Especialistas traçam novos campos de ação para a atuação comum do público e do privado

 

A ideia de cidadania está classicamente inscrita em uma zona de intermediação desafiadora: entre o privado e o estatal, na afirmação de um espaço comum, que é de todos e no qual todos se vejam como parte. A habilidade para cultivar e preservar esse espaço, e promover modos de ação também compartilhados, constitui um fator decisivo para o êxito de toda coletividade.

O papel do investimento social e da sociedade civil como um todo é antes de tudo o de impulsionar este sentido comum, apoiando a construção contínua de novas respostas para os desafios públicos, expandindo as possibilidades de cooperação e ampliando as condições para mover-nos adiante.

Mas, como renovar e aprofundar as possibilidades de contribuição do setor privado e do investimento social neste cenário? Quais caminhos e prioridades para a criação de novas vias e frentes de ação coletiva no país hoje? Que temas e desafios contemporâneos podem nortear-nos na abertura desses caminhos?

Essas foram as questões que nortearam a mesa de encerramento do X Congresso GIFE, com a proposta de fazer uma reflexão estratégica sobre como o ISP pode ser mais inovador e que contribuições está pronto para dar como setor ao Brasil, que precisa se repensar e se redescobrir.

O debate focou em três eixos centrais trazidos pela mediadora Flávia Oliveira, jornalista do O Globo, como estruturantes de uma reflexão sobre cidadania: a importância da valorização da diversidade, a construção da ética nas relações público-privadas, e a sustentabilidade.

Átila Roque, diretor da Fundação Ford no Brasil, trouxe como ponto de partida da sua fala o olhar do principal bem comum a ser defendido no momento atual: a democracia, que apesar de muitos avanços ao longo dos 30 anos pós-Constituição, ainda é frágil, devido ao pouco tempo de experiência democrática do país, que tem na sua história quase três séculos de escravidão e uma desigualdade que se perpetua, seja em forma de racismo, violência para organizar o poder, seja na promoção ativa das diferenças da pior forma, que coloca alguns como portadores de direitos e outro não.

“A democracia como bem comum está em alto risco. Não podemos deixar de colocar isso, porque estamos vivendo um momento de crise em todas as instituições. A crise da legitimidade, de representação, e da liderança é um risco tremendo num momento de paradoxismos e de extremos, da intolerância, da incapacidade de nos escutarmos, da necessidade de cada um se reafirmar, da diminuição da empatia”, ressaltou.

Outro ponto fundamental a ser destacado, na visão do especialista, é o nosso papel no fortalecimento e renovação da sociedade civil. Ele lembrou que, ao longo da década de 80 e 90, se fez muito presente este conceito de cidadania ativa, no qual a sociedade civil reivindicou um papel importante na construção da ordem. Porém, muitos déficits se fizeram presentes nesta cidadania ativa, como os de representação, no qual o país não foi capaz de trazer para o centro da agenda a igualdade racial e de gênero.

Para rever este cenário, segundo Átila, é preciso fortalecer e renovar a sociedade civil e dar voz aos agentes que são capazes de fazer avançar essa agenda da igualdade. “E o terceiro e último ponto é reconhecer o lugar de privilégio que ocupamos. E isso precisa vir com muita responsabilidade, humildade e disposição para sair da frente, dar lugar a outros protagonismos e que outros ocupem lugares. Precisamos ter coragem de trazer o desconforto para o nosso meio. Não é simples, favorável, pois vai colocar em questão a nossa zona de privilégio. Mas é essencial sair do campo de conforto”, provocou à reflexão os presentes.

Ana Lucia Vilela, presidente do Instituto Alana, acredita que é preciso trazer para o centro do debate questões como corrupção, política, violência e tantos outros temas, considerados áridos pelos investidores sociais, de forma mais séria e constante.

“Não temos como ajudar o Brasil se não investirmos no que realmente é necessário. E isso significa apostar em todos os assuntos. É importante podermos usar as fundações e institutos como laboratórios de inovação e risco. Vamos testar mais. E esse aprendizado de inovação deveria ser refletido nas empresas. Elas poderiam aprender. As empresas estão mais longe da realidade social, as fundações estão mais próximas, conseguem ver a realidade da ponta. É muito mais fácil dar este termômetro”, destacou, ressaltando o encurtamento das distâncias entre empresas e ISP, e que o alinhamento cada vez maior das estratégias são pontos-chaves para que o movimento possa acontecer.

“Acredito que vamos chegar num momento em que tudo irá se fundir. E é justamente o que essa nova geração está fazendo, com a criação de empresas de impacto social. As empresas mais antigas têm muito a aprender com as empresas B, que já nascem para atender a sociedade da melhor forma possível. É interesse de todos terem um país melhor. Sabemos que o trabalho tem que ser colaborativo, tem que ser cada vez mais transparente e ético. Precisamos agora ajudar a construir isso a partir do nosso lugar”, completou a presidente do Alana.

Paula Bellizia, CEO da Microsoft Brasil, acredita que esse movimento já tem ocorrido nas empresas, que estão, cada vez mais, sentindo a necessidade de ter um propósito, a fim de garantir a sua sustentabilidade. Assim, esse olhar social precisar estar espelhado e alinhado à missão da empresa, com o objetivo de fato do negócio.

A própria sociedade tem questionado as empresas e exigido novos papéis no mundo atual. Na avaliação de Dario Guarita Neto, presidente do Conselho da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, os consumidores estão se apresentando como cidadãos conscientes e, portanto, exigido do setor privado novas posturas. Isso faz com que queiram saber a origem dos produtos que consomem, de que forma os processos produtivos estão sendo desenvolvidos, como as pessoas estão sendo respeitadas ou não ao longo desse trajeto etc.

“Essa nova abordagem muda o campo, pois acelera muito a empresa como grande solucionadora dos desafios da sociedade. E isso vem acontecendo numa potência inédita. Há pesquisas que mostram que 80% dos consumidores de até 35 anos procuram produtos que têm impacto positivo maior; que 76% dos profissionais buscam empregos em empresas que se apresentam como solucionadoras de desafios sociais, e estão dispostos a receber menos dentro das empresas com causas. É muito clara a revolução da sustentabilidade acontecendo, com a rapidez da revolução tecnológica”, pontuou.

Esta perspectiva dos consumidores, passa, antes de mais nada, segundo Sérgio Rial, CEO do Banco Santander no Brasil, pelo papel e responsabilidade de todos enquanto indivíduos. Ele questionou, em sua fala, a postura muitas vezes da sociedade civil em ser tutelada, seja pelo Estado ou pelo setor privado.

“Mas onde está o nosso papel enquanto protagonistas da transformação? O chamamento para o protagonismo individual é mais importante do que a espera da empresa e do Estado. Não são ações excludentes, mas tenho medo desta continua espera. É preciso agir e pensar: como eu sou ético como cidadão. A questão não é apenas o grande delito, mas o pequeno delito, a indiferença, o não olhar, o não se mobilizar. Cabe a mim, enquanto CEO de uma empresa com 47 mil funcionários, por exemplo, que essas vozes se alinhem a um processo de construção de uma agenda participativa e focada, mas é fundamental que todos eles sejam protagonistas da sua vida”, ressaltou.

Diversidade em pauta

Na avaliação dos debatedores, para gerar novos movimentos, processos mais criativos e, com isso, mais inovação também para mudanças concretas na sociedade, a discussão da diversidade precisa ser central. Os especialistas lembraram que muitos estudos e pesquisas já mostraram o quanto grupos heterogêneos apresentam melhores resultados e são mais sustentáveis. Portanto, diversidade deve ser valor de negócio.

A CEO da Microsoft Brasil acredita que as empresas precisam trazer para dentro delas os desafios sociais. “Se temos 51% de mulheres no Brasil e 26% de deficientes, então temos que ter essa proporção de profissionais com estas características na empresa. Eu sonho a representação da sociedade dentro da empresa e nas instituições. Temos que fazer isso”, disse.

Outro ponto fundamental destacado pelos especialistas é transformar esse olhar em metas e indicadores a serem acompanhados e mensurados de perto pela empresa, além de criar um ambiente favorável para que todos os profissionais possam se desenvolver plenamente e tenham as mesmas oportunidades de crescimento e desenvolvimento profissional.

“Precisamos de fato da presença dessa diversidade de pessoas para mudar processos internos. Nós, por exemplo, só mudamos várias coisas no ambiente do Instituto e nas iniciativas que promovemos quando passamos a ter uma pessoa deficiente no nosso GT de Inclusão”, comentou Ana Lúcia Vilela.

O diretor da Fundação Ford Brasil lembrou que os negócios só poderão avançar quando a igualdade for vivenciada de fato e, portanto, o papel do investimento social é apostar e investir em iniciativas de longo prazo, que estão de fato abrindo espaço para que novas lideranças se consolidem, que outros atores renovem a sociedade civil, e coloquem o privilégio em questão.

“É papel da sociedade civil empurrar os temas que vão ser contemporâneos da nossa geração. E os temas são estes, estes postos”, ressaltou Dario Guarita Neto.

Caminhando juntos

Para fechar os três dias intensos de discussão do Congresso GIFE, a presidente do Conselho de Governança do GIFE, Neca Setubal, e o secretário-geral do GIFE, José Marcelo Zacchi, apresentaram um balanço do evento e também trouxeram reflexões para a continuidade das ações.

Mais de 750 profissionais de diversos campos de atuação participaram da 10 edição do evento, que contou na programação fechada com 18 mesas e 81 palestrantes e, na programação aberta, com mais 30 mesas e 110 palestrantes.

Os debates puderam chegar também a um maior número de pessoas com a transmissão ao vivo da mesa de abertura (assista aqui) e deste painel de encerramento (veja mais aqui), além das dezenas de matérias publicadas pelos mais de 40 jornalistas credenciados e dos vídeos que estarão disponíveis em breve no Canal do Youtube de toda a programação, assim como os 10 mini-documentários que estão sendo produzidos pelo projeto DocMakers.

Na avaliação de Neca, neste Congresso, o campo foi capaz de dialogar e enfrentar questões difíceis, que não estão resolvidas, mas que são fundamentais para o fortalecimento da sociedade civil, assim como trazer um novo olhar para temáticas já consolidadas, estabelecendo correlações com as prioridades do país e os grandes desafios do setor.

“O novo foi ter um debate mais aberto sobre as questões postas e discutir sobre as dificuldades e barreiras encontradas”, comentou, lembrando as mesas que trouxeram à tona temas como avaliação, rede, educação, advocacy, marco legal das OSC, comunicação, negócios de impacto, entre outras.

“Um tema que perpassou todo o Congresso, que foi discutido no anterior e que ganhou força neste, foi a questão da equidade e diversidade. Acho que isso foi um marco importante que vem de uma caminhada do GIFE, pois são questões não só deste grupo, mas de todos. Hoje o bem comum é enfrentar as questões das desigualdades que se relacionam diretamente com todas as diversidades. Precisamos olhar para os nossos projetos e ver como podemos dialogar com todas essas questões”, destacou.

Para José Marcelo, foi possível perceber, ao longo do Congresso, a expansão de temas e de esforços de catalização de agendas, com discussões que conseguiram trazer oportunidades e possibilidades para além das crises atuais, mas que mostram a vitalidade e o potencial de encontro de atores diversos em busca do bem comum, com a força de redes construídas.

Projetos

O secretário-geral destacou ações que continuam pós-Congresso, como os projetos para a promoção da cultura de doação apoiados pelo Fundo BIS ao longo de 2018; a criação de uma Rede Temática sobre Gestão de Grantmaking; a disseminação da publicação ‘Olhares sobre a atuação do Investimento Social Privado no Campo de Negócios de Impacto’, lançada no Congresso; a realização e fortalecimento das redes regionais de ISP pelo Brasil; as ações a serem promovidas pela Rede Narrativas, também lançada no evento; e as novas atividades do ano previstas pelo Projeto de Sustentabilidade Econômica das Organizações da Sociedade Civil; aprofundamento dos dados do Censo GIFE; entre outras.

“A primeira ideia que fica é a de convergências, ou seja, de renovar o sentido de uma sociedade em que cada um produz respostas e se somam para construir respostas a melhores caminhos. A segunda é de reafirmar nortes: quando falamos de democracia, direitos e oportunidades, não estamos dizendo de uma agenda individual, mas de objetivos compartilhados da coletividade. Se trata de darmos uma contribuição para o país. Ou fechamos um ciclo ou podemos construir da crise a capacidade de avançar e ir para frente. Acredito que saímos daqui com o sentimento de possibilidades reafirmadas, de visualizarmos contribuições neste sentido de avanços”, concluiu.

Assista

O youtube do GIFE trará, nos próximos dias, todo o conteúdo do Congresso, na íntegra. Siga nosso canal e acompanhe.

 

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