Estudo da Pretahub mapeia três perfis de empreendedores negros no Brasil

De um universo de pouco mais de 210 milhões de habitantes no Brasil, cerca de 99 milhões de pessoas declaram-se como pardas e 20 milhões como negras, conforme apontado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso significa que 119 milhões de brasileiros, 56,75% da população, são negros ou pardos. O racismo estruturado e institucionalizado, entretanto, invisibiliza essa fatia – que é maioria dos brasileiros -, desde espaços de lazer até o mercado de trabalho. 

Dados do Censo GIFE 2018 apontam que, apesar da diminuição – de 71% para 58% – de organizações que contam exclusivamente com pessoas brancas e o aumento – de 20 para 31% – da proporção de investidores sociais com conselheiros de diferentes cores e raças, o caminho a ser percorrido para alcançar a equidade racial ainda é longo. Isso porque apenas 8% das 133 organizações respondentes conta com negros em seu conselho deliberativo e 19% com conselheiros pardos. 

O guia O que o ISP pode fazer por Equidade Racial? traz outros dados alarmantes no que se refere a pobreza e violência: mais de 70% da população negra brasileira vive em situação de extrema pobreza, além de 71% das vítimas de homicídio serem negras e representarem 61,6% da população carcerária no Brasil. 

Frente a esse cenário, a Pretahub, hub que concentra o trabalho do Instituto Feira Preta, em parceria com JP Morgan e Plano CDE, realizou o estudo Empreendedorismo Negro no Brasil 2019. Entre as principais descobertas, a pesquisa desenha o perfil do empreendedor negro brasileiro: a maioria identifica-se como pardo (81%), é mulher (52%), tem menos de 40 anos (69%), mora nas regiões Sudeste (40%) ou Nordeste (31%), estudou até o Ensino Médio (49%) e possui renda familiar de até R$ 5 mil (37%). 

Para Adriana Barbosa, CEO da PretaHub e presidente da Feira Preta, a pesquisa é uma forma de obter dados que ajudem a dimensionar o real impacto das ações realizadas com foco no desenvolvimento econômico da população negra, além de ressignificar o que já se sabe sobre empreendedorismo negro no Brasil. “Temos 131 anos pós-período abolição e, se tem algo que fez com que a população negra sobrevivesse ao racismo estruturado e, muitas vezes, institucionalizado, foi o ato de empreender. Empreendemos há 13 décadas de forma potente, mesmo diante de nossas vulnerabilidades.”

Gilberto Costa, co-chair do BOLD, grupo de Equidade Racial do JP Morgan, defende que a pesquisa possibilita maior compreensão sobre os desafios enfrentados por empreendedores negros, inclusive com discussões relacionadas a diversidade de perfis e potências, de forma a compreender como é possível apoiar o pleno desenvolvimento dessas pessoas e negócios. 

Principais achados 

A pesquisa dividiu os entrevistados em três perfis: os que empreendem por necessidade, por vocação e os engajados. Dos que empreendem por necessidade, 46% justifica a ação pelo desemprego, acentuado pela dificuldade de acesso ao mercado de trabalho. 

51% dos que empreendem por vocação afirmam que sempre tiveram esse desejo – seja por familiaridade com a atividade, desejo de ser autônomo e, muitas vezes, dificuldade de se adequar ao mercado de trabalho -, sendo que 95% quer ampliar seu negócio no período de um ano. É esse tipo de empreendedor que “sente necessidade de mostrar valor independente da raça, muitas vezes separando o próprio trabalho como empreendedor da luta contra o racismo”, revela o estudo. 

Os empreendedores engajados, que se autodenominam afro empreendedores, se identificam e têm prazer e senso de oportunidade com a atividade. Em muitos casos, eles somam o desejo de empreender com o exercício de uma atividade autoafirmativa voltada ao público afro. 31% deles acredita que sua maior qualidade é a articulação de sua cultura e produtos e 36% trabalha com inovação. 

O racismo como estrutura da sociedade 

Diante do levantamento, apresentam-se alguns desafios para que o ambiente empreendedor acolha e dê oportunidade às pessoas negras. O primeiro deles é fazer com que os empreendedores por vocação tornem-se empreendedores engajados. Segundo Adriana, essa é uma forma de fazer o ‘black money’, ou seja, promover a desconcentração de renda. “Teremos mais empreendedores negros para atender à demanda de consumo da população negra, fazendo a circulação monetária aumentar.” 

O acesso a crédito é outra barreira a ser superada. A pesquisa aponta que a maioria iniciou seus negócios com poupança própria ou de familiares/amigos. “Muitos não tentam ou não conseguem acesso a crédito ou investimento no valor necessário para ampliar seu negócio. Nessa frente, o apoio na simplificação do acesso e mesmo na decisão sobre o tipo de capital – crédito regular ou investimento – devem ajudar a destravar o crescimento”, explica Gilberto. Adriana ratifica ao afirmar que, em muitos casos de tentativa de articulação com bancos, são registrados casos de racismo institucional. 

Gilberto reforça ainda a frequente solidão dos empreendedores em atividades relacionadas a gestão financeira e comunicação do produto ou serviço. “Nesse ponto, é possível apoiar por meio de treinamento, tecnologia ou prestação de serviços que ajudem a otimizar alguns processos.” 

Outro ponto que merece atenção é a subjetividade e as motivações das pessoas. Segundo Adriana, pelo fato de o empreendedor, muitas vezes, não se reconhecer nesse lugar de empreendedorismo, geração de novas ideias e de potência, é preciso reforçar a autoestima das pessoas e de suas capacidades. 

Soluções e oportunidades 

Para Adriana, o primeiro passo para superar os desafios que pessoas negras enfrentam na hora de empreender é reconhecer que o racismo não só existe no Brasil, como é institucionalizado e opera os negócios. 

Em seguida, a CEO reforça que é necessário ter uma atuação sistêmica e um olhar de ecossistema para desenvolver o tema no país. “O problema relacionado à questão da discriminação racial não é só uma questão das pessoas negras, mas de todos. Por isso, precisamos ter o estado, a academia, as empresas, as instituições, aceleradoras e incubadoras no papel de suporte ao empreendedorismo.” 

Gilberto aponta que existem outras possibilidades para não só aportar capital, como apoiar organizações a expandirem seus programas. Além disso, também é possível a realização de consultorias e assessorias pro-bono aos negócios. “O importante é conectar-se a esse rico ecossistema, buscar aprender junto, apoiar o desenvolvimento dessas organizações com base em suas necessidades e desenvolver parcerias, considerando que a maioria delas, inclusive, é liderada também por potentes empreendedores negros.”

Nesse sentido, o investimento social privado tem muito a contribuir, incentivando a presença de pessoas negras no ecossistema empreendedor. Adriana reforça que o olhar para esse empreendedorismo deve considerar suas pluralidades e singularidades. Mas, para isso, é necessário mais acesso a educação e cultura empreendedora.

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