Venture Philanthropy: importa menos o nome e mais o que ele traz consigo

Fábio Deboni[1]

Camila Aloi[2]

A preocupação constante em buscar formas sustentáveis de financiamento e qualificação dos projetos socioambientais para que autonomia, escala e impacto aconteçam, é algo que permeia muitas de nossas discussões na tarefa de aumentar recursos privados para promoção do bem público. Neste contexto emerge a agenda do Venture Philanthropy (VP) no Brasil e América Latina. Globalmente a VP vem sendo percebida como um ‘movimento’ que caminha de forma bem próxima ao do investimento de impacto, ainda que não sejam a mesma coisa.

Apesar de certa empolgação por parte de alguns institutos e fundações frente aos conceitos e abordagens trazidos pelo VP, ela vem recheada de dúvidas, a começar pela compreensão sobre o que, de fato, seria VP no contexto de atuação mais ‘histórico’ do campo do Investimento Social Privado (ISP) e da Filantropia.

Esta empolgação gerou, inclusive, a ida de uma delegação latino-americana com forte presença de brasileiros para a Conferência Anual da EVPA[3], com vários associados e não associados ao GIFE. De uma forma geral, a participação deste grupo no evento tinha três objetivos:

  1. ampliar a compreensão conceitual sobre VP;
  2. visualizar ferramentas utilizadas pelas organizações que atuam com VP (no contexto europeu);
  3. compreender os arranjos organizacionais e institucionais, bem como os desafios e as potencialidades, para a implementação de redes regionais de VP, a partir das experiências europeia (EVPA), asiática (AVPN) e africana, e tendo em vista a intenção de se mobilizar uma iniciativa similar na América Latina.

Na América Latina e, em especial no Brasil, é possível identificar duas percepções distintas sobre este tema, junto a institutos, fundações, ONGs e organizações do ecossistema de investimentos e negócios de impacto.

De um lado, alguns creem que este tema já é praticado na região, ainda que não sob essa denominação. De outro, há uma percepção de que, ainda que nossa região seja um celeiro de práticas criativas e inovadoras no campo socioambiental, estamos longe de ter, aqui, todas as características que, unidas na concepção e implementação do projeto, fundamentam o VP.

Sem entrar num debate de cunho conceitual, procuramos seguir com a mente aberta para compreender melhor o conceito de VP e, sobretudo, suas características, ferramentas e práticas. A partir deste mix de percepções, descritas na sequência, será possível a cada leitor(a) chegar a suas próprias conclusões sobre o tema.

Sobrevoo conceitual

O conceito atual de Venture Philanthropy começou a ganhar forma nos EUA em meados da década de 1990, influenciado por filantropos oriundos do mercado de Venture Capital (e Private Equity) e, a partir do início dos anos 2000, ganhou terreno na Europa, a partir do Reino Unido[4].

No contexto brasileiro encontramos pouco repertório sistematizando o termo[5]. Ora o termo é chamado de ‘filantropia estratégica’, ora de ‘filantropia de risco’, reforçando o fato de que o mesmo ainda não foi devidamente traduzido e incorporado por aqui.

Segundo a EVPA[6], VP é uma das ferramentas disponíveis no campo da filantropia / investimento social, que visa ampliar impacto socioambiental positivo a partir de três características principais:

 

Financiamento customizado

Processo através do qual uma organização de VP / Investimento Social oferece o instrumento financeiro mais adequado para apoiar uma organização com propósito social, escolhendo entre a gama de instrumentos financeiros disponíveis e definindo o prazo desse financiamento. A organização de VP constrói junto com a organização apoiada a compreensão de qual será o melhor instrumento financeiro para a organização. É importante ressaltar que o financiamento se dará numa perspectiva de longo prazo.
Suporte organizacional Oferta de serviços de apoio não financeiro para as organizações com propósito social (ONGs parceiras, beneficiárias, etc) de modo a fortalecer resiliência organizacional, sustentabilidade financeira, desenvolvimento de habilidades ou melhoria de estruturas e processos destas organizações.
Mensuração e Gestão de Impacto Capacidade de estabelecer métricas e formas de medir e gerir os  impactos positivos advindos da atuação e dos resultados das organizações com propósito social

 

No contexto do ISP vale reforçar que o crescimento do interesse de Institutos e Fundações no tema do VP passa pelo entendimento de que ele nos oferece novas ferramentas que venham a somar com as que já manejamos ao longo do campo da filantropia e do ISP, e não como uma evolução deste campo. Trata-se de  uma compreensão similar à da aproximação de institutos e fundações ao campo dos negócios de impacto.

No fundo o que se busca com estas novas abordagens e ferramentas é ampliar o impacto socioambiental positivo que organizações de diversos segmentos geram, agregando novas formas de endereçar impacto para além das práticas já consolidadas no terceiro setor e entre institutos e fundações.  Além disso, há uma preocupação em qualificar e prover um suporte estratégico para que as organizações da sociedade civil tenham clareza dos seus objetivos de impacto e possam construir estratégias sólidas nesta direção.

Caminhos para a prática do VP

Quais seriam então os caminhos e formas de incorporarmos esse mindset que o ‘movimento’ do VP traz para nós? Na sequência, listamos alguns caminhos possíveis, longe de tentar esgotar o assunto:

  • Ampliação das ferramentas financeiras: para além de doações (grants), já amplamente utilizados por institutos e fundações, novos instrumentos financeiros que já eram largamente utilizados no mundo dos negócios tradicionais e no mercado financeiro, passam a ser adaptados e incorporados no campo socioambiental. Como podemos gerar aprendizados no âmbito de institutos e fundações na gestão de empréstimos, dívidas, crowds(lending, equity), garantia e tantos outros instrumentos financeiros? Eles vão substituir o ‘bom e velho’ grant (doação)? Temos visto o crescimento do chamado ‘blended finance’ como forma de combinar recursos de doação (não-reembolsáveis) com instrumentos financeiros reembolsáveis. O tempo dirá se este será mesmo um caminho a ser pavimentado para a atuação do ISP.
  • Fortalecimento organizacional: o fortalecimento de OSCs e a cultura de grantmaking não figura entre o foco principal da atuação de institutos e fundações no Brasil, ainda que este tema venha ganhando relevância na atualidade. Há uma clara preferência pela execução direta, como já discutimos anteriormente[7]. Essa lógica do fortalecimento institucional, já bastante conhecida e discutida no terceiro setor, é reforçada no debate trazido pelo VP. Para nós ela tem plena sintonia com o mantra do ‘fortalecimento do ecossistema’ de negócios de impacto, em especial por meio do ‘apoio às organizações intermediárias’. Também já discutimos esse tema anteriormente[8].
  • Suporte financeiro e não-financeiro: o Brasil tem um histórico rico de práticas de voluntariado, que parecem ganhar novo fôlego recentemente. Além disso, ganha força os programas de pro-bono, que de certa forma, procuram dar contornos de gestão no voluntariado que é desenvolvido junto às OSCs. Esses dois exemplos reforçam a importância que o suporte não-financeiro vem recebendo, reforçando a hipótese de que apenas o recurso financeiro não é suficiente para assegurar/aprofundar/escalar impacto socioambiental positivo nas iniciativas já existentes. Vale agregar que força de marca (chancela institucional) e networking que institutos e fundações possuem são ativos muito relevantes e estratégicos que podem ser mais bem empregados neste sentido. Uma consequência que ecoa dessa estratégia, é a diminuição da distância entre beneficiador e beneficiário, que ao se aproximarem, fortalecem uma maior troca de conhecimento e experiência, valorizando o acúmulo de aprendizagem de cada ator desse ecossistema.
  • Parcerias de médio a longo prazo: preferência do ISP no Brasil por horizontes de curto prazo (1-3 anos), em geral via projetos anuais (ou bi), ao invés de horizontes de médio e longo prazos (3 a 7 anos). Se queremos com o ISP, de fato, fortalecer a sociedade civil no Brasil e a infraestrutura destes vários ecossistemas, deveríamos refletir mais profundamente sobre esta questão temporal.
  • Mensurar impacto: além de já termos incorporado como setor (ISP e terceiro setor) a narrativa da importância de mensurar impacto, o debate do VP reforça a necessidade de diversificarmos as ferramentas e de apoiarmos organizações focadas nesta dimensão, além de entender que devemos partir das métricas de monitoramento e avaliação que a organização acha relevante para ela. Historicamente no ISP temos ‘resolvido’ esta questão a partir do preenchimento de relatórios de progresso dos projetos apoiados, mas possivelmente isso não tem sido suficiente. Além disso, abordagens mais acadêmicas na linha do ‘padrão ouro’ de avaliação têm sido questionadas sobre o seu real papel de implementação. Neste contexto é que o debate sobre mensuração de impacto ganha força e nos mostra claramente que veio pra ficar.
  • Mudança de modelo mental: estar aberto a novas formas de endereçar questões socioambientais e conectar-se a um movimento global é parte integrante deste processo (VP). Compreender que nosso contexto contemporâneo pede mais articulação e que não fazemos mais nada sozinhos, traz a ideia de que os problemas complexos que enfrentamos como sociedade, pedem soluções coletivas. Conectados globalmente, teremos maiores possibilidades de gerar soluções inovadoras. Essas questões reforçam a tendência de co-investimento no âmbito do ISP, agregando a ela novas ferramentas para fomentar impacto social positivo. Essa adesão aparentemente fácil de ser feita, traz consigo a necessidade de que institutos e fundações repensem seus modus operandi mais focados em execução direta e própria. Além disso, será necessária, neste novo modelo, não só uma visão mais ampla do setor (ecossistema) como também assumir um papel bastante ativo nele.

 E o ISP com isso? E o GIFE com isso?

  • O GIFE busca através de suas ações ampliar, diversificar, fortalecer e qualificar o campo do ISP, trabalhando para adensar a sua rede com ações estratégicas para fortalecimento do ecossistema de investimento social. Nesse sentido, as práticas de VP são uma inspiração e trazem um novo olhar para ampliar a lógica de parceria e de desenvolvimento sustentável. Com isso, incorporar o conceito de VP e dialogar a partir dele para expandir o debate dos temas fronteiras do ISP, é um desafio e uma oportunidade que se coloca.
  • Se essa ampliação passa também pela mudança de mindset no âmbito do setor fundacional, será que estamos preparados (institutos e fundações) para isso? Em outras palavras, não adianta passarmos a fomentar e a esperar que OSCs girem a chave nesta direção (novos modelo/ novos instrumentos econômico para gerar/escalar impacto social) se no âmbito de nossas próprias organizações ainda não estejamos devidamente preparados para esta transformação. Estarmos preparados aqui passa não somente pelos ajustes legais e burocráticos, mas, sobretudo, por mudanças de modelo mental e de habilidades. É justamente este o convite que nos toca fazermos.

*Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do GIFE. 

[1] Gerente Executivo do Instituto Sabin (www.institutosabin.org.br). Atualmente coordena a Rede Temática de Negócios de Impacto do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) em conjunto com o ICE. Membro do Conselho do Gife. É autor do livro “Reflexões contemporâneas sobre Investimento Social Privado”. [email protected]

[2] Camila Aloi é formada em Pedagogia pela USP, pós-graduada em Responsabilidade Social no Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor (FIA, USP) e mestre em Comunicação e Educação pela Universidade Autônoma de Barcelona. É Assessora de Relacionamento no GIFE.

[3] Associação Europeia de Venture Philanthropy:   https://conference.evpa.eu.com/ e https://evpa.eu.com/

A ida da delegação já foi noticiada aqui: https://gife.org.br/gife-mobiliza-delegacao-latino-americana-para-a-14a-conferencia-da-european-venture-philanthropy-association/

[4] John, R., (2006), “Venture Philanthropy: the evolution of high engagement philanthropy in Europe”, Skoll Centre for Social

Entrepreneurship, Said Business School, University of Oxford.

[5] Em Portugal, a Maze Impact (ex-Laboratório de Investimento Social) traduziu o termo para “Filantropia Estratégica” e já produziu publicação sobre o tema (em português). http://maze-impact.com/

[6] https://evpa.eu.com/about-us/what-is-venture-philanthropy

[7] https://gife.org.br/por-que-executar-os-proprios-programas/

[8] https://gife.org.br/portas-de-entrada-ao-tema-de-negocios-de-impacto/

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