Especialistas apontam tendências para o investimento social privado no campo dos negócios de impacto

 

O campo dos negócios de impacto social está em plena expansão e, como não poderia deixar de ser, se aproxima cada vez mais do investimento social privado. Mas, afinal, quais são as tendências e desafios para a atuação dos investidores nessa agenda? Que caminhos são possíveis de se estabelecer? Quais as apostas para 2018?

Para debater estas questões e entender com mais clareza a interface entre os dois universos, o GIFE promoveu um novo debate online pré-Congresso GIFE 2018, que será realizado de 4 a 6 de abril, em São Paulo (saiba como participar).

O tema já vem sendo pauta não só de discussões, mas de ações conjuntas entre os associados do GIFE, que conta hoje com a Rede Temática de Negócios de Impacto Social. Esta é também uma das agendas estratégicas de atuação do GIFE para os próximos anos. Durante o Congresso, além de uma mesa específica para debater o tema, será lançada uma publicação a respeito, como parte da série Temas do Investimento Social Privado.

Para iniciar a conversa, Graziella Comini, coordenadora do Centro de Empreendedorismo Social (Ceats) da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que, ao falarmos de negócios de impacto, é importante ter em mente que se trata de um tipo de organização que tem a intenção de gerar valor social e ambiental, além do econômico, utilizando para isso da lógica de mercado.

Segundo a especialista, o número de organizações envolvidas neste ecossistema passa a se ampliar principalmente no final dos anos 2000, sendo a Artemísia a primeira aceleradora, criada em 2004, focada neste tema. Hoje, o campo está em plena expansão, como mostrou o “GUIA 2.5 – Guia para o desenvolvimento de negócios de impacto” – elaborado pelo Quintessa, com patrocínio do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e do Instituto Sabin e apoio do Finance for Good e parceria do PonteAPonte.

Na primeira edição, publicada em 2015, foram mapeadas 11 organizações que apoiam o empreendedorismo social do país, mostrando as diferenças entre elas e indicando qual é a melhor opção para cada negócio. Na nova publicação, lançada no final de 2017, o número chega a 30 organizações, com o mapeamento de 34 iniciativas (tendo em vista que uma mesma organização desenvolve mais de um tipo de programa/apoio aos empreendedores).

Outro indício dessa expansão é o fato de que, segundo a ANDE (Aspen Network of Development Entrepreneurs), já existem 29 investidores que mobilizaram mais de 186 milhões de dólares para negócios de impacto. Além disso, como lembrou Graziella, várias faculdades têm incorporado a temática em seus currículos e, algumas organizações da sociedade civil têm buscado, cada vez mais, desenvolver atividades de geração de renda e até criado suas unidades de negócios.

Diferentes atores também vêm se engajando gradativamente no setor nos últimos anos, como bancos de desenvolvimento, fundos de participações, family offices, institutos e fundações, entre outros. O 1º Mapeamento Brasileiro de Negócios de Impacto Socioambiental, por exemplo, identificou 579 negócios de impacto e, um último levantamento realizado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e o Sebrae, mais de 869 empreendimentos com essa proposta se cadastraram.

Porém, apesar do ecossistema crescente, ele é marcado por uma forte concentração geográfica, particularmente na região Sudeste, com poucos atores de fomento e de aceleradoras no Norte e Centro-Oeste. Além disso, falta capital semente disponível para os empreendimentos que estão no início do seu percurso.

“A boa notícia é que o investimento de impacto não é só visto como nicho de filantropos. Estamos neste momento de transição e precisamos consolidar como nova classe de ativos do mercado. Além disso, há muitas oportunidades de atuação para os diferentes atores, como institutos, fundações, universidades etc. e diversos espaços a serem ocupados nos próximos anos”, ressaltou a coordenadora do Ceats.

Os negócios e o ISP

A aproximação entre os negócios de impacto e o ISP tem se ampliado, como mostrou a última edição do Censo GIFE, no qual 42% dos respondentes declaram que estão envolvidos de alguma forma com a agenda. Mas, isso tem ocorrido de diferentes formas e em várias medidas, com engajamento em maior ou menor grau, dependendo do tipo de investidor: empresarial, independente, familiar etc.

A discussão atual, ressaltou Fabio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin e um dos coordenadores da RT de Negócios de Impacto do GIFE, não é se os investidores sociais devem se relacionar com essa agenda, mas como podem participar e colaborar de forma efetiva. “Outra observação importante a fazer é que não estamos discutindo que os negócios de impacto são uma evolução da filantropia. Não podemos cair nessa armadilha. Na realidade, os negócios são mais uma ferramenta entre as possibilidades para os investidores sociais”, comentou.

Mas, para que essa articulação seja mais efetiva, é preciso ainda superar alguns desafios e barreiras que, na visão do gestor do Instituto Sabin, são transponíveis e que não inviabilizam a aproximação. A primeira delas diz respeito a uma dimensão jurídica, ou seja, as organizações deverão analisar o seu estatuto e verificar quais mudanças serão necessárias de realizar para apoiar um negócio de impacto, por exemplo.

O segundo desafio está no âmbito contábil, ou seja, definir de que forma o retorno financeiro adquirido via apoio a um negócio poderá ser contabilizado e, o terceiro, diz respeito a um processo interno de convencimento, principalmente de conselheiros, para que não sejam resistentes a essa agenda. “Vale a pena um trabalho de esclarecimento sobre a complexidade desta agenda, que é muito mais do que business”, lembrou Fabio.

E, por fim, a quarta barreira está na dimensão das habilidades: a organização conta com algum profissional da equipe com as capacidades necessárias para lidar com esta nova agenda? “E, por fim, eu agregaria mais uma questão: os institutos e fundações não podem ficar na inércia, esperando algum ator externo vir a provocá-los nessa agenda. Precisamos mudar essa lógica e nos mover. Não vamos esperar e sim ir buscar referências e encontrar oportunidades que dialoguem melhor com nossa organização”, provocou o gerente do Instituto Sabin.

Tendências para avançar

Como superar as barreiras e fazer o setor se expandir ainda mais? Quais as principais tendências? A coordenadora do Ceats contou que, num encontro promovido em setembro de 2017, junto ao PNUD e ao Sebrae, com a participação de 35 atores do ecossistema – quem financia, quem apoia e quem faz – foram levantadas quatro dimensões que são fundamentais de serem olhadas até 2030 para que o campo possa se fortalecer.

Uma delas é a necessidade de se diversificar mais os empreendimentos, que ainda são muito homogêneos – comandados principalmente por homens, brancos, na faixa etária de 35 anos. Além de ter mais liderança feminina e diversidade de raça, por exemplo, é preciso fomentar os negócios em outras regiões do país e também incentivar que novos empreendimentos sejam criados nas próprias comunidades.

Outra proposta é estabelecer maior conexão com outras agendas, diversificando a conversa com atores fora deste universo. “Temos tantos problemas sociais que precisamos da atuação de todos, desde filantropia, atores públicos, empresas etc. A ideia é que consigamos fazer mais aproximações com estes outros atores, sensibilizar os gestores públicos, assim como os investidores tradicionais, a fim de que canalizem mais recursos para os empreendimentos”, comentou Graziella.

A terceira frente de ação deve ser no sentido de consolidar os negócios. Isso porque muitos empreendimentos já receberam aporte de fundos de investimentos de impacto e, agora, depois de cinco anos de apoio, é preciso pensar em como avaliar e dar continuidade às ações. E, a última dimensão, pontuou a especialista, diz respeito à melhoria na gestão do conhecimento sobre o campo, com a participação mais ativa da universidade, por exemplo, para sistematizar, criar métricas para definir e medir impacto, disseminar a temática etc.

“A universidade pode acolher melhor a demanda dos jovens e oferecer mais disciplinas sobre o assunto, introduzir casos em disciplinas tradicionais, estimular mais trabalhos científicos e criar incubadoras e aceleradoras para estimular os estudantes a pensar em soluções para os problemas socioambientais e criar empreendimentos para tal”, ressaltou.

Oportunidades para investidores sociais

Mais do que apenas apoiar diretamente os negócios de impacto, os investidores sociais podem se aproximar deste campo de diversas formas. Fabio Deboni ressaltou, durante o debate, cinco maneiras disso ocorrer, lembrando que estas possibilidades não se esgotam.

A primeira é fortalecer o ecossistema, investindo, por exemplo, em iniciativas que apoiam o campo, como aceleradoras ou movimentos, como a Força Tarefa de Finanças Sociais (FTFS). Diversos institutos e fundações já têm atuado neste sentido.

A segunda porta de entrada pode ser testando mecanismos de apoio, para além da doação. Um exemplo é o FIIMP – Fundações e Institutos de Impacto, uma inciativa alavancada no segundo semestre de 2016 pela FTFS, com a participação de 22 institutos e fundações. Estes atores direcionaram 10 mil dólares cada um para um fundo, a fim de testar três diferentes mecanismos de apoio. No momento atual, depois da contratação das organizações intermediárias, o projeto está avaliando os negócios que serão selecionados.

A participação no FIIMP, inclusive, desencadeou novas iniciativas internas nos membros participantes. “Isso já é uma realidade”, ressaltou o gerente do Instituto Sabin, que também faz parte da iniciativa.

A terceira forma de atuar no campo é colaborar, como apontou Graziella, na produção de informações e conteúdos, gerando novos repertórios e conhecimentos. Ou seja, os investidores podem apoiar estudos, pesquisas, publicações etc. do setor. Outra oportunidade é aportar recursos para o desenvolvimento de métricas de avaliação, também essencial para fazer o setor expandir ainda mais. E, se possível, direcionar parte do capital filantrópico para os pequenos empreendimentos que precisam de capital semente.

“Além disso, muitas organizações da sociedade civil querem testar novas formas de geração de renda e as fundações e os institutos podem ajudá-las nesta fase, pensando em ampliar a sua sustentabilidade financeira, comprando serviços e produtos, por exemplo, ou abrindo portas para estas OSC junto a sua rede de contatos. Fomentar empreendimentos nos territórios de sua atuação também é fundamental”, ponderou Graziella Comini.

O Ceats, inclusive, em parceria com o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e a Ashoka, lançou no ano passado a pesquisa “Lições da prática: reflexões sobre os elos entre OSC e negócios de impacto socioambientais”, com o objetivo de mapear a capacidade criativa e empreendedora das OSCs e entender a relação entre o terceiro setor e negócios de impacto.

“As OSC têm um papel fundamental. Não dá para imaginar que todos os problemas vão se resolver pela lógica do mercado. Alguns sins e muitos outros não. Algumas OSC já perceberam que poderiam ampliar a sua atuação por estratégias de mercado e isso é complementar. Algumas criaram atividades de geração de renda, outras unidades de negócios, outras empresas e uma quarta opção é a mudança de gênese mesmo. São vários estágios, não tem certos ou errados, mas são possibilidades”, comentou.

Na avaliação dos especialistas participantes do debate, há muitos caminhos para esta aproximação e, o mais importante, é estar aberto para encontrar aquele que melhor se relacione com a forma de atuação da organização.

Programe-se para participar dos próximos debates online:

20.02 | Mídia, fakenews e os riscos à democracia – Inscreva-se! 

20.03 | SustentaOSC – mais informações em breve!

A iniciativa faz parte de uma série mensal de webinars que acontece até o X Congresso GIFE – 4, 5 e 6 de abril de 2018.

Assista aos debates anteriores.

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Pesquisa mapeia conexões entre OSCs e negócios de impacto

O CEATs lançou a pesquisa “Lições da prática: reflexões sobre os elos entre OSC e negócios de impacto socioambientais” com o objetivo de mapear a capacidade criativa e empreendedora das OSCs e entender a relação entre o terceiro setor e negócios de impacto.

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