Fundação FEAC desenvolve projeto para incentivar inserção de jovens com deficiência no mercado de trabalho em Campinas

Capacitar jovens de 16 a 24 anos com deficiência e incluí-los no mercado de trabalho em Campinas. Esse é o objetivo do Projeto Lab Inclusão, da Fundação FEAC. A iniciativa surgiu a partir da reflexão sobre a complexidade do tema e faz parte do programa Mobilização para Autonomia (MOB) da Fundação, que prevê a inclusão da pessoa com deficiência por meio da remoção das barreiras sociais.

Regiane Fayan, coordenadora do Lab Inclusão, explica que o MOB tem quatro eixos de atuação: educação inclusiva, pertencimento ao território, empregabilidade da pessoa com deficiência e mobilização da sociedade. “No Censo de 2010, Campinas tinha 153.097 pessoas com deficiência em idade de trabalho. Já o RAIS [Relação Anual de Informações Sociais] de 2015 apontou que 3.260 pessoas com deficiência estavam contratadas, o que equivale a 51,5% das cotas preenchidas no município. Se todas as empresas com mais de cem funcionários cumprissem a lei, 6.336 pessoas estariam contratadas.”

Esse cenário também foi percebido pela Associação de Educação do Homem de Amanhã (AEDHA), conhecida como Guardinha, que procurou a FEAC para uma parceria. Hoje, a Guardinha recebe apoio da Fundação para desenvolver o projeto Aprendizagem Profissional por meio da metodologia Emprego Apoiado (EA), criada nos Estados Unidos para, a partir de assessoria, orientação e acompanhamento personalizado, contribuir para a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

“Nós estávamos em busca de uma solução para um dos eixos do MOB, que seria o aumento da empregabilidade. Acabamos por entrar em contato com uma instituição, a Guardinha, que não trabalha especificamente com pessoas com deficiência, querendo aumentar a empregabilidade desses jovens via Aprendizagem Profissional”, explica Regiane.

Segundo a coordenadora do projeto, a ação nasceu pela percepção da Fundação FEAC sobre a combinação entre duas de suas frentes de trabalho: a inclusão da pessoa com deficiência e o investimento no jovem. “Resolvemos investir quando percebemos que há uma porcentagem muito pequena de jovens de Aprendizagem Profissional indo para o mercado de trabalho. O foco da Fundação FEAC é a inclusão da pessoa com deficiência de maneira geral, mas, neste momento, estamos vendo um grande potencial em incluir os jovens no mercado de trabalho.”

Além da Guardinha, o projeto Lab Inclusão também conta com parceria com a Sorri Campinas, instituição que realiza inclusão de pessoas com deficiência acima de 18 anos via Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ester Barros, coordenadora pedagógica da Sorri Campinas, explica que jovens que chegam na instituição têm duas opções: o encaminhamento para a Guardinha para passar por uma capacitação ainda como jovem aprendiz ou já ingressar no mercado de trabalho pelo regime de cotas. A escolha cabe ao jovem.

“O projeto é focado no usuário, então conversamos com os jovens para que eles possam escolher. Muita gente prefere começar como aprendiz, porque às vezes está insegura, é primeiro emprego, então querem experienciar o mercado de trabalho ainda sem o registro”, explica Ester.

Assim como a Guardinha, a Sorri Campinas também segue a lógica de incluir para depois capacitar ao oferecer acompanhamento do jovem depois que ele já está inserido na empresa, com serviços de avaliação, mapeamento de pós-trabalho, análise de funções, levantamento de vaga e perfil profissional, palestras de sensibilização, mobilização e orientação, rodas de conversa, entre outros.

O início do processo

As equipes das três instituições envolvidas no projeto participaram de formações e imersões com consultores do Instituto de Ensino e Pesquisa da Apae de São Paulo para entenderem como desenvolver o processo e a metodologia da melhor forma.

Para entender como todo o processo acontece, é preciso saber que a Guardinha já realizava a Aprendizagem Profissional com acompanhamento e formação de jovens. “Quando incluímos a metodologia do Emprego Apoiado, tudo casou muito bem porque é uma mentalidade de incluir para depois qualificar”, explica Amanda Pedrini, coordenadora técnica do projeto Aprendizagem Profissional na Guardinha.

O primeiro passo é mapear jovens com deficiência em situação de vulnerabilidade a fim de buscar por aqueles que não têm oportunidade e qualificação. “São jovens que não têm conhecimento, mas que podem ser produtivos em uma empresa. Temos parcerias com entidades de Campinas que já desenvolvem trabalhos com pessoas com deficiência, Centros de Referência de Assistência Social [CRAS] e Centros de Saúde para que possam fazer o encaminhamento para a gente. A partir disso, eles entram na Guardinha pelo Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo”, ressalta Amanda.

Trata-se de um programa de oficinas para que os profissionais da Guardinha possam conhecer habilidades que os jovens já possuem. Segundo Amanda, as oficinas são lúdicas e possuem diversas temáticas como esporte, participação e lazer, artes circenses, artes cênicas, inclusão digital, web designe e orientação para o mundo do trabalho. “Nós trabalhamos o desenvolvimento de habilidades e competências a partir das atividades lúdicas. Assim, conseguimos fazer o mapeamento de cada um deles”, completa. Nesse processo, os jovens são acompanhados por psicólogos e educadores que prezam pelo desenvolvimento integral da pessoa.

O passo seguinte é verificar a disponibilidade de vagas. O processo começa com a ida de um profissional da Guardinha até empresas com o objetivo de entender as demandas e especificidades da vaga disponível. “O nosso profissional, juntamente com um gestor daquela área, faz um mapeamento da vaga já pensando nas possibilidades do trabalho e as competências da pessoa que vai ser incluída. Nós não pensamos na deficiência, mas nas habilidades que ela já adquiriu”, explica Amanda.

Depois disso, o jovem é encaminhado e em seguida é feito um acompanhamento in loco desse profissional, com sensibilização de diversas áreas das empresas, pensando nos apoios necessários para que aquela pessoa consiga desenvolver suas atividades de forma satisfatória dentro da empresa.

As formações profissionalizantes

Depois de contratados, os jovens iniciam o processo de formação profissional. Durante um determinado período, passam quatro dias por semana na empresa recebendo formação mais prática e um dia na sede da Guardinha, onde têm o curso de formação com disciplinas determinadas pelo Ministério do Trabalho como cidadania, segurança no trabalho, saúde e qualidade de vida, inclusão digital, esporte, entre outras.

A capacitação teórica pode ser realizada em cinco formações com focos específicos: Arco Ocupacional em Administração, Auxiliar Administrativo, Comércio Varejista, Arco Ocupacional Administrativo para setor bancário e Arco Ocupacional em Educação. “A partir das oficinas, nós fazemos o encaminhamento desse jovem, mas ele também tem a liberdade de escolher. Às vezes, ele não tem interesse em determinada área, por isso sempre consultamos a pessoa, já que isso é um interesse dela”, explica Amanda.

Já a parte prática é de responsabilidade das empresas que aplicam o programa. Segundo Amanda, o processo de busca de empresas divide-se em dois: tanto profissionais da Guardinha levantam e relacionam empresas interessadas em participar do projeto, quanto organizações interessadas entram em contato com essa demanda.

Depois de orientadas sobre o processo do Lab Inclusão, cada empresa deve escolher uma pessoa para ser o orientador responsável do jovem que irá ocupar a vaga. “O jovem vai aprendendo na prática de fato. Ao mesmo tempo, nós da Guardinha temos um profissional que faz um acompanhamento para dar orientação a esse tutor, para que ele saiba orientar o jovem na empresa e trabalhar eventuais dificuldades”, ressalta Amanda.

Expectativa e próximos passos

Atualmente, o Lab Inclusão está na fase de captação de empresas interessadas em ajudar na missão de inserir jovens com deficiência no mercado de trabalho.

Como as organizações passaram recentemente pela formação da APAES, elas devem amadurecer essa tecnologia social dentro do intervalo de dois anos. “A ideia é que, pelo menos em Campinas, juntamente com outras instituições, a gente possa formar uma rede dessa metodologia para que mais pessoas tenham a possibilidade de acesso ao mercado de trabalho”, explica Regiane.

A coordenadora também ressalta que o movimento é buscar apoios naturais dentro das empresas com a gradual retirada dos acompanhamentos realizados pela FEAC, Guardinha e Sorri Campinas. “Nós temos visto que muitas empresas têm boa vontade na hora de incluir, mas não sabem como fazê-lo. Quando há um apoiador, uma instituição e profissionais capacitados para ajudá-la, percebemos que elas têm se sentido mais confortáveis e amparadas.”

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