Índice de Progresso Social é base para planejamento, gestão e avaliação de intervenções pelo país

E se empresas, moradores, organizações locais e governos se unissem para investir, de fato, no que é prioritário a um determinado território, cidade ou país para que todos pudessem ter mais bem-estar, usar o seu pleno potencial e construir uma sociedade mais justa, igualitária e sustentável?

Em alguns locais essa equação, que parece ser difícil de resolver, já tem conseguido avançar a partir de um diálogo comum baseado não em interesses próprios, mas em indicadores que mostram no que é necessário investir para que, coletivamente, possam ser pensadas ações eficientes e colaborativas. A base desta nova conversa tem sido pautada no Índice de Progresso Social (IPS), inicialmente proposto para a escala global, e que, no Brasil, tem ganhado novas aplicações em diferentes cenários.

O índice mede diretamente o progresso social de forma independente do desenvolvimento econômico em três dimensões: Necessidades Básicas, Fundamentos de Bem-Estar e Oportunidades. Além de trazer um diagnóstico sobre estes aspectos, apontando, portanto, as prioridades de atuação, a metodologia criada para sua aplicação exige a criação de um Fórum de Desenvolvimento Local – também chamado de colegiado, grupo etc. -, que visa reunir os vários setores da sociedade justamente para planejar ações a partir da leitura e análise dos indicadores.

Comunidades

A Coca-Cola e a Natura, por exemplo, estiveram à frente fomentando a primeira experiência mundial de elaboração de um IPS em nível de comunidades e com dados primários, ou seja, a partir de questionários aplicados. A região escolhida foi a do Médio Juruá, no Amazonas, local com mais de 50 comunidades ribeirinhas situadas às margens do Rio Juruá, no município de Carauari, a cerca de duas horas de voo de Manaus ou cinco dias de barco. Essa região, que tem mais 30 mil habitantes, é marcada por uma dispersão grande da população, na qual a presença do Estado com políticas é bem precária.

Neste local, as empresas estão presentes fomentando cadeias de fornecimento sustentáveis e a geração de valor compartilhado. Na região, já vinha sendo fomentado localmente um processo coparticipativo de fortalecimento das instituições locais, de criação de espaços de participação democrática da comunidade local e de engajamento de múltiplos atores, que culminou com a formação do Fórum de Gestão Territorial Médio Juruá, no qual o setor privado, governo, organizações de base, ONG´s e sociedade civil trabalham juntos em busca de soluções que enderecem os desafios locais para geração de impacto social positivo na região.

O grupo criou uma matriz de materialidade para definir suas ações e a aplicação do IPS Comunidades – primeira vez em 2015 – surgiu para trazer mais foco no que seria necessário para o local. “Com isso, foi possível ficar claro para todos que as escolhas não são individuais, mas sim coordenadas e colegiadas dentro de uma instância. Claro que não significa 100% de harmonia, as divergências ficam latentes, mas é importante para alinhar o que é de fato prioritário”, comenta Luiz André Soares, da área de Governo e Alianças Estratégicas da Coca-Cola.

Assim, o IPS foi elaborado de forma colaborativa, com participação ativa das organizações de base. As comunidades participaram da concepção dos questionários, adaptação das perguntas para as realidades locais e apoio no processo de aquisição das licenças necessárias para a realização do diagnóstico. O IPS Comunidades trouxe maior clareza às reais necessidades do território e se transformou em importante instrumento de diagnóstico e gestão das prioridades de desenvolvimento para o Território Médio Juruá. Segundo os coordenadores da iniciativa, isso foi fundamental para se ter uma linguagem comum no território para alinhar todas as ações. A partir de agora, o IPS será utilizado como instrumento de avaliação para medir o impacto das intervenções planejadas pelas empresas e demais entidades no território.

Na segunda aplicação no território, realizada agora em 2017, foi possível perceber diversos avanços – como a conquista do Fórum de um investimento do Ministério de Desenvolvimento Social em políticas de saneamento básico para a região –  e também retrocessos em alguns indicadores que, na percepção dos especialistas, é consequência, inclusive, de uma medição que antes não se fazia ou um novo olhar dos moradores para aspectos do território que eram banalizados e, agora, não mais.

“Um aspecto a ser muito comemorado é justamente o fato das entidades, agora, usarem o IPS para negociarem e utilizarem os indicadores tanto na captação de recursos quanto em ações de advocacy”, comenta Luiz André, destacando que o Instituto Federal local, por exemplo, pretende utilizar o IPS também como base para identificar o quanto os filhos dos ribeirinhos têm acesso à universidade e possam desenvolver ações para impactar no futuro nesta área.

Do Amazonas para Pernambuco

Um novo local que começa a dar os primeiros passos para aplicar o IPS Comunidades é a cidade de Goiana, no Estado de Pernambuco, localizada entre João Pessoa e Recife. Na cidade, quem está à frente desta articulação é o Grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e a Klabin. Como estabelece a metodologia do IPS, já foi articulado o primeiro encontro do Fórum de Desenvolvimento Local e, neste caso, quem fará a aplicação do IPS serão os alunos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), sendo que parte dos estudantes é de Goiana. O desafio agora será adaptar e alinhar o conhecimento científico com a cultura da comunidade, a fim de que o índice seja coerente com a realidade local.

O IPS será aplicado nos próximos meses e, até outubro, a expectativa é definir os temas prioritários para atuação do grupo a partir da análise dos resultados, que será feito para os cinco distritos do município, que têm particularidades e características bem diversas. Fernando Elias, do Grupo FCA, aponta que o IPS ampliará a quantidade e a diversidade de olhares sobre o território, possibilitando a definição de um marco zero para comparabilidade do “antes e depois” das ações locais, elemento importante para convencimento e engajamento da alta direção das empresas. “Mas enfatizamos que a empresa é só mais um membro do Fórum como qualquer outro”, ressalta.

O fórum pretende ainda envolver cada vez mais a Faculdade de Goiana, a fim de criar essa competência de aplicação do IPS na própria cidade. “Uma preocupação ética com essa ferramenta é de que o IPS não se transforme num fim. Ele é um instrumento, um pretexto, primeiro para ganhar consciência do que é realmente riqueza de uma sociedade e, segundo, de podermos exercitar um conceito de corresponsabilidade e colaboração”, completa Glaucia Barros, diretora da Fundación Avina no Brasil, membro da Rede de Progresso Social Brasil.

Engajamento

Focando o olhar agora num nível ainda mais territorial, uma nova experiência pretende trazer o IPS para a zona Sul de São Paulo, compreendendo os bairros de Campo Limpo, Jardim São Luís, Capão Redondo e Jardim Ângela, uma área com cerca de 1 milhão de pessoas.

O Sense-LAB – organização focada em estratégia, inovação e estruturação de negócios que criem valor compartilhado – em parceria com a Avina, irá incorporar a metodologia do IPS no projeto Ondas da Transformação, que recebe apoio da Fundação Arymax. A iniciativa pretende mapear e desenvolver uma série de estratégias para fortalecer o ecossistema existente nesta região, que já conta com uma forte presença de iniciativas de impacto social. A ideia é identificar oportunidades para que esse ecossistema possa interagir de forma mais estruturada e aproximá-los. O IPS entra na etapa de diagnóstico do projeto.

“Existe já uma rede de colaboração informal que pode ser potencializada a partir do momento em que se fala: vamos entender juntos o território e focar mais as iniciativas no que é preciso. Acredito que o IPS é uma ótima ferramenta para facilitar esse processo”, aponta Andreas Ufer, idealizador do Sense-Lab.

No local, o grupo está chamando a iniciativa de IPS Participativo. Isso porque a proposta é formar jovens para serem agentes de mudança local, aprendendo a metodologia de aplicação e análise, a fim de que o conhecimento fique dentro da própria comunidade. Em parceria com outras organizações, a proposta é formar o Núcleo de Estudos Avançados na Zona Sul, oferecendo, inclusive, uma formação mais ampla para os jovens em empreendedorismo.

Seminário

As iniciativas compartilhadas ao longo desta matéria foram apresentadas durante o I Seminário da Rede de Progresso Social Brasil, promovido em São Paulo, no dia 01 de setembro. Na ocasião, Erika Sanchez, gerente de Fomento e Inovação do GIFE, destacou o desafio que ainda existe de promover avaliações de impacto em iniciativas de investimento social privado e a necessidade de se avançar neste aspecto.

Glaucia Barros apontou também o quanto o Brasil tem potência de levantar dados e informações, mas que é preciso caminhar mais numa análise qualificada e consistente para que essas informações possam ser utilizadas de maneira estratégica para tomadas de decisão.

Segundo os presentes, iniciativas como as fomentadas pela metodologia do IPS, como a criação dos fóruns, por exemplo, podem ser formas consistentes de incentivar, inclusive, atuações mais conjuntas entre os setores da sociedade, ajudando os investidores sociais a encontrar novos modelos de atuação colaborativa.

Na ocasião, foram apresentados ainda os resultados do Índice de Progresso Social 2017 (veja o resumo executivo), no qual o Brasil ficou em 43ª posição.

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