Estudo alerta sobre evasão escolar de jovens no Brasil

Um em cada quatro jovens brasileiros de 15 a 17 anos não está frequentando o Ensino Médio. O dado alarmante e que revela a gravidade sobre a evasão escolar no Brasil faz parte da GESTA, Galeria de Estudos e Avaliações de Iniciativas Pública, lançado pela Fundação BRAVA.

A plataforma, criada para apresentar temas de interesse público de forma clara, tem como primeiro assunto o estudo “Políticas públicas para a redução do abandono e evasão escolar de jovens”, liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros e organizado pelo Instituto Ayrton Senna, Instituto Unibanco, Insper e pela Fundação BRAVA.

Segundo Marina Gattás, coordenadora de projetos da Fundação BRAVA, a ideia de criar a plataforma partiu do reconhecimento que, apesar do Brasil ter muitas informações advindas de pesquisas e estudos, faltava um lugar que reunisse dados e avaliações gerais das principais políticas públicas do país. “Nós desenvolvemos esse conceito de um lugar virtual, por uma questão de vazão e acesso, onde conseguíssemos ter um termômetro das principais políticas do Brasil. Além disso, a proposta é ter um verdadeiro repositório de tudo o que está sendo feito em relação a essa política, com exemplos de práticas”.

É importante considerar que a escolha do tema corresponde à Meta 3 do Plano Nacional de Educação (PNE) que objetiva a universalização, “até 2016, do atendimento escolar para toda a população de 15  a 17  anos”, além da elevação da taxa líquida de matrículas no Ensino Médio para 85%. Entretanto, nos últimos 15 anos, houve um aumento de aproximadamente 5% de jovens de 17 anos fora da escola. Segundo o GESTA, até o final de 2017, cerca de 27% dos jovens de 15 a 17 anos não irá concluir uma nova série por falta de engajamento.

O conteúdo disposto na ferramenta pretende chamar a atenção para esse que é um dos principais desafios do Brasil, apresentando suas causas, consequências e possíveis caminhos a serem seguidos. Marina defende que não se trata somente de reconhecer a evasão e o abandono escolar como problemas e buscar programas que ajudem a solucioná-los.

“Nós fizemos um diagnóstico bem denso do que está acontecendo, qual é essa realidade. Exploramos os detalhes das causas, o peso relativo de cada uma. Tudo isso para intensificar esse diagnóstico e mostrar possíveis caminhos para o gestor público, o policy maker de educação ou pessoas que estão muito próximas a políticas educacionais. O que falta é um diagnóstico mais profundo e uma proposta de política direcionada para atacar aquilo que foi identificado”.

Segundo a especialista, fazer um levantamento massivo de dados e um diagnóstico, que realmente transpareça a realidade, é o que falta para ter uma melhora expressiva. “Nós temos muitos programas, mas não sabemos quais estão dando certo. Falta essa parte de avaliação no Brasil”.  

Além disso, a coordenadora de projetos defende que a ferramenta GESTA serviu também como uma ponte entre a academia e a sociedade. Segundo Marina, existem muitas pesquisas e informações na universidade, mas há um abismo entre o conteúdo produzido e quem está efetivamente construindo as políticas públicas. “Ao longo desse processo de construção da plataforma, nós realizamos workshops com Secretarias de Educação e eles obviamente sabem que a evasão e o abandono são problemas e têm programas para isso. Mas nós trouxemos alguns dados e foi bem interessante ver como algumas informações são menos faladas, discutidas e conhecidas. Às vezes, eles fizeram o cruzamento de dados de um jeito e não do outro, e quando fizemos esse cruzamento com vários dados para a plataforma, acabamos levantando outras conclusões”.

Causas do abandono: contexto, motivação e compreensão

As causas do abandono e evasão escolar estão relacionadas a questões sociais, geográficas, econômicas, educacionais e até mesmo emocionais. As questões raciais também são envolvidas no problema. Um dado trazido pela plataforma é que somente 8% de alunos negros com mães analfabetas se formam com até um ano de atraso.

O infográfico vai além e compara aspectos futuros da vida de quem concluiu o Ensino Médio e quem abandonou os estudos. A probabilidade de uma pessoa ter uma ocupação formal aos 35 anos é de 77% para aqueles que completaram os estudos e 50% para quem saiu da escola. A renda mensal nessa mesma idade é outro aspecto que tem uma diferença grande: R$ 1425 contra R$ 643. Em resumo, completar o Ensino Médio proporciona que o indivíduo tenha um nível de qualidade de vida em torno de 83%, 1,7 vezes maior do que aqueles que não concluem essa etapa .

A partir dos dados da pesquisa de Paes de Barros, assim como outros estudos e evidências científicas nacionais e internacionais, a plataforma apresenta 14 fatores de desengajamento dos jovens, agrupados em três eixos: contexto, motivação e compreensão.

Em “contexto”, são apresentados sete impedimentos e fatores fora do âmbito escolar que colaboram para a evasão e o abandono. O acesso limitado a escolas é um dos fatores que afasta os jovens, principalmente em comunidades rurais ou urbanas isoladas. Nesse sentido, a plataforma apresenta como alternativas a construção de escolas, a promoção da educação à distância ou aumento de programas relacionados ao transporte escolar.

Outro fator que contribui para tirar os jovens da sala de aula são as necessidades especiais. Mais de 5% dos adolescentes declararam que abandonaram a escola seja por terem alguma deficiência, necessidade especial ou doença grave. Gravidez na adolescência também é um fator que pode diminuir o tempo de estudos. Segundo a plataforma, ao mesmo tempo que é necessário apresentar ações de prevenção, é preciso também acolher as grávidas, permitindo que levem os filhos à escola, caso preciso e sejam tratadas com respeito.

Já em “motivação”, a plataforma traz impeditivos encontrados na escola pelos estudantes que escolhem abandonar os estudos. Alguns fatores são: déficit de aprendizagem, falta de significado prático do currículo escolar, falta de flexibilidade e sensibilidade com relação às necessidades dos jovens, clima escolar que não proporciona acolhimento e motivação para permanecer na escola, entre outros.

Por fim, em “compreensão”, são apresentados fatores que fazem com que o estudantes escolham sair da escola sem ter tido informação sobre o valor da educação. Isso acontece, por exemplo, quando o jovem tem uma percepção equivocada da real importância da escola e da educação.

Frustrações com seu próprio desempenho acadêmico ou desentendimentos com professores, entre alunos ou problemas pessoais com família e amigos constituem os desafios emocionais que, muitas vezes, também são fatores de desengajamento. Segundo Marina, esse esforço de colocar no papel todas as possibilidades pelas quais os jovens saem da escola e dividi-las em três áreas é importante pois ajuda a entender que nem todos os motivos da evasão e do abandono estão ligados à escola. “Com essa divisão, nós começamos a refletir sobre onde está o problema. A resposta é que ele está em vários lugares. Logo, a solução não é única, não é uma política super focalizada. São necessárias múltiplas ações ou uma política que ataque diversos problemas simultaneamente para ter um resultado expressivo”.

O quarto item da ferramenta é um Painel de ações que mostra como o engajamento escolar está sendo incentivado tanto no Brasil como no mundo. A ideia é que, a partir do conhecimento de experiências bem sucedidas, todos os interessados no tema se inspirem e possam agir de alguma forma para combater a evasão e o abandono.

Atuação em diferentes esferas e níveis

Apesar do conteúdo da plataforma ter um apelo maior à gestores, diretores, coordenadores e professores, qualquer pessoa que se relacione com jovens no Ensino Médio podem acessar e aproveitar as informações disponíveis. Um exemplo é a família.

Marina defende que o incentivo familiar é muito importante, uma vez que sabe-se que pais que não cursaram o Ensino Médio têm chances maiores de terem filhos que também não frequentam a escola nessa idade. Segundo a coordenadora, uma das causas da evasão e abandono explicitadas na plataforma que ressalta a necessidade do jovem ser incentivado é a “percepção da importância”. “Nessa causa levantada no GESTA, nós vemos que, muitas vezes, o jovem não tem pessoas em volta dele dizendo: ‘estudar vai te ajudar a ser uma pessoa mais articulada, a se desenvolver socialmente, a ter um trabalho melhor’”.

A escola também tem um papel fundamental em mostrar aos adolescentes por que estudar é importante. “É papel da escola contextualizar o que ele vive no ambiente escolar com o projeto de vida dele. Precisamos pensar em como podemos fazer uma escola que tem sentido para o jovem contemporâneo e que o ajude nos desafios que ele vivencia hoje em dia”, ressalta Marina.

Nesse sentido de buscar novas alternativas para que os estudantes sintam-se motivados a continuar frequentando a escola e interessados no aprendizado, é possível que professores acessem o material disponível na plataforma e formulem novas propostas para sua sala de aula. “Para construir uma nova política pública leva tempo, planejamento, investimento. O objetivo da plataforma é justamente reforçar que todo mundo em volta desse jovem tem o seu papel. Todos podem e devem estar atentos às questões de evasão e abandono e ajudar a preveni-las”.

FacebookTwitterLinkedInGoogle+