e precisam ser dadas pela filantropia e o investimento social privado para responder ao desafio de uma maior equidade racial?

Assista!

Destacamos ainda contribuições que subsidiaram produções sobre a pauta da equidade racial ao longo das edições de agosto do redeGIFE.

“É necessária uma cultura organizacional equitativa, pensando o organograma de uma empresa e como, via ações afirmativas, ele vai se transformar de algo monocromático e branco, como é hoje, em uma representação daquilo que está presente em termos de diversidade racial na sociedade brasileira.”
Daniel Teixeira
(Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades - CEERT)
“A sociedade civil precisa fortalecer a organização política, estrutural, econômica, independente e autônoma das organizações negras. Não podemos sair dessa tempestade para reconstruir o Brasil com os mesmos atores de sempre. Se há uma vontade responsável e sincera dos setores médios que hoje se dizem antirracistas em contribuir na luta contra o racismo brasileiro, é incentivar e apoiar que esses atores do movimento negro surjam, se fortaleçam e falem em seu próprio nome.”
Douglas Belchior
(Uneafro Brasil e Coalizão Negra por Direitos)

Expediente

Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO

Leonardo Nunes
ASSISTÊNCIA DE COMUNICAÇÃO

Estúdio Cais
REPORTAGEM/TEXTO

Estúdio Cais e Estúdio Zut
VÍDEOS

Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO

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