Fundo BIS divulga vencedores do seu primeiro edital de fomento à cultura de doação no país

O Fundo BIS – primeiro fundo brasileiro destinado exclusivamente para ampliar a cultura, o volume e a qualidade das doações no país – acaba de anunciar os quatro projetos vencedores do seu primeiro edital. Todas as iniciativas visam criar um ambiente cada vez mais favorável e motivante para que todos os brasileiros e brasileiras tenham causas e sejam, com orgulho, doadores e doem cada vez mais.

Isso porque, apesar do Brasil ser um país solidário – a maior parte dos brasileiros (77%) fez algum tipo de doação em 2015 (seja de tempo, bens ou dinheiro) -, é preciso avançar. Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, a doação representa 2% do Produto Interno Bruto do país, por aqui, mesmo com 52% dos brasileiros doando dinheiro, esse número representa apenas 0,23% do PIB nacional, segundo dados das pesquisas Doação Brasil (2015) e ‘Eficácia dos Investimentos Sociais’ McKinsey (2008).

O Fundo BIS vem ser um impulsionador para mudar esse cenário. A iniciativa nasceu de um grupo de organizações da sociedade civil com reconhecida atuação no campo socioambiental que se uniu em prol da causa. Neste primeiro edital, o Fundo BIS está sendo incubado pelo GIFE, com aportes do Instituto Arapyaú, do Instituto C&A, do ICE -Instituto de Cidadania Empresarial e do Instituto Cyrela.

Ao todo, 218 projetos se inscreveram para esta primeira edição do edital. Os projetos foram avaliados segundo critérios como: foco na promoção da cultura de doação; impacto coletivo/desenvolvimento do campo; histórico positivo dos proponentes; e viabilidade de implementação da iniciativa. Ao todo, serão investidos R$280 mil nas iniciativas em quatro frentes: inovação para promoção da cultura de doação; campanhas de comunicação e produção de conteúdo de incentivo à cultura de doação; pesquisa, produção e disseminação de conhecimento; e advocacy e incidência.

Conheça os projetos vencedores:

Marco Bancário da Doação

Criar um ambiente mais favorável à doação passa, necessariamente, por mudanças de ordem legislativa, jurídica, normativa e tantas outras regras que regem o país. Essa é a aposta dos diversos especialistas no campo. Neste sentido, um dos projetos vencedores, apresentado pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), é a construção de um Marco Bancário da Doação.

Segundo João Paulo Vergueiro, diretor executivo da ABCR, o sistema financeiro ainda não diferencia a doação de um pagamento, o que acarreta uma série de entraves para as organizações da sociedade civil. Um exemplo é no momento de emissão de boleto. Hoje, se a OSC deseja incentivar as doações via boleto bancário, precisa emitir um boleto de pagamento, o que dificulta, pois essa ferramenta não permite deixar campos abertos para que a pessoa doe quanto e quando quiser – sem necessidade de ter uma data fechada para a transferência do dinheiro.

“Já tivemos várias conversas com o sistema bancário, mas até então era algo para tentar resolver caso a caso. Percebemos a necessidade de criar uma regulamentação específica e construir no Brasil um marco próprio junto ao sistema financeiro. Decidimos então construir a proposta da sociedade civil para regulamentar a doação. Com o apoio do Fundo BIS, vamos conseguir viabilizar a primeira fase do projeto, com a contratação de um escritório de advocacia que irá nos ajudar a elaborar esse marco, com tudo o que diz respeito à doação e transação financeira – no cartão de credito, boleto, débito em conta, transferência bancaria etc. Em janeiro, inclusive, vamos lançar uma consulta pública para que todas as organizações possam dar sugestões. Com o documento em mãos, vamos apresentar ao Banco Central. A ideia é que as doações sejam facilitadas pelos bancos e não prejudicadas”, comenta o diretor da ABCR.

Plataforma Viralize

Ampliar a cultura de doação passa por fomentar e dar escala a um processo intenso de comunicação. Isso fica evidente na Pesquisa Doação Brasil, do IDIS. Questionados sobre o que fariam mudar de ideia e passar a doar, grande parte das respostas tem ligação direta com o ato de comunicar: 16% a entidade ser mais transparente; 13% conhecer uma organização; 9% comprovação da necessidade do ser humano.

Quem doa também tem suas referências a partir do que é divulgado: 74% buscam informações sobre as organizações antes de doar. Outro ponto central é que as pessoas mais doam quanto mais próximas estão da causa: 87% escolhem com cuidado a causa e 11% passariam a doar diante da sensibilidade, envolvimento e solidariedade com a causa.

Os doadores ressaltaram que a forma mais indicada de abordagem para fomentar a doação é a divulgação por meio de redes sociais, se possível com elementos tangíveis de credibilidade da instituição e sem insinuação de obrigatoriedade.

A Viralize – projeto vencedor do Fundo BIS – une estes três aspectos – necessidade de divulgação, proximidade à causa e acesso às novas tecnologias. A ideia é usar a oportunidade de conversar com uma audiência grande – (90,8% dos internautas brasileiros acessam redes sociais; as pessoas ficam conectadas, em média, 4h59 por dia; 94% são usuárias do Facebook) por meio de influenciadores digitais.

A partir da disponibilização de conteúdos em diversos formatos, a proposta é conectar uma enorme audiência hoje presente na internet a causas relevantes e urgentes em busca de financiamento. A ponte entre estes dois mundos serão os influenciadores digitais. Hoje, segundo a Rede Snack há cerca de 310 mil canais de vídeo on-line no país e na lista dos 100 canais mais influentes do mundo, 24 são brasileiros. Com isso, esperasse trazer novos públicos e formadores de opinião para a conversa sobre a cultura de doação, ampliando o impacto do campo e permitindo que o tema se espalhe em diversas frentes.

“Como a Viralize irá selecionar projetos disponíveis hoje em plataformas de financiamento colaborativo (que buscam de pequenas a grandes doações) e irá oferecer um cardápio temático aos influenciadores digitais, será possível conectar o projeto a um amplo público: desde um grupo de mães que acompanha instagramers de maternidade e, portanto, sensíveis a causas da infância; chegando a centenas de jovens que acompanham blogueiras que falam sobre alimentação, que podem ser mobilizadas a doar a projetos de combate à desnutrição. O projeto tem a possibilidade, portanto, de convidar novos elementos para essa conversa – em especial o público jovem, que tem demonstrado, cada vez mais, a sua vontade de atuar em causas sociais. A cultura de doação, assim, se capilariza pelas ondas da internet”, comenta Daniele Próspero, sócia-diretora da empresa Estúdio Cais – Projetos de  Interesse Público, proponente do projeto.

E a comunicadora completa: “Ao mesmo tempo, com a produção de conteúdos qualificados sobre o tema a serem disponibilizados na plataforma Viralize, esperamos gerar um novo olhar sobre a importância da doação para o fortalecimento das OSCs”.

Ferramenta de arredondamento

O Movimento Arredondar é assim: os consumidores têm a oportunidade de arredondar o valor da conta nos locais que aceitam arredondar: R$ 22,70 vira 23,00, por exemplo. Todo valor arrecadado vai diretamente para organizações sociais selecionadas que trabalham pelos 8 Objetivos do Milênio, da ONU. A ideia tem dado tão certo que já envolveu mais de 7 milhões de doadores, com R$ 1.518.552,86 arredondados. O esforço valeu também alguns reconhecimentos, como a conquista de um edital do Google, o Prêmio Empreendedor Social de Futuro 2016 e o Prêmio Trip Transformadores 2017.

Mas, para dar escala a esta ideia é preciso ir além das lojas físicas e ganhar os consumidores da internet. Por isso, o Arredondar irá colocar em prática, também com o apoio dos recursos recebidos via Fundo BIS, uma nova ferramenta de arredondamento, agora para e-commerce. “Esse novo projeto ajuda muito na nossa missão, que é ampliar a cultura de doação. Trabalhar no universo online é o futuro. Acreditamos que, com a ferramenta, teremos muito impacto a médio e longo prazo”, comenta Nina Valentini, presidente do Arredondar.

O projeto prevê apresentar a ferramenta a algumas plataformas que têm vendas online – tanto lojas que já são parceiras do Movimento quanto novos contatos – para estabelecer a parceria.

Pesquisa comportamental sobre doadores médios

Conhecer e saber o perfil e o comportamento dos doadores é ponto de partida fundamental para que as organizações da sociedade civil possam pensar e traçar as melhores estratégias de mobilização de recursos. Atentas a esse disparador, a Conectas – organização de Direitos Humanos – juntamente com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) – percebeu que existia ainda um gap de informações a respeito de um tipo de potenciais doadores: brasileiros com alta faixa salarial.

“Muitas das pesquisas que temos até agora traçam esse panorama a respeito dos pequenos ou grandes doadores. Sentimos falta desse grupo de profissionais que pode ser ativado e mobilizado para doar mais. Decidimos então, junto com o professor Mario Aquino Alves, da FGV, propor para o Fundo BIS a realização de uma pesquisa a fim de conhecermos as motivações e o que incentivaria esse grupo a doar mais”, explica Amanda Fazano, coordenadora de Captação de Recursos da Conectas.

Outro ponto a ser observado será entender o que motivaria estes possíveis doadores a direcionarem recursos especificamente para OSC que atuam com direitos humanos, tendo em vista que muitas destas organizações têm visto, cada vez mais, seus recursos diminuírem nos últimos anos.

Para desenvolver o estudo, Conectas e FGV pretendem formar um grupo focal com esse perfil para, em seguida, ter os insumos necessários a fim de lançar uma pesquisa online para todo o Brasil. Com os resultados consolidados, a proposta é aproveitar a expertise da Conectas em disseminar e compartilhar conhecimentos e experiências, para divulgar os achado do estudo. Estão previstos o lançamento de um hotsite e um evento. “Com isso, pretendemos inclusive reunir captadores que atuam com direitos humanos para pensarmos em estratégicas específicas para este público de potencial doadores”, destaca Amanda.

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