GIFE reúne investidores sociais empresariais para debater sobre os desafios e avanços do setor

Com a proposta de fortalecer e ampliar o Investimento Social Empresarial no Brasil, o GIFE promoveu, no dia 25 de outubro, em São Paulo, um encontro reunindo mais de 110 representantes de institutos, fundações e empresas – associadas ou convidadas. A iniciativa foi uma oportunidade para aprofundar e refletir sobre temas desafiadores do setor, tendo como base o sentido público do ISP.

O primeiro debate teve como foco discutir sobre o lugar das empresas na esfera pública e contou com a participação de Fábio Barbosa, vice-presidente da Fundação Itaú Social; Malu Nunes, diretora do Grupo Boticário; e Neca Setubal, presidente do Conselho de Governança do GIFE e presidente da Fundação Tide Setubal; com mediação de José Marcelo Zacchi, secretário-geral do GIFE.

Fábio Barbosa iniciou o encontro destacando que as empresas têm uma responsabilidade social e que, portanto, por serem agentes de mudanças na sociedade, devem agir de forma coerente. E é justamente essa postura correta, transparente e ética – adotada tanto internamente como externamente – que as qualificam a ter um instituto ou fundação, por exemplo.

“Antes, existia a ideia de que ou ganha dinheiro ou causa impacto social. A questão hoje é como você faz os dois. A sociedade atual traz o conceito do ‘e’. Por isso, é preciso que todos estejam preparados para trabalhar com a luz acesa. Tudo o que fazemos as pessoas estão olhando. Digo que o ‘sarrafo’ está subindo cada vez mais. Precisamos nos ater que vamos ser julgados daqui a 10 anos pelo que fazemos hoje. Isso fica evidente quando vemos empresas sendo multadas devido a passivos ambientais que anos atrás não eram irregulares. Eram hábitos estabelecidos que hoje estão sendo julgados sob uma nova lógica”, ressaltou.

E essa nova maneira de atuar da sociedade exige, segundo Fábio, que as empresas se prepararem hoje pelo que vem no futuro. Isso significa uma sociedade que vai cobrar as empresas, cada vez mais, pelas suas atitudes, pelo impacto que causam. “As empresas precisam prestar atenção a isso por três razões: seja por convicção, porque acreditam que precisam trazer impacto social; por conveniência, porque todos estão fazendo; ou por constrangimento, por ser embaraçoso não fazer. Mas, seja qual for, devem fazer”. Atualmente, destaca ele, o valor de uma empresa tem a ver, inclusive, com a perspectiva de resultado no sentido de ser sustentável, de perpetuar o seu negócio num mundo mais transparente e estar alinhado a isso.

Outro aspecto levantado pelo vice-presidente da Fundação Itaú Social é a importância do investimento social empresarial, que deve ser alocado da forma mais estratégica possível a fim de que cause um impacto maior na sociedade. Para o especialista, é preciso trazer a visão e os conceitos do campo empresarial para o ISP, estabelecendo critérios para alocação correta e eficiente destes recursos, com responsabilidade. Com isso, os campos do investimento social e dos negócios se aproximam e se conectam.

“Não dá para olhar as coisas separadamente. Aqui eu olho para o negócio e aqui eu olho o impacto social. Precisamos sim unir as coisas”, alertou, ressaltando que a mobilização e a união de esforços serão essenciais para provocar as mudanças esperadas para o Brasil. “É um privilégio estarmos na nossa posição e podermos fazer algo para construir um país melhor. É uma oportunidade única. Estamos num momento de acender a luz sobre a sociedade que vivemos, os pontos obscuros e como a gente pode mobilizar, seja como cidadão, como fundação, como empresa, como pode mobilizar para trazer todo mundo. Não dá para ir bem num país que vai mal”, ponderou.

Mas, afinal, o que é possível fazer para que estes valores possam ir além da retórica e se tornar, de fato, ações? Como trazer o engajamento coletivo das empresas e seus institutos e fundações e modos de fazer, ampliando formas de conseguir impacto? Questionou José Marcelo aos debatedores.

Para Malu Nunes, diretora da Fundação Grupo Boticário, é preciso irá além de bons projetos para transformar sistemas. Para dar esse passo, portanto, é preciso entender a agenda pública. No caso do Grupo Boticário, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são agora o grande alinhamento e articulação entre ISP e o negócio. “Quando tem uma pauta global, como os ODS, se torna concreto esse interesse social, pois trará benefícios para a empresa e para toda a sociedade”, comentou.

Na avaliação da especialista, é a inovação que deve ser incorporada tanto nos processos internos quanto na atuação junto aos territórios. “É essencial que as fundações e institutos empresariais busquem sempre as melhores soluções e inovações para provocar transformações”, acredita.

Outro papel fundamental a ser desempenhado pelos institutos e fundações empresarias, comentou Neca Setubal, é a possibilidade de levar para dentro das empresas as suas causas, o seu modo de fazer, o olhar de quem está na ponta. E, neste sentido, inclusive, levantar temas e debates que, muitas vezes, estão à margem das empresas, mas que são essenciais para a sociedade, como a questão da diversidade, das desigualdades, das cidades, entre tantos outros desafios.

“Mas precisamos lembrar que não basta querermos fazer o bem, ter boa vontade, ou só mostrar o que foi feito de bom. Neste momento, em que estamos nos revendo enquanto sociedade brasileira, precisamos repensar o nosso investimento social. Qual o impacto que eles têm? É preciso um olhar mais estratégico de impacto e que possa influenciar as políticas públicas. E, para isso, precisamos nos articular, unir com quem faz atividades semelhantes, pensar de uma forma mais estratégica unindo advocacy em prol de uma causa”, ressaltou a presidente de Conselho do GIFE, destacando que, cada vez mais, essa atuação deve ser feita de forma transparente.

“O ISP está sendo colocado em cheque em muitos momentos. Por isso precisamos de transparência, mostrar o que estamos fazendo, como estamos fazendo, que resultados foram alcançados, para adquirir legitimidade. Isso vai fazer com que as ações tenham maior impacto”, completou.

ISP estratégico

Na segunda parte do encontro promovido pelo GIFE, os participantes se dividiram em dois painéis temáticos, que buscaram aprofundar os pontos iniciais trazidos pela primeira mesa de debate. O “Investimento social privado como investimento estratégico para empresa” foi o tema discutido por Ricardo Guimarães, CEO da Thymus Branding; Américo Mattar, diretor-presidente da Fundação Telefônica Vivo; e Pedro Massa, diretor-executivo do Instituto Coca-Cola e diretor da área de Valor Compartilhado da Coca-Cola; com a mediação de Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro pelo Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

A partir do resgate da frase de Fábio Barbosa, sobre o fato de que o ‘sarrafo está subindo’, Ricardo Guimarães ressaltou que isso está ocorrendo devido a um novo capitalismo que surge, que necessita redesenhar as ferramentas de aferição e de interferência na realidade. Assim, hoje, é preciso saber medir determinados ativos intangíveis, como as marcas, por exemplo, que são estratégicos, como pessoas, relacionamentos e conhecimento. “Isso é o que está garantindo o futuro das empresas”, ressaltou.

Outro aspecto fundamental a ser considerado é a inserção das novas tecnologias, que mudaram a dinâmica da sociedade, trazendo velocidade e interdependência. Com elas, a exigência da transparência ganha ainda mais força. Se antes as organizações tinham controle das relações, se permitiam ou não que as pessoas soubessem o que acontecia dentro, o que trazia mais segurança, isso acabou. Hoje, o cenário como um todo é transparente. “A pergunta então é: quem consegue responder a esse cenário com agilidade?  Quem tem coesão cultural suficiente para falar, para que todos possam redirecionar suas ações. Estamos falando de agilidade e coesão. E isso depende de uma identidade. Qual é a minha proposta de valor? Porque as pessoas vão investir na minha empresa? Qual o significado da minha empresa nesta sociedade? São estas perguntas que precisamos fazer”, questionou o especialista.

Diante disso, ponderou Ricardo, se faz necessário uma visão mais sistemática nas organizações, ver as complexidades existentes e redesenhar as ferramentas de gestão, se inserindo e se integrando num ecossistema, buscando não resultados, mas perenidade. E, essa perenidade depende essencialmente da confiança que a sociedade tem na cultura da organização. “E confiança não se registra em balanço. Isso depende da opinião que a sociedade tem sobre o futuro da minha organização”, comentou.

Para o especialista, essa coesão de cultura depende da não separação entre negócio e impacto positivo que a empresa tem na sociedade. “Esse valor compartilhado é uma evolução, precisamos cuidar dessa integração. O ISP corrige um desequilíbrio da sociedade causada pelas empresas. Precisamos cuidar do desequilíbrio sim, mas temos que capacitar as empresas a produzir uma sociedade sem desequilíbrio. Aí não vamos precisar mais de ISP. Essa é a utopia e o desafio”, acredita o especialista.

E como fazer estas aproximações e conexões no dia-a-dia? Para Pedro Massa, não há receita pronta e cada empresa e seu instituto ou fundação deverão encontrar o melhor caminho. No caso do Instituto Coca-Cola e sua mantenedora, foram testados vários modelos ao longo dos anos, às vezes mais focados no interesse público, em outros mais focados ao negócio. “E nestes momentos, o que eu aprendi é que o que tem que ser levar em conta é menos onde está – se mais próximo daqui ou ali, mas como você faz e o que está por trás. Se tiver coerência, consistência e verdade por trás, pode ter muita relevância fazendo isso menos ou mais conectado ao negócio e vai ter muito impacto”, compartilhou com os presentes.

Porém, a partir de sua experiência, acredita que realmente quando as estratégias dos institutos e fundações empresariais estão mais conectadas ao negócio têm maior potencial de conseguir escala e garantir que o seu impacto seja mais perene.

É o que acredita também Américo Mattar, diretor-presidente da Fundação Telefônica Vivo, ressaltando que hoje, na Fundação e empresa, não é mais possível separar o social do institucional. “Estamos vivendo um modelo orgânico de sociedade. Hoje, não basta mais para os profissionais serem bem remunerados. É levado em consideração também o que essa empresa representa na sociedade. No nosso caso, muitos profissionais optam pela empresa por termos a fundação. Esse valor já está conectado à marca. Não dá para dissociar”, comentou Américo, ressaltando que não é conflitante para a Fundação gerar valor para o negócio.

“Somos a maior empresa de telecomunicações no país e podemos aproveitar esse potencial incrível. Por que então, não usar as plataformas criadas para oferecer formação aos professores, por exemplo? É um ciclo virtuoso da nossa atuação, tanto para a empresa, quanto para a Fundação. E não fazemos isso sozinhos. É preciso fazer na coletividade, entendendo o que está acontecendo na sociedade e transformar essas necessidades em projetos. E isso gera valor para a empresa também. A palavra-chave é congruência”, completou.

Durante o painel, os participantes também questionaram os debatedores sobre como estabelecer estas aproximações no cotidiano, tendo em vista que, em muitos casos, a linguagem do negócio é muito distante da vivenciada pelos institutos e fundações, o que não promove o engajamento, principalmente das altas lideranças.

Uma possibilidade, destacou Américo, é estabelecer visitas da liderança da empresa aos projetos, como a Fundação Telefônica-Vivo tem realizado, com bons resultados, para que eles possam vivenciar essa realidade de perto. Outra possibilidade é integrar a diretoria da empresa ao conselho da organização e também na elaboração do seu planejamento estratégico ou convidar presidentes de outras empresas que já têm esse engajamento para trocas de experiências.

Um movimento importante também a ser feito é, cada vez mais, levar os valores e as causas para os processos decisórios, inclusive para os investidores externos, que passem a considerar estes indicadores no momento de decisão de alocação de recursos, como o que ocorre com os Green bonds ou Social bonds.

Já internamente, segundo os participantes, é preciso que as organizações se adequem e criem mecanismos para que sua postura, valores e ética que são compartilhados em projetos externos se reflitam na própria empresa ou fundação e instituto, como, por exemplo, nas políticas de gestão de pessoas. Na Fundação Telefônica-Vico, por exemplo, atualmente os gestores identificam as competências estabelecidas para atuar no programa de voluntariado para estabelecer promoções aos funcionários e o plano de desenvolvimento da liderança terá um pilar relacionado à Fundação.

Pedro Massa lembrou também que a partir do momento que o instituto ou fundação consegue encontrar nas demandas da sociedade questões que estão impactando diretamente ao negócio e que é possível de atuar a partir do ISP, esse interesse e, portanto, possibilidade de perenidade e legitimidade interna se amplia e as aproximações começam a fazer mais sentido.

No caso do Instituto Coca-Cola, por exemplo, o ponto de convergência foi a causa da ‘água’, algo fundamental para a vida e também para uma empresa de bebida, que passou a ser a prioridade do Instituto. Segundo Pedro, há alguns anos as ações de restauração florestal da empresa, por exemplo, que impactam diretamente na continuidade das nascentes e, consequentemente, na atuação dos pequenos agricultores, estavam desconectadas das estratégias do core. Agora, o Instituto identificou áreas prioritárias, por exemplo, em que estas ações podem ser desenvolvidas, beneficiando pequenos agricultores e o território e, ao mesmo tempo, possibilitando a atuação da empresa.

“Estamos também colocando o conhecimento da equipe da empresa à serviço dessa causa. A questão é: como eu consigo alavancar competências do negócio para resolver uma demanda do interesse público. A água não chega em vários lugares, por exemplo, por problema de logística, ou devido à qualidade. São duas competências que a empresa tem. Então, colocamos os nossos funcionários atuando junto ao poder público, por exemplo, para ajudá-los a resolver estes problemas. Isso com certeza trouxe mais engajamento interno”, contou.

Para além dos movimentos internos nas organizações, os especialistas ponderaram também a importância de mais colaboração entre os institutos e fundações para causas comuns, o que poderá trazer mais impacto para a sociedade. “Precisamos falar mais, compartilhar não só os ganhos, mas as dores também. Tem um aspecto de cultura corporativa que precisa ser compartilhada. Precisamos nos preparar para atuar neste momento de país”, refletiu Américo.

Parcerias e colaboração

“Parcerias com atores públicos, privados e organizações da sociedade civil (OSC)” foi o tema da outra mesa do encontro, que reuniu Beatriz Azeredo, diretora de Responsabilidade Social da TV Globo; Patricia Loyola, diretora de gestão e comunicação da Comunitas; Cloves Carvalho, diretor do Instituto Votorantim; e Giuliana Ortega, diretora-executiva do Instituto C&A.

Beatriz Azeredo deu início ao debate pontuando que parcerias são necessárias devido ao impacto gerado pela união de dois atores. Segundo ela, para que as parcerias sejam sustentáveis, é preciso ter uma visão de longo prazo, o que constitui um desafio uma vez que as empresas são cobradas por resultados imediatos. “A questão central da parceria é buscar impacto. Então, devemos responder: Como diferentes organizações podem trabalhar juntas em função de uma mesma causa? É preciso ter um desejo, interesse e objetivos em comum para que dê certo”.

Apesar de muitas vezes ser possível encontrar pontos em comum entre organizações, o desafio de articulação entre elas ainda é grande. Beatriz defende que a gestão de conflito é um aprendizado importante, principalmente quando se trata de parcerias com o setor público. “Juntar diferentes organizações gera conflito, mas não podemos deixar as parcerias morrerem. É preciso vencer as barreiras de preconceito que as empresas têm com o setor público e o contrário também, tentar entender os movimentos institucionais de cada lado e alinhar possibilidades de atuações conjuntas”, explicou. Além disso, ela destacou a necessidade de melhorar as avaliações de impacto de ações conjuntas, instrumento útil no desenvolvimento de próximas campanhas.

Para ilustrar suas falas, Beatriz trouxe alguns exemplos de parcerias bem sucedidas realizadas pela TV Globo. Uma delas, com a UNAIDS, teve como objetivo a redução da contaminação por HIV entre jovens. Foi possível tratar sobre o tema em matérias jornalísticas, além de desenvolver uma trama na novela Malhação, o que rendeu uma websérie. A parceria estabelecida entre TV Globo e a ONU Mulheres também teve destaque. Como a nova novela das nove – ‘O outro lado do paraíso’ – trará o tema de violência contra a mulher, foram gravados dez depoimentos inspiradores, a fim de repercutir histórias das mulheres em diferentes meios, como programas de debates e mídias digitais.

Estabelecer parcerias também é algo que está incorporado ao DNA do Instituto C&A, comentou Giuliana Ortega. Desde 1991, quando foi fundado, mais de 2 mil projetos nesse regime já foram realizados. “Por promover muitas ações conjuntas, o Instituto C&A tem um princípio da parceria, que é ‘articulação de distintos atores sociais que, potencializando competências e preservando suas identidades, agem conjuntamente em favor de causas de interesse mútuo’”, contou.

Nesse sentido, a diretora-executiva do Instituto destacou que a organização busca seguir quatro marcos da relação de parceria. São eles: 1. Estabelecer relações mais horizontais com as organizações sociais; 2. Respeitar o conhecimento das organizações e seu tempo, e não impor suas vontades como ‘financiador’; 3. Realizar um trabalho orientado pelo sentido público, pensando no que é bom para o todo, e não para o Instituto C&A; e 4. Fortalecer o parceiro e ouvir genuinamente sua opinião.

Complementando a fala de Beatriz sobre a necessidade das avaliações de impacto, Giuliana apresentou alguns resultados de uma pesquisa de opinião, realizada em 2016, com os parceiros da C&A Foundation. Entre os pontos positivos, foi destacado que as parcerias são úteis e benéficas e a frequência de contato com a fundação é maior do que em outras instituições financiadoras. Entretanto, um dos pontos de atenção foi o fato de parceiros terem de se encaixar no financiamento. “Na pesquisa, foi apontado que alguns parceiros sentem pressão de mudar suas prioridades. Isso acaba por distanciá-los de suas missões. A C&A Foundation precisa estabelecer parcerias com organizações que casem seus objetivos com os da fundação, para evitar um casamento forçado de missões”, defendeu Giuliana.

Em seguida, Cloves Carvalho, diretor do Instituto Votorantim, compartilhou o processo de mudança do posicionamento estratégico pelo qual o instituto passou no final de 2012. Segundo ele, foi possível perceber que os investimentos do instituto, apesar de serem muitos, eram pulverizados, gerando impacto econômico, mas nem sempre impacto social. A isso, seguiu-se o questionamento interno: Qual é a forma mais inteligente de atuar para gerar mais impacto? Qual legado queremos deixar para a comunidade?.

A partir desse ponto, o instituto passou a atuar em duas frentes: uma delas dedicada a ouvir a comunidade e gerar capital humano com a formação de pessoas, e a outra dedicada a estabelecer parcerias. O caminho encontrado foi a junção de interesses com o gestor público, responsável pelo desenvolvimento local.  “Devemos buscar parceria com gestores e mostrar que o Instituto Votorantim pode oferecer sua capilaridade, com a possibilidade de aumentar o impacto”, explicou Cloves Carvalho.

Como exemplo, ele citou a elaboração de um plano de desenvolvimento de 30 anos para o município de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. O “Plano de Ação Três Lagoas Sustentável” foi elaborado a partir da metodologia do Programa Emergentes e Sustentáveis (CES) do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), com a parceria entre o Instituto Votorantim e o BNDES, com apoio da Caixa Econômica Federal e outros atores, além da participação da população.

“O importante da parceria não é somente o aporte financeiro, mas o conhecimento, a experiência e a possibilidade de ter novos olhares e construir novas relações. É preciso buscar uma congruência nos objetivos para alcançar a sustentabilidade”, argumentou Cloves.

Patricia Loyola, diretora de gestão e comunicação da Comunitas, completou o pensamento ao afirmar que, apesar da dificuldade em pensar no longo prazo quando se trata de gestão pública, é necessário puxar para a questão do legado que o gestor público quer deixar. “Em gestão pública, o grande desafio é costurar com uma governança local, principal interessada no desenvolvimento daquela região”, disse.

Como reflexão final, os participantes concordaram que é preciso pensar em um investimento social privado estratégico, apostando em ações em rede, no fortalecimento dos parceiros frente à sociedade civil e do tecido social, ou seja, as pessoas. “É preciso olhar as parcerias de forma mais horizontal, além de fortalecer a sociedade civil e não enxergá-la como mera executora de projeto”, defendeu Giuliana.

“A questão da parceria coloca todo mundo na mesma roda para pensar estrategicamente como podemos agir, ao invés de atuar de uma forma fragmentada. Nós temos bons exemplos de parcerias, mas acredito que ainda estamos longe de ter isso como um padrão dominante”, ressaltou Beatriz. Segundo a diretora da TV Globo, é preciso ir além do financiamento de projetos, ultrapassar essa relação operacional e buscar uma causa maior em comum, para que parcerias estratégias sejam estabelecidas.

Avaliação

Para os participantes do encontro, a realização de uma iniciativa focada nos investidores sociais empresariais foi importante para que seja possível avançar num ISP cada vez mais qualificado e com resultados junto à sociedade.

“Nada substitui a experiência individual de cada organização, mas um evento como esse coloca as organizações em um contexto mais amplo e nos faz pensar no país como um todo. O GIFE oferece essa possibilidade de articulação a partir do compartilhamento de conhecimento. A questão não é homogeneizar o investimento, mas criar uma visão comum do que é investimento social privado e do que é gerar impacto e transformação. Nesse sentido, o GIFE é um bom mediador desse processo de aprendizagem”, destacou Beatriz Azeredo.

Para José Rogaciário dos Santos, presidente do Instituto Cooperforte, o encontro conseguiu levantar os questionamentos que acompanham o dia-a-dia dos investidores empresariais e que, portanto, o conhecimento adquirido será fundamental para a atuação local. “Vejo este momento como uma fonte para me abastecer e encorajar para poder mostrar com mais força e intensidade os objetivos e as metas à gestão, mas também os valores que temos compartilhado aqui no GIFE. Precisamos agora dar novos passos e sistematizar mais os nossos processos e iniciativas para que possam ser compartilhados”, acredita.

O encontro foi um espaço também para que novas parceiras possam ser estabelecidas. Juliana Santana, gerente de Responsabilidade Social da Fundação Bunge, conta que, logo após comentar na plenária sobre um projeto que a organização está promovendo no Pará, já foi contatada por outro instituto com atuação local para uma conversa e possibilidade de parceria no território.

“Além de ampliar, dar fôlego e substanciar nossa atividade, encontros como este se mostram essenciais também para gerar atuação conjunta. Isso sem falar nas discussões, como a respeito do alinhamento do ISP ao negócio, que é um tema mais do que urgente. Retomando o que o Fábio Barbosa ressaltou na abertura, não há como uma empresa ter uma atividade ilícita ou não se responsabilizar pelos impactos que causa e ter um instituto ou fundação fazendo um trabalho brilhante. A sociedade está mais do que atenta para denunciar estas incoerências. Isso não significa que o ISP tem que estar a serviço da empresa, pois tem como princípio gerar valor para o bem público. Mas não tem como não levar em consideração a cadeia de valor da empresa, seus clientes, fornecedores etc., num processo de escolha do investimento social da empresa. O impacto, com certeza, será muito maior”, comentou Juliana.

Key Facts

Durante o encontro, foi apresentado também o ‘Key Facts’, um hotsite produzido em parceria entre o GIFE e o Foundation Center (EUA),  com os principais resultados da oitava edição do Censo GIFE, uma das principais pesquisas sobre o investimento social privado no Brasil, que será lançada no dia 07 de dezembro de 2017. O Key Facts traz também informações sobre fundações dos Estados Unidos. Clique aqui para conferir os resultados.

Na próxima edição do RedeGIFE será possível conferir uma matéria completa sobre o material.

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