GIFE promove encontro entre investidores sociais brasileiros e membros da European Venture Philanthropy Association

Reunião oportunizou troca de conhecimentos e debate sobre o tema, além de um diagnóstico inicial de iniciativas brasileiras que possuem similaridades à abordagem.

“A preocupação constante em buscar formas sustentáveis de financiamento e qualificação dos projetos socioambientais para que autonomia, escala e impacto aconteçam é algo que permeia muitas de nossas discussões na tarefa de aumentar recursos privados para promoção do bem público.”

A reflexão acima é de autoria de Camila Aloi, assessora de relacionamento do GIFE, e Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin, em artigo publicado no site do GIFE no início deste ano sobre o conceito de Venture Philanthropy (VP). O modelo se baseia no tripé “impact management, tailored finance e non-financial support”, que pressupõe mensuração do impacto dos resultados, customização do financiamento e suporte além do financeiro por meio de processos de mentoria.

O assunto tem entrado na pauta de debates do GIFE, que em novembro de 2018, participou da 14a Conferência Anual da European Venture Philanthropy Association (EVPA), realizada em Varsóvia, na Polônia. Reconhecido como o maior evento de Venture Philanthropy, a conferência tem reunido diferentes atores do setor da filantropia a fim de promover uma maior cooperação para a resolução dos desafios socioambientais do planeta.

Na ocasião, o GIFE promoveu a ida de uma delegação latino-americana composta por 20 representantes de instituições do Brasil, Peru, Chile, México e Colômbia, que tiveram a oportunidade de participar de uma formação introdutória sobre o tema e de trocar experiências e pensar caminhos de maior integração. Em continuidade aos debates promovidos pela conferência, um novo encontro foi realizado pelo GIFE no último dia 12 de fevereiro, em que associados e parceiros realizaram um diálogo com representantes da EVPA.

Com 800 membros ao redor do mundo articulados na European Venture Philanthropy (EVPA), na Asian Venture Philanthropy Network (AVPN) e na African Venture Philanthropy Alliance (AVPA), o grupo espera aumentar os recursos e trazer novos atores para o setor por acreditar que quanto mais global esse ecossistema, mais próximo o mundo estará da resolução de seus problemas mais complexos. Ao longo de 2018, membros da EVPA visitaram mais de 300 organizações na América Latina com o objetivo de aproximar o tema dos atores locais. A expectativa é fomentar a articulação de uma rede regional.

“Como plataforma articuladora do investimento social privado no Brasil, o GIFE entende como muito relevante esse encontro entre os membros da EVPA e o coletivo que esteve em Varsóvia e outros associados e atores do setor para uma maior compreensão do conceito de Venture Philanthropy e identificação das sinergias e oportunidades de trabalho em rede, mirando assim o fortalecimento da rede brasileira e também oportunizando uma conexão global e regional no nível da América Latina”, afirma Aloi.

Conceito

O conceito de Venture Philanthropy tem origem nos Estados Unidos na década de 1990 influenciado por filantropos oriundos do mercado de Venture Capital e Private Equity. No início dos anos 2000, a modalidade chegou à Europa a partir do Reino Unido.

No Brasil, ainda há pouca sistematização sobre o assunto e o termo não foi devidamente traduzido e incorporado: ora é usado como ‘filantropia estratégica’, ora como ‘filantropia de risco’. Segundo Doug Miller, criador do conceito e um dos fundadores da EVPA, Venture Philanthropy é uma das ferramentas disponíveis no campo da filantropia e do investimento social privado que visa a ampliar o impacto socioambiental positivo a partir de princípios-chave de financiamento de longo prazo e capacitação para a construção de organizações fortes e sustentáveis.

Camila concorda que as organizações se fortalecem nessa complexidade de olhares para o projeto. “Eu gosto muito da possibilidade que a Venture Philanthropy traz de olhar para os projetos com uma visão de longo prazo, além da avaliação contínua e dessa troca de expertise que aproxima muito o financiador do financiado e vai gerando empatia e melhor compreensão de ambas as partes, o que fortalece todo esse ambiente.”

Na ocasião do encontro com os membros da EVPA, os participantes tiveram a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre esses aspectos. Eles apresentaram os quatro princípios-chave da Venture Philanthropy: diversidade de investidores; investimento disciplinado; investimento com foco no impacto, a despeito do retorno financeiro; e redes independentes focadas em seus próprios cenários.

Doug ressaltou a relevância da diversidade de investidores que a Venture Philanthropy oportuniza. “A VP nos ensinou a importância do marketing direcionado para os sete diferentes segmentos: fundações, instituições familiares, profissionais de private equity e hedge funds, corporações, empresas de serviços profissionais, universidades e organizações governamentais.”

“O que a EVPA nos diz é que essa rede coloca diversos tipos de investidores no mesmo bloco e isso atrai o capital, valoriza a colaboração e facilita o acesso a conhecimento e iniciativas globais. A VP nos traz a possibilidade de olhar para os novos players que ainda não estão envolvidos com filantropia e de dar a esses investidores a oportunidade de olhar com confiança para o ecossistema e aportar mais recursos com o propósito de traçar caminhos para contribuir com a resolução dos problemas mais complexos”, ressalta Camila.

Mapeamento de iniciativas brasileiras

No contexto brasileiro, o interesse pela abordagem passa pelo entendimento de institutos e fundações de que ela oferece ferramentas e tecnologias que se somam às já utilizadas pelo campo, mais do que uma ideia de novidade ou evolução.

Nesse sentido, uma das iniciativas possibilitadas pelo encontro organizado pelo GIFE foi dar início a um mapeamento de iniciativas brasileiras que contém similaridades ou elementos de VP. A partir desse diagnóstico, a expectativa é traçar estratégias para conectar esses atores e ações nacional e internacionalmente.

As iniciativas brasileiras estão tão maduras, sólidas e consistentes que muitas delas já possuem os conceitos de longo prazo, monitoramento e avaliação e mentoria em suas práticas. É muito bom perceber a responsabilidade e consistência de muitos dos projetos importantes realizados no Brasil”, afirma Camila.

Perspectivas

O debate com os membros da EVPA trouxe perspectivas para o futuro como difusão do conceito e diagnóstico das iniciativas. Para Camila, a Venture Philanthropy pode agregar mais uma possibilidade ao caminho da solução. “Os problemas sociais que enfrentamos são muito complexos e estruturais e por isso pedem soluções complexas e diversas. São 700 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza no mundo e 16 milhões de pessoas no Brasil. Segundo dados do Foundation Center, entre 2013 e 2015, as doações das fundações somaram 7,5 bilhões de dólares. Os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) precisam captar 2 trilhões de dólares até 2030. Temos um gap gigantesco. Com isso, vejo como fundamental o fortalecimento da cultura de doação, da filantropia, do ISP, do financiamento social de longo prazo, do investimento em finanças sociais e em soluções de mercado como os negócios de impacto que buscam resolver problemas socioambientais. Trazer novos investidores para o propósito de caminhar conjuntamente na resolução dos problemas complexos sociais que enfrentamos, com uma metodologia que agregue o tripé conceitual de VP, é mais uma forma de caminharmos na direção do fortalecimento das organizações da sociedade civil que buscam resolver esses problemas. Por isso, precisamos de todo mundo e de uma diversidade de soluções”.

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