GIFE promove encontro para discutir desafios e tendências do investimento social familiar no país

Com a proposta de fortalecer e ampliar a filantropia familiar no Brasil, o GIFE promoveu no dia 24 de maio, o Encontro GIFE de Investimento Social Familiar, em São Paulo. A iniciativa reuniu mais de 60 pessoas, entre institutos e fundações, assim como demais interessados em debater sobre os desafios e as tendências para este campo no país.

Beatriz Johannpeter, presidente do Conselho do GIFE, que finaliza seu mandato em 31 de maio, ressaltou que o encontro é a culminância de esforços que o GIFE tem empreendido nos últimos anos de aproximar estes atores, assim como incentivar e fomentar que outras famílias possam também estruturar suas iniciativas.

Entre os marcos deste processo está o movimento de escuta junto às fundações familiares, em 2014, que deu o início aos primeiros encontros de troca de experiências. Já em 2015, foi lançada a pesquisa Retratos do Investimento Social Familiar e, em 2016, diversas ações foram promovidas, como uma mesa de debate no Congresso GIFE, produtos para disseminar os resultados da pesquisa e um workshop de cocriação para a construção do encontro deste ano.


O campo sob as perspectivas dos EUA e do Brasil

Para iniciar a conversa, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer estudos recentes, a fim de traçar um paralelo entre o panorama nacional e americano sobre o campo.

Foi apresentada uma pesquisa realizada pelo National Center for Familiy Philantropy sobre tendências das fundações familiares americanas, que contou a participação de 341 entidades desta natureza. O estudo apontou um amplo crescimento das fundações nos últimos anos, passando de 29 mil organizações em 2002 – e um total doado de 12 bilhões de dólares – para 42 mil fundações familiares em 2013, com 23,9 bilhões de dólares ativos doados.

A pesquisa buscou analisar os seguintes principais pontos: a identidade das fundações; conselho e governança; assuntos familiares; estratégias de doação; e olhar para o futuro. Sobre o perfil, foi identificado que 70% dessas fundações foram criadas depois de 1990, ou seja, são novas, e além disso pequenas e desconhecidas: destas, 70% têm ativos inferiores a 10 milhões de dólares e apenas 3% têm ativos superiores a 200 milhões de dólares.

A respeito deste campo no Brasil, Beatriz Johannpeter trouxe dados do Censo GIFE e da pesquisa Retratos do Investimento Social Familiar (leia matéria a respeito). Hoje, são 22 fundações e institutos familiares entre os 131 associados do GIFE, com grande concentração em São Paulo. Do total de R$3 bilhões investidos pelos associados em 2014, R$ 525 milhões foram feitos por fundações familiares.

Assim como nos EUA, as organizações são novas: 47% delas foram institucionalizadas entre 2001 e 2010 (48% foram criadas pelos patriarcas e 52% por seus herdeiros, sendo que metade destes o fez em consideração ao patriarca). Entre os principais motivos para doar estão questões como: sentimento de gratidão e vontade de retribuir à sociedade; preocupação com as desigualdades sociais do país; e influência religiosa.

Em relação à forma de atuação, 79% são executoras de projetos ou tem caráter híbrido (executam e doam) e apenas 21% são principalmente doadoras. Outra característica marcante destas organizações é a colaboração: 68% participaram de iniciativas em parceria com outros investidores sociais e 63% têm programas que procuram influenciar ou apoiar a construção de políticas públicas nos temas e territórios, com destaque para educação, assistência social e defesa de direitos.

A presidente do Conselho do GIFE ressaltou que são notáveis os avanços já estabelecidos pelo investimento social familiar no país, que se expressa através da ampliação do grupo destes atores entre os associados, por exemplo, mas há ainda fronteiras a serem ultrapassadas, como a ampliação e consolidação da cultura de doação no país e a diversidade territorial, saindo do eixo Rio-São Paulo.

“Precisamos também diversificar as áreas de atuação e temas estratégicos, pois estas fundações têm ampla possibilidade de entrar em agendas com pouca aderência nas corporações, como a questão dos direitos humanos. Podemos ser mais inovadores e motivadores de boas práticas. Precisamos aumentar a disposição para arriscar. E, para isso, é preciso trazer para os institutos e fundações familiares formas de governança que envolvam mais as gerações mais jovens”, enfatizou Beatriz.

 

Tendências e desafios

Mas, afinal, quais são as oportunidades para os investidores sociais familiares? Quais desafios ainda precisam enfrentar? Quais são os caminhos a serem percorridos? Para ajudar nesta reflexão e, tendo como ponto de partida a apresentação das pesquisas, o encontro promoveu um debate, contando com a participação de Beatriz Johannpeter, Neca Setubal (presidente do conselho da Fundação Tide Setubal), Marcelo Furtado (diretor do Instituto Arapyaú) – ambos membros do Conselho de Governança do GIFE – e mediação de José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE.

Neca Setubal trouxe como ponto de destaque justamente a possibilidade dos institutos e fundações familiares, por serem mais flexíveis e autônomos, do que outras organizações que têm sua imagem associada aos mantenedores, atuarem em campos áridos, mas extremamente importantes para a superação das desigualdades sociais do país, como questões indígenas, sistema judiciário, deficientes, gênero, entre outros. Porém, alertou para o risco dessa independência gerar uma atuação muito autorreferenciada. Por isso, a necessidade de estabelecer mais parcerias e buscar sempre uma ação com impacto.

“É basal se preocupar com o tema e nada mais contemporâneo do que a discussão de direitos. Isso é a base para a construção da cidadania. Mas, mais do que trocar de causa, é preciso uma abertura das fundações em se reinventar e buscar novas estratégias para sua atuação. E isso é possível trabalhando juntos. Mais do que um mercado competitivo, é preciso um mercado cooperativo para que essa troca aconteça e estimule esse movimento”, comentou Marcelo Furtado.

E essa nova forma de fazer, acreditam os especialistas, passa justamente por criar formas mais flexíveis e abertas a fim de garantir o engajamento e a participação das novas gerações no dia a dia das organizações. Na opinião de Beatriz, essa aproximação traz não apenas novas ideias, mas permite que os valores da família e os vínculos entre seus membros fiquem ainda mais fortes.

Os debatedores apontaram ainda contribuições importantes dos investidores sociais familiares para a transformação social do Brasil, como o fomento à cultura de doação, realização de iniciativas colaborativas e articuladas às políticas públicas, e de fortalecimento da sociedade civil. “Termos uma sociedade civil vibrante e atuante é fundamental para o nosso país. Por isso, temos o papel de apoiar as pequenas organizações e, junto com elas, abrir estes diálogos para atuar junto às políticas públicas, ganhando mais impacto e credibilidade”, ressaltou Neca Setubal.

 

Estratégia de atuação e legado

Os participantes tiveram a oportunidade de aprofundar, durante o encontro, algumas temáticas em mesas específicas, que contaram com o envolvimento de diversos investidores sociais familiares, visando compartilhar sua experiência diária.

Na sala “estratégia de atuação e legado” foi possível conhecer de perto as experiências do Instituto Alana e do Instituto Betty e Jacob Lafer, sobre questões como razões e princípios para doação, volume de recursos, tipos de operações e sugestões para atuação. O tema foi conduzido por Ana Toni, do Instituto Clima e Sociedade.

O Alana se estruturou em três frentes:  Alana enquanto associação sem fins lucrativos, com dezenas de projetos, como o Criança e Consumo – uma de suas primeiras iniciativas; o Alanapar, braço de participações no mercado de negócios sociais, como a produtora Maria Farinha Filmes e a agência 2020; além da Alana Foundation, baseada nos Estados Unidos e totalmente filantrópica, criada para investir em pesquisas. São cerca de 100 pessoas envolvidas nas diversas frentes.

Já o Instituto Betty e Jacob Lafer decidiu não operar projetos, mas financiar as organizações da sociedade civil que atuam com o tema de justiça criminal e políticas públicas de monitoramento, transparência e participação social. Hoje a organização apoia cerca de dez projetos por ano.

Durante a conversa com os participantes, foi destacada também a importância de se estabelecer relações de confiança com as organizações que recebem os recursos, construindo cada vez mais pontes por meio de um processo de colaboração e construção coletiva.

 

Inovação e impacto

Qual o potencial de inovação para os investidores sociais familiares? Quais fatores são impulsionadores dessa inovação? Onde inovar e quais parceiros precisam ser envolvidos? Essas foram algumas das questões que permearam a mesa de debate “Inovação e impacto”, que contou com a participação dos Institutos Península e Inspirare. A mediação foi realizada por Anna Penido, do Inspirare.

Na opinião dos investidores o alinhamento e parceria com as políticas públicas é a grande alavanca para gerar mais impacto, mas é preciso alinhar expectativas e gerar uma confiança mútua, na qual todos possam aplicar e desenvolver suas expertises. Para eles, é preciso lembrar que a inovação implica também em riscos, mas que ela não pode ser o fim em si mesma, e sim o meio para promover mudanças. Há questões ainda estruturantes no país a serem enfrentadas para que se possa avançar, como a falta de infraestrutura, principalmente quando a temática é ampliação e acesso de todos às novas tecnologias.

Assim, promover a interlocução com outras organizações e incentivar as menores também a apostarem nesta perspectiva pode ser um papel importante a ser assumido pelas fundações e institutos familiares, estabelecendo mais parcerias, com novas formas de fazer, mais cooperativas e flexíveis para ampliação do impacto.

 

Família e governança

Na mesa “família e governança”, a proposta foi conhecer as histórias das Fundações Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) e Arymax e do Instituto Samuel Klein e como tem sido a relação das famílias com a governança das instituições e o diálogo intergerações.

Na FMCSV, por exemplo, o Conselho conta com pessoas da família e outros profissionais do setor, com a preocupação de manter uma troca periódica para que a nova geração, assim como outros membros da família, possa participar. Já a direção executiva é feita por um profissional. Além disso, há um incentivo para que todos da família participem de cursos relacionados ao tema da atuação da Fundação e a respeito do investimento social privado.

No caso do Instituto Samuel Klein, a família está à frente da organização e toma as decisões em conjunto, com o apoio de um conselho consultivo, com a participação também de profissionais do campo

Durante o debate, os participantes puderam também discutir a respeito da relação entre família, empreendimentos empresariais e filantropia. No caso da Fundação Arymax, as ações estão bem definidas e a atividade filantrópica é da família, não tendo relação com o negócio. Um protocolo define critérios: pontos essenciais para participar dos conselhos de acionistas, da empresa, da Fundação etc. Com isso, a Fundação foi, cada vez mais, sendo profissionalizada, o que tornou possível inclusive desenvolver diversas competências que são levadas para o negócio.

Outro ponto levantado na conversa é a importância de contar com uma rede de apoio – organizações como o GIFE, consultores e outras instituições que já atuam no campo – para trocas de experiências e ajuda nas decisões e modelos de atuação, principalmente no início da instituição familiar.

Oportunidades

Na avaliação de Beatriz Johannpeter, o encontro foi um momento muito rico tanto para troca de experiências e conhecimentos entre pares, assim como para incentivar outras famílias a também desenvolverem suas iniciativas de investimento social.

“Foi um espaço, inclusive, para desmistificar para muitas famílias de que só é possível fazer algo com grandes estruturas, o que acaba, por vezes, sendo um empecilho. Elas perceberam que podem estruturar seu investimento social de diversas formas”, completou Beatriz, lembrando que, ao traçar esse panorama EUA versus Brasil, foi possível perceber que o país tem muitas oportunidades ainda para avançar neste campo, mas que passos largos já foram dados.

FacebookTwitterLinkedInGoogle+