Especialistas debatem sobre mídia, fakenews e os riscos à democracia e apontam caminhos

 

Fortalecer a democracia passa, necessariamente, por uma comunicação de qualidade. Mas, como conseguir isso num mundo em que, cada vez mais, informações falsas – as chamadas fakenews – ou irrelevantes, propagam mentiras, incitam o ódio e acabam com a possibilidade de diálogo?  Para debater sobre essa questão, o GIFE promoveu mais um debate online em preparação ao X Congresso GIFE, que será realizado de 4 a 6 de abril, com o tema: “Brasil, democracia e desenvolvimento sustentável”.

O webinar foi realizado no dia 20 de fevereiro (assista ao vídeo completo) trazendo à tona o debate sobre: ‘Mídia, fakenews e os riscos à democracia – Como preservar o ambiente de debate público?’. O encontro contou com a participação de Ofelia Ferreira da Silva, coordenadora do Programa de Migração da Fundação Avina; Thiago Rondon, fundador e CEO do AppCívico; Rodrigo Delfim, criador e editor do site MigraMundo; com mediação de Mariana Moraes, gerente de Comunicação do GIFE.

Os especialistas lembraram que a democracia pressupõe espaços de discussão e participação pública que, até a chegada das novas tecnologias, seguia determinada lógica. Com as novas ferramentas digitais que passaram a ser criadas, a escala mudou e, agora, a sociedade começa a sentir os impactos dessa democratização do acesso aos meios digitais.

“A questão é não termos mais um espaço público de debate nas redes sociais, até porque o modelo de funcionamento das redes é para criar bolhas. O modelo de negócios adotado está principalmente voltado em captar a nossa atenção dentro de uma lógica publicitária e, assim, não querem nos confrontar. E, nessa falta de confronto, perdemos a oportunidade debater”, explica Thiago Rondon.

Surgem então os chamados robôs, perfis falsos automatizados que propagam uma informação em massa, e estão se provando influentes no debate público, o que merece uma grande atenção. Segundo o fundador e CEO do AppCívico, um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostrou que mais de 20% das informações divulgadas durante o processo de impeachment pelo qual o país passou em 2016, foram disseminadas por perfis que acreditava-se serem reais, mas eram robôs, que tinham como principal objetivo divulgar informações para que não houvesse um consenso.

Outros levantamentos realizados também têm mostrado a influência destes robôs em outros processos, como as eleições do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, em 2016, e até mesmo numa eleição de um diretor de time de futebol no Brasil.

“A questão é que estes mecanismos que estão sendo criados impactam novos projetos de lei, a opinião para a elaboração de políticas públicas, o comportamento dos políticos etc. e isso traz um impacto que precisamos discutir de uma maneira muito aberta. Se não nos estruturarmos para reverter este cenário, vamos ter dificuldade de construir, por exemplo, consultas populares, que também podem ser influenciadas por estes robôs. Existe uma hora em que os perfis falsos se tornam orgânicos, pois eles começam a falar sobre determinado assunto, a mídia tradicional noticia, as pessoas começam a compartilhar porque acham que é verdade. E aí temos uma dificuldade muito grande de corrigir o quadro instaurado”, analisou Thiago.

Ataque à Lei de Migração

Organizações da sociedade civil têm vivido de perto este novo fenômeno das fakenews, tendo que lidar com ataques de informações falsas e desconectadas, que podem ameaçar direitos já conquistados. Um exemplo foi o que ocorreu em relação à aprovação da Lei de Migração.

“O tema da migração já traz uma grande resistência, pois ele coloca à tona um medo xenofóbico em relação ao outro, ao que é diferente, diverso, de alguém que vai invadir o meu espaço. Isso é um território perfeito para semear mentiras e transformar esse sentimento em coisas que alimentem atitudes irracionais”, comentou Ofélia Ferreira, coordenadora de programas da Fundação Avina, que acompanhou esse movimento de perto.

Desde 2013, diversas organizações iniciaram um processo intenso de articulação para a criação de um Marco Regulatório da Migração, a fim de substituir o Estatuto do Estrangeiro, que tratava o imigrante numa perspectiva de ameaça à segurança nacional, passando a olhar o tema sob a perspectiva dos direitos humanos. Durante mais de quatro anos, diversas iniciativas de diálogo foram instauradas para colaborar no processo de criação da nova lei, como conferências, consultas públicas abertas, análise de especialistas etc.

Segundo Ofélia, tratou-se de um processo sólido, que aglutinou diferentes pontos de vista, para a construção de um documento de fundamental importância para o país. A Lei de Migração foi votada e aprovada em maio de 2017 e, em novembro, foi apresentado o decreto para regulamentar a legislação.

Durante este processo de definição e negociações para a elaboração do marco legal, as organizações tiveram de lidar com o ‘fenômeno das fakenews’ o que, de acordo com Ofelia, complicou muito o debate. No momento de consulta popular, por exemplo, a página do Congresso teve um pico muito acentuado de engajamento, algo que surpreendeu as organizações, com mais de 8 mil participações. Porém, diversas informações falsas sobre a lei foram divulgadas em redes sociais.

“Abriram-se debates online sobre o tema com narrativas que eram esdrúxulas. Desde coisas hiperbólicas, como se algo muito grave fosse acontecer, sejam montagens que pareciam convincentes, utilizando imagens de conflitos de outros países. As informações disseminadas eram absurdas, como: a nova lei vai abrir as fronteiras e todos serão brasileiros; isso é uma articulação para invasão dos comunistas no Brasil; vão abrir nossas fronteiras para os terroristas. Todo esse arsenal de ataques e o processo participativo que não entrava no fluxo de debate que foi construído em todos estes anos de trabalho da nova lei, levou-nos a pedir ajuda aos especialistas”, contou a coordenadora da Fundação Avina.

Neste momento, o AppCivico orientou o grupo de organizações sobre a postura a ser adotada, como a importância de dar uma resposta imediata às falsas notícias, mas que ela deve ser muito estratégica, assim como pensar a longo prazo.

“Quando se vivencia uma experiência no fakenews, é sinal concreto de que o debate do tema não é transparente, de que não há espaço aberto de diálogo e de ouvir a opinião do outro. Por isso, é preciso enfrentá-lo com estratégia de longo prazo, de formação de opinião pública, de investimento social sólido e consistente para que a opinião pública se alimente do que é saudável. E na democracia o que é saudável é o debate justo, adequado e transparente de ideias. E no fakenews não existe isso, pois ele se alimenta de medo, e influencia sobre opiniões públicas frágeis e com baixo nível de acesso a oportunidades de debate. Seguimos então as recomendações e estamos até hoje trabalhando neste sentido”, ressaltou Ofelia.

O MigraMundo, site com notícias sobre as múltiplas facetas que permeiam as migrações no Brasil e no mundo, também sofreu diversos ataques durante o processo de aprovação da nova lei. O editor Rodrigo Delfim lembra-se que recebeu muitos comentários no Twitter com críticas pesadas sobre a legislação. O jornalista também acompanhou de perto alguns protestos que foram realizados na Avenida Paulista em São Paulo, organizados por grupos conservadores, e identificou o discurso homofóbico entre os organizadores.

“Um levantamento realizado pela FGV sobre a citação que a Lei de Migração teve no Twitter mostrou claramente o impacto das fakenews. Mensagens de medo em relação ao outro foi muito maior do que todo o processo criado em torno da legislação. A lei veio de um debate longo de um grupo amplo, suprapartidário, e não foi decidida em gabinete. E as informações eram ao contrário. As fakenews desmentiram tudo isso”, lembra-se.

Segundo o fundador do MigraMundo, a questão é que as fakenews partem de fatos fictícios e criam uma narrativa sem relação com a realidade. “Só para termos ideia, na época da aprovação da lei, uma informação que começou a circular é que estavam chegando ao Brasil 13 navios com 1,3 milhão de terroristas muçulmanos. Absurdo! Esse é o número estimado total de imigrantes que vivem no Brasil. O jornal Nexo fez uma matéria, inclusive, mostrando que há mais de 3 milhões brasileiros vivendo no exterior. Ou seja, temos mais brasileiros migrantes morando em outros países do que imigrantes no Brasil”.

Caminhos possíveis de enfrentamento

Para os especialistas, o primeiro passo a fim de enfrentar esse fenômeno atual da sociedade, é investir numa comunicação de qualidade, ética, com valores, que apresente à população o que está ocorrendo a partir de fatos concretos, a fim de que possam tomar as suas decisões. “Essa responsabilidade passa, inclusive, por cada cidadão, tendo em vista que todos, hoje, não são apenas consumidores de informação, mas também produtores de conteúdo”, ressaltou Rodrigo Delfim.

Outro ponto fundamental, segundo Ofelia, é ajudar as novas gerações a se apropriar de forma crítica das novas tecnologias, a fim de que sejam participativos numa agenda positiva de desenvolvimento.

“Vivemos num mundo em que o processo participativo para gerar conhecimento se coletivizou. As revoluções tecnológicas destes processos são uma vitória do tecido democrático, mas nada é pacífico. Não existem vitórias que não precisam ser disputadas milímetro a milímetro para as forças do bem, para a democracia, a solidariedade, a justiça e a inclusão. Não temos respostas a todo esse desafio, pois tudo é muito novo, mas temos que ter as novas gerações utilizando a tecnologia para gerar conhecimento, compartilhar, mas orientados por um marco ético, que é de inclusão, da diversidade. E o investimento social privado tem que atuar aí”, acredita a coordenadora da Fundação Avina.

O tema

O tema da desinformação e manipulação do debate não termina por ai. “A sociedade atual se informa e se comunica muito online e o ambiente online serve de termômetro do que a população está pensando sobre determinado tema. As informações falsas podem afetar negativamente agendas que vem sendo trabalhadas há 10, 20 anos, e o investidor social não esta ileso a isso. Além disso, é papel do investidor social fortalecer a diversidade e o debate de qualidade, essenciais à democracia”, afirma Mariana Moraes, gerente de comunicação do GIFE, e completa “por isso convido a todos a debatermos o tema no próximo congresso GIFE, quando teremos uma mesa sobre o degradação do debate público, aberta ao público”.

Inspire-se

Veja como o tema da comunicação foi abordado nos Congressos anteriores:

2000: Mídia e investimento social privado: construindo o diálogo

2002: Da era da manipulação à era da informação – poder e a importância da mídia na construção da nova ordem social

2002: Ética e mídia – o investidor social privado como fonte de informação e a comunicação como prestação de contas à sociedade

2002: Ética e marketing – riscos e oportunidades do uso das técnicas e estratégias de marcadização pelas organizações sociais

2004: Conhecimento e comunicação – produção, propriedade e circulação de informação como instrumentos de democratização, poder e controle social

2006: Comunicação como instrumento de mobilização social

2012: Comunicação e mídias sociais

2014: Oficina de estratégia e design em campanhas de mobilização efetivas

2016: O papel do jornalismo em sociedades democráticas

Participe

O próximo debate online será no dia 20 de março, com o tema:Doações filantrópicas: é preciso tributá-las?” – Inscreva-se aqui.

Congresso GIFE

 

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